Meu mundo cabe numa ervilha*

Avião Amanheceu toró. Hoje o Rio ficou triste, o tempo ficou cinza e chuviscou. Porque somos um balneário, todo mundo é grau 6. Então uma amiga perdeu o amigo do primo, outra um cliente, e outra ainda um amigo comissário de bordo. E todos lastimaram ao saber que um dos casais do voo estava em lua de mel. A vida às vezes é assim. O Rio ficou triste à beça. Completamente cinza, e cor de inverno.
Marina W.

Pois é, a Marina disse de um jeito ótimo o que é a mais pura verdade: aqui todo mundo é grau seis. Ou, como eu mesma disse ontem repetidas vezes, o Rio de Janeiro cabe num avião (leia-se: a classe média que frequentou a universidade, a praia ou o Baixo Gávea).

Dois passageiros grau 1 (nenhum dos dois amigo próximo, mas pessoas conhecidas com quem convivi no trabalho e na faculdade) e outros grau 2, 3 e por aí vai: esse é o meu saldo pessoal do acidente. Isso sem falar nas inúmeras pessoas que quase pegaram aquele voo, que embarcaram no anterior, que sempre voam nesse horário etc e tal. Meu pai viajou no domingo à noite, só que por sorte escolheu a TAP – mas eu não sabia qual era a companhia e cheguei a ficar ligeiramente preocupada por alguns minutos de manhã, até conseguir falar com meu irmão e confirmar que estava tudo sob controle.

Enfim, foi mesmo um dia de chuva e tristeza. Acidentes aéreos sempre causam uma comoção proporcional ao espanto que é o próprio fato de voar. Diante do fascínio de um avião decolando ou sobrevoando a cidade, somos sempre meio primitivos, meio deslumbrados; é inevitável o sentimento de que algo espetacular está acontecendo. Daí que quando um avião cai, é como se nosso temor inicial se confirmasse: “tá vendo? esse troço não foi feito pra voar!” e não há engenharia nem estatística que nos liberte do medo irracional – e ancestral – de voar.

icaro

Nessas horas, somos todos um pouco ícaros, sendo punidos pelos deuses por nossa ousadia.

-Monix-

* a moça no metrô, hoje de manhã, disse: o Rio de Janeiro é do tamanho de uma ervilha. Nem é, mas às vezes parece.

5 Respostas

  1. Belo post. Ótimos comentários. Taí. Como vocês, sensações parecidas. Avião faz parte da minha vida mas não me acostumo, principalmente quando meu filho adolescente viaja sozinho (atravessa o oceano) pra ficar com o pai (uma ou duas vezes por ano, mas é o período mais tenso da minha vida). Esse acidente botou em cheque um monte de nossas concepções. Aconteceu o improvável. Se antes eu tinha medo das decolagens e das aterrissagens mas estava tranquila durante a viagem, agora perdi esse consolo. É realmente assustador, mas estou tentando pensar que o tráfico aéreo é tão intenso quanto o de terra e que acidentes como esse são 1 em 1 milhão. Não serve pra muita coisa, mas é uma tentativa de me reassegurar. Mesmo assim, fica a dor por aquelas pessoas, pra quem o 1 foi 1 milhão. Pessoas que, como disse a Gladys, “poderiam ser qualquer um de nós”.

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  2. Nossa qt tempo não comento aqui…
    Mais minha vida e dentro de um avião, para mim e como um onibus, pq so chego no trabalho se pega-lo…eu faço check in 04 vezes numa semana de 07 dias , mais o que mais me assusta e que poderia ser qualquer um de nós, poderia ter sido nossos filhos ou pais.
    Qto ao rio ser 6 graus, foi a melhor definição desta cidade que me acolhe a 16 anos….

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  3. Eu sempre fico arrasada com acidentes aéreos. Eu fiz o caminho inverso da cláudia, quando comecei a andar de avião (a primeira vez não tem nem 20 anos) eu achava o máximo, era só deslumbre e felicidade, medo zero. Hoje tenho meus receios e desconfianças, nunca fico inteiramente à vontade, e fico tensa ao menor sinal de turbulência.
    Mas o medo maior nem é quando eu viajo. Meu marido viaja com extrema frequência (esse ano tá sendo pelo menos uma vez por mês) e todas as vezes eu me pego rezando na hora da decolagem e na aterrisagem, só sossego quando ele manda o bendito sms garantindo que pousou em segurança.
    Aí quando acontecem coisas assim, é inevitável me passarem fantasmas pela alma. Haja anjo da guarda!

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  4. “Acidentes aéreos sempre causam uma comoção proporcional ao espanto que é o próprio fato de voar.”

    Nossa, meus anos de fobia de avião resumidos em uma só frase!

    Sempre achei isso também: um troço daquele peso e tamanho voando é nada mais, nada menos do que um milagre.

    Meu marido (engenheiro, claro) me dizia que eu tinha uma mente medieval, que eu pensava como um ser da Idade das Trevas….

    Hoje, por mais estranho que pareça, já não tenho mais medo de avião. Pode ter sido cansaço de tanta adrenalina, maturidade, qualquer coisa. Só sei que não teve nada a ver com entender como o avião funciona. Isso ainda é puro assombro para mim…
    Bjs!
    Cláudia.

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  5. Nossa, sensação idêntica. Não se fala em outra coisa nos lugares pq toda hora tem um grau qq coisa que estava no avião. Dia triste mesmo. A propósito, já vim aqui algumas vezes, mas nunca comentei. Gosto muito.

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