Valor real

“Quanta coisa mudou nesses 15 anos: eu casei, descasei, tive dois filhos, casei de novo, mudei de emprego, mudei de área, mudei de assunto – e não faço a mínima ideia de onde pode estar a minha HP. Mas o Real continua aí. Pra quem cresceu achando que preço não era coisa que podia ficar igual por mais de uma semana, parece um milagre.”

Martha Mendonça

Eu era uma típica adolescente de classe média, ou seja, não sabia o preço de nada, nunca tinha lavado uma peça de roupa na vida e achava que o leite vinha da caixinha (tá, eu não era tão alienada assim, mas vocês me concedam essa “licença poética”). Estava passando na frente do açougue e, pasma, percebi que tinha carne à venda. Não tive dúvidas: entrei na fila e depois de uma hora de torturante espera, cheguei em casa, triunfante, com dois quilos de carne de segunda! Sim, eu sobrevivi ao Plano Cruzado.

Eu não era assalariada, mas lembro de quando meus pais aplicavam o pagamento do mês no overnight.

Eu não era dona de casa, mas já “apostei corrida” com o funcionário do supermercado do bairro, que ia remarcando os preços várias vezes por dia.

Quando entrei na faculdade, as aulas particulares que dei para garantir o cineminha nosso de cada semana eram cobradas em OTN. Imaginem, uma aluna de Comunicação Social, com histórico de reprovação em matemática, calculando preços indexados.

Em resumo, me criei numa cultura inflacionária. Poderia dar muitos outros exemplos de como a inflação estava presente no meu dia-a-dia mesmo antes de eu integrar a chamada população economicamente ativa.

O resultado disso é que minha relação com dinheiro sempre foi, como direi?, bastante casual. Foi muito difícil aprender a me planejar financeiramente, e atribuo isto a diversos motivos (familiares, idiossincráticos), mas dentre eles com certeza destaco o fato de ter crescido lidando com uma moeda que, pelo menos na minha ótica, não tinha muita correspondência com a noção de valor real. (Aliás, minto: uma moeda não; várias.)

Hoje em dia tenho me esforçado para aprender – não sem dificuldade – a comprar só quando tenho dinheiro para pagar; a planejar as despesas fixas de forma consciente; a pesquisar preços. Ainda não atingi o ideal de viver a vida à vista, mas chego lá.

488494_36019311Quinze anos atrás, o noticiário econômico era inteiramente pautado pela cobertura da inflação. Decisões políticas eram tomadas em função da necessidade de controle (ou não) de preços. A estabilidade econômica trouxe, nesse sentido, uma tranquilidade institucional que, na minha opinião, beneficiou muito a consolidação da até então frágil democracia brasileira.

Não tenho conhecimento nem estofo intelectual suficientes para elaborar esse raciocínio. Mas não posso deixar de pensar que o Plano Real foi um marco na nossa história. E, por consequência, na minha.

-Monix-

3 Respostas

  1. Olá, Monix, adorei o post. Eu sou confessadamente uma grande admiradora do plano cruzado, não somente porque trouxe à classe média a perspectiva de ter dinheiro que valha a mesma coisa no final do mês, ou porque garantiu a entrada no crédito de tanta getne. MAs, sobretudo, porque a inflação era um bicho que prejudicava muito as classes menos favorecidas, tirando-lhes a visibilidade “do que custa o que “e deixando-lhes à margem do consumo. Um dos grande feitos da estabilização da economia, juntamente com a criação do crédito à classe média, foi a habilitação das classes C e D ao crédito. O benefício às classes mais desfavorecidas, apesar de nem tão comentado, foi enorme. E ainda que malhem o FHC, eu resto uma grande fã. Ele viabilizou a mudança da nossa história. Beijo

    Gigi, eu nem sou fã do FHC não, mas sem dúvida os ganhos da estabilidade econômica foram bastante democráticos: acho que todo mundo saiu ganhando (talvez com exceção do pessoal que ganhava com a especulação financeira, mas deles a gente não tem pena, né? hahaha) Bjs, Monix

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  2. A Gisele aí em cima cantou uma música que me deixa um tanto deprê. Esse “todos juntos, vamos, pra frente Brasil, Brasil”, lembra-me os horrores dos anos de chumbo, a alienação a que tantos de nós fomos submetidos, e me conduz mais uma vez a essa constatação diária de como nossas vidas são impactadas por modelos políticos, econômicos, etc, etc. Vocês assistiram “Quando meus pais saíram de férias”? Eu já tinha uma sensação muito ruim quando ouvia essa música; depois desse filme, a coisa piorou…
    Monix, também fui uma garota de família classe média tentando sobreviver à inflação…

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  3. Pois é. Monix viver a vida a vista foi fácil. Eu sempre fiz parte das trabalhadoras que nem tinham muita renda para ter um emprego que lhes dessem direito de ter crédito. Quando ia ter era demitida e ficava sem renda de novo. Mas eu também apliquei meu “rico” dinheiro de bolsita de inciação científica no Over…heheheheeh. Pense.Uma aluninha de universidade… Mas agora que vc me explicou descobri por que tive dificuldades com dinheiro. Mas agora morando aqui do outro lado do atlantico desempregada(a tres anos), aliás não sou desempregada faço parte do contigente em formaçãom, tudo raças ao bigodinho austríaco que quis dominar o mundo e mudou a forma de contar os desempregados. Estudantes e Donas de casas não estão nesse contingente. Mas como eu postei no meu blog a minutos atrás, me faz admirar muito os brasileiros com relação ao desapego as moedas… Seja o que for o que importa é a que está vigindo agora. Enquanto os austríacos ainda vivem forçadamente indo e voltando ao passado fazendo um a conversão para uma moeda que não existe o Schilling, tudo eles pensam em schiling também não operam o desapego…Mas o que eu mas tenho gostado do plano real é dessa banda de cambio com o dolar com viés de baixa… isso me deixou feliz nos últimos anos… É isso aí para frente é que se anda. E como diziam quando eu nasci… Todos juntos, vamos,prá frente Brasil!

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