Mais essa!

2ladiesDepois da máquina de escrever, do jogo de vôlei sem hora pra acabar e da ideia com acento, agora podemos dizer que somos do tempo em que jornalista precisava de diploma. Homessa! (Palavra que não é da mesma época, mas pra turma que, como disse a Anna V., nasceu na Olimpíada de Seul, é a mesma coisa).

As duas Fridas

(que ainda estão formando opinião mais consistente sobre o assunto)

Banquete russo

O Dia dos Namorados já passou faz um tempinho, né? Mas eu queria escrever com calma e por isso segui meu lema de sempre: antes tarde do que mais tarde. ;-)

Este ano, escapamos do troféu Casal Tupi-Guarani 2009 comemorando a data com um almoço em Teresópolis. O restaurante Dona Irene, especializado na culinária russa da época dos czares, oferece um verdadeiro banquete, com direito a entradinhas frias, depois bolinhos quentes com a famosa sopa borsch (à base de beterrabas), mais uns petiscos quentes, e finalmente o prato principal.

entradas russas

 

 

 

Foto daqui.

As entradinhas são um ótimo começo, e o segredo é o equilíbrio nos sabores: há desde o arenque defumado, de gosto forte, até os suaves canapés de pepinos, passando por patês, conservas, maioneses e ovos cozidos.

Os petiscos quentes são muito bem temperados, e as frituras, crocantes e sequinhas, na medida certa. A sopa combina bem com o clima da região serrana do Rio – que, se no verão é agradável, no inverno permite aos cariocas enregelados, como eu, tirar os casacos pesados do armário para dar sua voltinha anual.

O prato principal deve ser escolhido no ato da reserva (e o restaurante só aceita clientes com reserva). Tente fugir à tentação de pedir os óbvios estrogonofe e frango à Kiev – embora digam que o estrogonofe de lá é o melhor de todos etc e tal, e eu acredito que seja. Mas se é para cair de cabeça numa experiência russa, eu acho que vale a pena aproveitar para provar pratos diferentes. Deixe para comer o estrogonofe na Polonesa  e conheça delícias típicas como o varênique, da Ucrânia (“pequenos pastéis recheados de batatas e ervas, acompanhados de escalopinhos de filé mignon grelhados e cebolinhas empanadas”), ou o podjarka (“escalopinhos de filé mignon, escalopinhos de frango, champignons, molho de ervas, batata noisette, flambados na hora de servir”). Sim, você leu direito, este último leva carne e frango, assim, juntinhos.

Depois dessa orgia gastronômica, o freguês ainda tem direito a uma sobremesinha. Quem não for dirigir pode degustar a vodca da casa, que, dizem, é ótima. Eu preferi me poupar de problemas com as autoridades e fiquei na água sem gás.

É comida pra mais de uma semana. Mas dá para comer em duas ou três horas e reservar o resto do tempo para um belo passeio na serra. :-)

-Monix-

Procura-se

A Primeira Leitora*, Ana Paula Medeiros, disse que ando hermética – um  atributo inadequado para uma jornalista, ainda mais uma que está procurando emprego. Então resolvi contar aqui que estou deixando (amigavelmente, é bom dizer) a organização na qual trabalho há mais  de dez anos e procurando trabalho – emprego ou frilas.  A pessoa em questão possui um mestrado em comunicação, vasta experiência no chamado  Terceiro Setor e em comunicação institucional, o que inclui a  coordenação editorial de periódicos, newsletters e website, para resumir a ópera.

Caso você, amável leitor, ou você, querida leitora, saiba de alguma possibilidade no Rio de Janeiro, por favor, entre  em contato. Se não souber e quiser ajudar, mantenha os dedos cruzados .

Helê, querendo mudar a trilha sonora  de U2 (I still haven’t found what I’m lookin g for) para The Smiths (I was looking for a job then I found a job).

*O título nobiliárquico foi concedido já há alguns anos porque a Ana foi a primeira pessoa que me disse “eu sou sua leitora”.  Ela o fez alegre e despreocupadamente, atravessando uma rua do Centro da cidade a caminho de um almoço, mas eu jamais esqueci a sensação que me causou esse pertencimento. Foi como um abraço, daqueles de onde a gente não quer mais sair ;-) .

Ele está entre nós

1984-capaEra concebível que eles vigiassem todo mundo, o tempo todo. (…) Você tinha que viver – e vivia, por um hábito que já se tornara instintivo – presumindo que cada som que você fizesse era escutado, e, exceto na escuridão, cada momento era inspecionado.

George Orwell, 1984 (em tradução minha mesmo, improvisada a partir do original em inglês aqui.)

 

 

Lendo a página inicial do Globo Online de hoje, não pude me furtar a pensar: o Big Brother já está entre nós. E não é aquele da Endemol.

toque recolher               filmar usuario

Eu sei que essa fobia orwelliana já se tornou apenas mais um lugar comum, e em geral não gosto de manifestar o medo-pelo-medo, sem elaboração. Até porque o medo-pelo-medo costuma estimular o sistema de vigilância permanente, e não o contrário. Mas quando a gente se depara de forma tão clara com os sintomas do zeitgeist desse início de século, é impossível não se espantar. É como enxergar o presente com distanciamento crítico – e nesse caso, o que é ainda mais instigante, um distanciamento crítico que vem do passado.

-Monix-

Update preventivo, já que alguns provavelmente vão pensar/comentar “ah, mas é importante ter esse tipo de controle, porque a violência/a pedofilia/o crime estão cada vez piores” etc:

Eu não sou uma otimista alienada que vê o mundo cor-de-rosa e que não sabe que são demais os perigos dessa vida, amor. Também tenho medo: circulo de carro sozinha, tenho um filho pequeno, ando de ônibus e ele também, moro perto de uma favela que no momento está “pacificada” mas nunca se sabe, enfim, vivo no Rio de Janeiro.

Não estou nem ao menos criticando a obsessão por controle e vigilância que caracteriza nosso tempo.

Este post, na verdade, é só uma constatação desse espírito do tempo. Acho interessante conseguir enxergar a época enquanto ela acontece. Será que seremos vistos dessa forma por quem vem depois? Ou a privacidade é um conceito específico do século XX, de duração tão curta quanto desnecessária? É mais nessas questões que estou pensando, e não especificamente nos casos do toque de recolher e das câmeras de vigilância nas lan houses e tal.

Vivendo e aprendendo a jogar

Já pensou em jogar um jogo de tabuleiro em que não há um tabuleiro propriamente dito e sim pequenas peças que ao se encaixar formam cidades medievais, estradas, mosteiros? Um jogo sem dados nem roletas, em que a sorte ou o azar têm pouca chance de aparecer?

catan

Depois de, nos últimos anos, ter abandonado o hábito que já foi uma das minhas diversões favoritas, voltei ao mundo dos jogos de tabuleiro. Só que desta vez o que me interessa não são os Master, Imagem & Ação, Detetive nem o interminável War de sempre.

Um amigo deu a dica, meu namorado encampou a ideia e eis que descobrimos todo um novo mundo antes desconhecido. São jogos europeus, e lá este mercado é tão forte e respeitado que os nomes dos autores aparecem na caixa, com destaque, como é feito nos livros. Há prêmios para os melhores de cada ano, e centenas de jogos diferentes no mercado.

Quem está acostumado com os jogos que conhecemos, sabe que existem meia dúzia de “modelos” semelhantes: cartões com perguntas, tabuleiros em que se avança ou retrocede, jogos com dados, jogos com cartas, e ficamos mais ou menos por aí.

Mas estes jogos europeus (que na Alemanha são bastante populares) têm características variáveis; cada jogo tem uma estrutura se não única, bastante criativa.

Em geral  a estratégia é mais importante que a sorte. São raros os jogos com dados, por exemplo. Os temas costumam ser históricos ou de fantasia, mas não exatamente bélicos – alguns têm temas “econômicos”, como a construção de uma cidade, a colonização de uma nova terra, o assentamento de tribos pré-históricas e por aí vai.

À primeira vista, as regras podem até parecer complicadas, mas a “jogabilidade” é excelente, ou seja, as partidas são dinâmicas, além de relativamente rápidas, o que possibilita que se joguem várias por noite – ou até jogos diferentes numa mesma reunião de amigos. Não há eliminação de jogadores, portanto jamais acontecerá aquele anti-clima típico do War que é alguém ser eliminado no meio da partida e terminar a noite dormindo no canto do sofá, enquanto Dudinka ataca Vladivostok pela enésima vez

Outras vantagens dos jogos europeus: mesmo quem nunca jogou pode ter um bom resultado já de primeira; a qualidade gráfica das peças e tabuleiros (e até das caixas) é de primeira linha – alguns jogos de cartas parecem baralhos de tarô, de tão bem desenhados; muitos oferecem a possibilidade de se comprar expansões, que trazem novidades ao jogo quando a gente já está quase enjoando.

carcassonne

Eu comecei pelo Carcassonne, um jogo delicioso, criativo e, aviso logo: potencialmente viciante. Não há tabuleiro, e sim pequenas peças de território que se encaixam conforme regras pré-determinadas. Dependendo de seu posicionamento, as peças dos jogadores poderão assumir as funções de cavaleiros, camponeses, ladrões ou monges. Existem algumas expansões – já jogamos a Inns & Cathedrals, mas acredito que todas devem ser interessantes.

Outros jogos que já testei, todos bem legais:

Citadels – Jogo de cartas com tabuleiro (pequeno), bom para jogar em grupo.

Condottiere_Cards

Condottiere – Também de cartas+tabuleiro, mas esse dá pra jogar bem com duas pessoas.

stoneage

Stone Age – Difícil explicar como funciona (embora seja fácil de jogar quando se aprende). Basicamente, joga-se em um tabuleiro grande, com cartas e dados.

San Juan – Jogo de cartas, também dá para jogar com duas ou mais pessoas.

Settlers of Catan –  Esse foi o que menos gostei, mas está longe de ser ruim. Alé de ser um dos mais populares, é considerado uma boa “porta de entrada” para esse universo dos jogos.

Infelizmente, ainda não é nada fácil encontrá-los à venda no Brasil. Mas quem se interessar pode tentar o Ebay ou os fóruns de board games que reúnem brasileiros.  Parace que a Devir está começando a trazer alguns jogos para cá, mas não sei se a compra online funciona bem.

E nem vou desejar boa sorte, porque você provavelmente não vai precisar. ;-)

-Monix-

História

Semana passada, mais precisamente na sexta, 5 de junho,  essa foto completou 20 anos. Lembro bem Não, vou ser sincera: eu pensava que lembrava fielmente dessa cena, sob todos os aspectos inesquecível. Mas pesquisando para postar a imagem percebi que a Dona Memória* –  sempre ela! -,  fez  das suas e eu havia perdido alguns detalhes (ainda bem que a Dona Internet é bem mais organizada…).  Não lembrava, por exemplo da fileira de tanques ser tão longa, nem que a certa altura o Tank Man subia em cima do primeiro, tentando falar com o piloto. A imagem é icônica e está para minha geração assim como está a da menina vietmanita pra geração anterior.

O aniversário da foto e dos protestos na Praça da Paz Celestial foram cuidadosa e previamente reprimidos na China, como era de se esperar. Sobre o tal manifestante mantém-se o mistério, acabamento perfeito para os heróis e as lendas – até hoje não se sabe quem é, se está vivo ou morto, se foi preso ou fugiu. Mas o gesto está gravado no álbum coletivo da humanidade. O vídeo está disponível a um clique, e vale a pena ser revisto. Mesmo eu, que achei já tê-lo visto o suficiente nesta encadernação, voltei a me emocionar com aquele homem enfrentando canhões com duas sacolas nas mãos e invertendo os papéis: confrontado, o tanque tenta contornar, mas agora é o homem a ameaça. O piloto vai pra esquerda e o homem vai também; a máquina torna pra direita e ele a acompanha, e por um instante a gente acredita que ele vai vencer.

Ou, talvez, por alguns instantes, ele tenha mesmo vencido.

Helê

*Minha amiga Maria João Amado ensinou, eu já disse aqui, mas não custa lembrar:  “A memória é uma senhora velha e louca que joga comida fora e guarda trapos coloridos”.
Há uma foto, bem menos impactante, feita por um fotógrafo que estava na rua, a alguns metros da cena. Veja nesse blog do New York Times.

Esperança & torcida

Helê

Courage

Helê

De raiz

friedan

Uma mulher deve ser capaz de perguntar, sem se sentir culpada, “quem sou eu e o que eu quero da vida?”
Não pode se sentir egoísta e neurótica se quiser objetivos fora do marido e dos filhos.
Betty Friedan 1921-2006

Há pouco tempo conversávamos, as duas Fridas, sobre feminismo. Também nisso, temos experiências semelhantes, já que nossa Xuxa foi a Marília Gabriela – o que, vocês hão de convir, faz toda diferença: não é uma mera troca de louras.

tvmulher

Antes de ir para a escola, assistíamos TV Mulher, um programa feminino bastante inovador para os padrões da época (pensando bem, ele seria ainda mais inovador hoje). Tinha o esquema culinária-casa-beleza, mas também um viés jornalístico importante, entrevistas com a craque Gabi, participação de figuras como Henfil, que fazia o hilário quadro TV Homem, e a então sexóloga Marta Suplicy, falando pela primeira vez na TV brasileira sobre orgasmo às 10 e meia da matina.

Assistimos também à Malu Mulher, que transformou Regina Duarte na “divorciadinha do Brasil”; ao especial Mulher 80, com várias cantoras brasileiras no auge da carreira naquele momento; ouvimos Rita Lee, que depois de ser Ovelha Negra e de andar com Esse tal de roquenrol, previu que a Miss Brasil 2000 seria “uma senhorita que nunca se viu” (infelizmente, nem foi). Na abertura do programa da Gabi, Rita avisava: melhor não provocar esse bicho esquisito, que todo mês sangra. Mas, acima de tudo, somos a primeira geração de meninas criadas pela primeira geração de mães que trabalharam fora. Portanto, o feminismo foi ou uma conseqüência óbvia (como pra Monix, que já se sabia feminista aos 12 anos) ou uma identidade tão naturalizada que levou tempo pra ser, de fato, assumida (como pra Helê, que descobriu que era negra muito antes de descobrir que era mulher). Há ainda uma long and widing road para percorrer, mas não podemos esquecer das pioneiras desta trajetória – como Betty Friedan, que morreu no dia 4 de fevereiro [de 2006], aos 85 anos, merecendo dos jornais um obtuário honesto, nada mais que isso. Uma mulher que ousou dizer a frase aí de cima, e sofreu horrores por isso, para que hoje ela soe banal.

Duas Fridas

(publicado originalmente no blogue antigo, em 16 de fevereiro de 2006)

Meu mundo cabe numa ervilha*

Avião Amanheceu toró. Hoje o Rio ficou triste, o tempo ficou cinza e chuviscou. Porque somos um balneário, todo mundo é grau 6. Então uma amiga perdeu o amigo do primo, outra um cliente, e outra ainda um amigo comissário de bordo. E todos lastimaram ao saber que um dos casais do voo estava em lua de mel. A vida às vezes é assim. O Rio ficou triste à beça. Completamente cinza, e cor de inverno.
Marina W.

Pois é, a Marina disse de um jeito ótimo o que é a mais pura verdade: aqui todo mundo é grau seis. Ou, como eu mesma disse ontem repetidas vezes, o Rio de Janeiro cabe num avião (leia-se: a classe média que frequentou a universidade, a praia ou o Baixo Gávea).

Dois passageiros grau 1 (nenhum dos dois amigo próximo, mas pessoas conhecidas com quem convivi no trabalho e na faculdade) e outros grau 2, 3 e por aí vai: esse é o meu saldo pessoal do acidente. Isso sem falar nas inúmeras pessoas que quase pegaram aquele voo, que embarcaram no anterior, que sempre voam nesse horário etc e tal. Meu pai viajou no domingo à noite, só que por sorte escolheu a TAP – mas eu não sabia qual era a companhia e cheguei a ficar ligeiramente preocupada por alguns minutos de manhã, até conseguir falar com meu irmão e confirmar que estava tudo sob controle.

Enfim, foi mesmo um dia de chuva e tristeza. Acidentes aéreos sempre causam uma comoção proporcional ao espanto que é o próprio fato de voar. Diante do fascínio de um avião decolando ou sobrevoando a cidade, somos sempre meio primitivos, meio deslumbrados; é inevitável o sentimento de que algo espetacular está acontecendo. Daí que quando um avião cai, é como se nosso temor inicial se confirmasse: “tá vendo? esse troço não foi feito pra voar!” e não há engenharia nem estatística que nos liberte do medo irracional – e ancestral – de voar.

icaro

Nessas horas, somos todos um pouco ícaros, sendo punidos pelos deuses por nossa ousadia.

-Monix-

* a moça no metrô, hoje de manhã, disse: o Rio de Janeiro é do tamanho de uma ervilha. Nem é, mas às vezes parece.
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