Pausa para poesia

Dolores

Adélia Prado

Hoje me deu tristeza,
sofri três tipos de medo
acrescido do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
não tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
“Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência…”
Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia…
e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos…
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas dignas
não recusam casamento, antes acham sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo
e varrer a casa de manhã.

Uma tal esperança imploro a Deus.

Helê

Ironia

Nessas horas é que eu percebo o imenso senso de humor do Todo Poderoso (ou do Destino, se preferirem). A história é a seguinte: a Amazon criou um aparelho chamado kindle para leitura de livros digitais, os e-books. Uma espécie de ipod para livros. Você compra o tal aparelho e paga para receber por ele livros e notícias de jornais. Acontece que a Amazon descobriu que livros estavam sendo baixados para o kindle sem que a compra tenha sido feita pelo site da empresa, e então apagou os livros transferidos de maneira irregular. Mais ou menos como se, por exemplo, a Apple apagasse músicas no seu ipod que não foram baixadas pelo itunes. Ou se Microsoft apagasse do seu computador textos que não foram escritos num Word não original.

Os detalhes técnicos sobre como isso foi descoberto e como os arquivos foram apagados leiam, por favor, na notícia – que eu sou uma pessoa do século passado, como se sabe, e certas coisas eu entendo, mas não sou capaz de explicar. O cúmulo da ironia nesse babado tecnológico é que foram dois livros de George Orwell envolvidos no imbróglio, sendo um deles nada mais nada menos que 1984, aquele do Grande Irmão. Que coisa, heim?

Legendas que eu não consegui colocar sob as imagens nem por um c*: à esquerda o kindle, e à direita Mr. Orwell com cara de “Eu te disse, eu te disse!

Helê

%d bloggers like this: