De raiz

friedan

Uma mulher deve ser capaz de perguntar, sem se sentir culpada, “quem sou eu e o que eu quero da vida?”
Não pode se sentir egoísta e neurótica se quiser objetivos fora do marido e dos filhos.
Betty Friedan 1921-2006

Há pouco tempo conversávamos, as duas Fridas, sobre feminismo. Também nisso, temos experiências semelhantes, já que nossa Xuxa foi a Marília Gabriela – o que, vocês hão de convir, faz toda diferença: não é uma mera troca de louras.

tvmulher

Antes de ir para a escola, assistíamos TV Mulher, um programa feminino bastante inovador para os padrões da época (pensando bem, ele seria ainda mais inovador hoje). Tinha o esquema culinária-casa-beleza, mas também um viés jornalístico importante, entrevistas com a craque Gabi, participação de figuras como Henfil, que fazia o hilário quadro TV Homem, e a então sexóloga Marta Suplicy, falando pela primeira vez na TV brasileira sobre orgasmo às 10 e meia da matina.

Assistimos também à Malu Mulher, que transformou Regina Duarte na “divorciadinha do Brasil”; ao especial Mulher 80, com várias cantoras brasileiras no auge da carreira naquele momento; ouvimos Rita Lee, que depois de ser Ovelha Negra e de andar com Esse tal de roquenrol, previu que a Miss Brasil 2000 seria “uma senhorita que nunca se viu” (infelizmente, nem foi). Na abertura do programa da Gabi, Rita avisava: melhor não provocar esse bicho esquisito, que todo mês sangra. Mas, acima de tudo, somos a primeira geração de meninas criadas pela primeira geração de mães que trabalharam fora. Portanto, o feminismo foi ou uma conseqüência óbvia (como pra Monix, que já se sabia feminista aos 12 anos) ou uma identidade tão naturalizada que levou tempo pra ser, de fato, assumida (como pra Helê, que descobriu que era negra muito antes de descobrir que era mulher). Há ainda uma long and widing road para percorrer, mas não podemos esquecer das pioneiras desta trajetória – como Betty Friedan, que morreu no dia 4 de fevereiro [de 2006], aos 85 anos, merecendo dos jornais um obtuário honesto, nada mais que isso. Uma mulher que ousou dizer a frase aí de cima, e sofreu horrores por isso, para que hoje ela soe banal.

Duas Fridas

(publicado originalmente no blogue antigo, em 16 de fevereiro de 2006)

7 Respostas

  1. […] on Terça-feira, 5 Julho, 2016 by Duas Fridas Sou de uma geração que não assistiu Xuxa porque as manhãs eram ocupadas pela TV Mulher da Marília Gabriela, da Xênia, da Marta Suplicy, […]

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  2. […] B Minhas asas feministas – Jux, do Dolcinha O pop que me deu o caminho – Luna, do Pernície De raiz – Monix e Helê, do Duas Fridas Mirem-se no exemplo – Somnia, do Borboleta Pequenina na […]

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  3. O que vem do coração nunca é banal :-)
    Bom post, gostei das informações, e mais ainda da frase da Betty Friedan.
    Obrigada pela oportunidade de solidificar meu feminismo!

    Obrigada você pela visita e pelo comentário, Nathália!
    Fique à vontade e conte sempre – a casa é nossa.
    Aquele Abraço,
    Helê

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  4. adorei! só que queria ter lido mais. tão curtinho.

    beijo.

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  5. Bons tempos aqueles, em que Marília Gabriela era jornalista…

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  6. Quando leio algumas coisas de vocês me pergunto se vocês não estavam lendo meus pensamentos. Pois eu sou de um tempo que a televisão educava. Isso é um lugar comum, mas verdade. Aprendi a ler praticamente sozinha assistindo o João da Silva as sete da manhã quando minha mãe me aprontava para o jardim. Cresci assistindo a mulher se emancipar, e querendo me emancipar junto. E fui educada para ser livre independente, como minha mãe era, só que ela era dessa geração que se sentia egoísta ao trabalhar e deixar os filhos em casa.
    Morando junto com meu namorado, eu vi o quanto foi difícil aceitar a relação, o casamento a ser oficializado daqui a quatro dias. Entre outras coisas por que sou dessa geração feminista que acha absurdo queimar sutiã, uma vez que ele é o único que dá suporte a nossa confrontação com o mundo. E aqui na Austria me confrontei com a vida de algumas mulheres, e não consigo aceitar a realidade delas e luto para continuar na minha luta de mulher emanciapada e esposa, Mesmo ainda que sem poder trabalhar. Eu não sei quanto as outras mas eu quero continuar independente trabalhando e se por ventura eu tiver filho não quero me sentir egoísta ou uma pessoa diferente por que realizei meus planos e assumi a minha vida em detrimento de outros. E sem culpar ninguém pelos meus erros. Chovendo no molhado vou dizer: eu me vi no seu texto! Pronto falei!

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  7. Interessante perceber o texto que resgata memória de um tempo, como ele se reconstitui para todas nós que vivemos a época descrita no post, independente do lugar em que estávamos nesse imenso Brasil, do tempo e das vivências …Me reconheci no texto!
    Abraços,

    Hebe – Fortaleza – CE

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