Ainda Michael

Quando John Lennon morreu, em dezembro de 1980, eu tinha 10 anos e fiquei muito impressionada. Naquele dia parecia que todas as pessoas do mundo falavam da mesma coisa. Um longínquo sussurro de memória diz que presenciei algo semelhante na morte do Elvis, mas do alto dos meus sete anos eu não tive disponibilidade pra prestar atenção. Três anos depois eu fui capaz de compreender o que significava comoção. Quando entrei numa papelaria do bairro e o velhinho balconista – alguém absolutamente fora da minha idéia de roquenrol – também falava do Lennon, concluí que ele devia ser realmente especial.

Coisa semelhante acontece agora, quase 30 anos depois. Ainda se fala muito sobre Michael Jackson, e eu tenho procurado me manter um pouco à parte, resguardado-me da pieguice e dos exageros. Porque eu quero continuar a ouvir Thriller daqui a alguns meses e anos, e a experiência com John me incapacitou, por exemplo, para ouvir “Imagine” pra sempre: está no rol das músicas que só poderei escutar na próxima encadernação.

Mas queria fazer uma anotação, por assim dizer, sobre a questão racial. A Marjorie escreveu um post interessante sobre o assunto, ao qual eu não tenho muito mais a acrescentar.  Só queria pensar nessa curiosa trajetória do astro negro, talvez o maior deles, que em algum momento deve ter desagragado parte da comunidade afroamericana. Não apenas por clarear a pele e afinar os traços, mas porque para muitos a atitude antirracista passa pela reafirmação da raça, e não pela sua supressão – portanto, it MATTERS if you’re black or white. Hoje a associação imediata é orgulho + gay, mas foram os negros os primeiros a resignificar sua condição tornando-a um atributo: say it out loud, I’m black and I’m proud! E eu suspeito que tenha havido críticas à postura de Michael (a caixa de comentários está disponível para respostas à essa especulação).

Entretanto, com a sua morte, a comunidade negra de certa maneira reivindica o astro para si. Tanto porque a ela pertence, de fato e direito, quanto porque lá a origem conta mais que tudo, one drop rule:  se o sangue é negro a cor realmente não importa. Achei essa foto do histórico teatro Apollo forte e significativa emblemática. Soou para mim como um statement,  uma lembrança de que o Rei do Pop universal era um negro americano, parte de uma noblíssima linhagem que tem, entre muitos, Ray Charles, Marvin Gaye, Billy Hollyday, James Brown e outros tantos que passaram pelo Apollo, no início de carreira ou já aclamados. Mesmo branco ao morrer, foi sendo um fabuloso músico americano negro que ele consegiu ser um artista extraordinário, neither black nor white.

Helê

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