E assim se passaram 10 anos

No último dia 6 de setembro completei 10 anos sem fumar. Uma marca que me deixa muito feliz, cheguei até a fazer um trofeuzinho virtual pra mim. Mas minha alegria é discreta porque sei que estou celebrando 10 anos de resistência. Não é pouco, mas não pode ser considerada uma vitória clássica, de algo efetivamente conquistado. Cuido para não ceder à vontade, mas ai de mim se não o fizer: ela ainda existe, mesmo tanto tempo depois. Afinal, trata-se de um vício, e no meu caso, um trago pode botar tudo a perder.

O que digo pode não ser animador para quem quer parar, eu sei, mas é honesto. Eu temia exatamente isso quando fumava, e perguntava aos ex-fumantes: “Mas vem cá, você ainda sente vontade?”. A maioria dizia que sim, e eu achava impossível resistir a uma vontade pelo resto da vida. Mas olha, você aí que pensa parecido: dá sim, viu? A vontade persiste, mas ela muda, você também – a vida então, nem se fala!… E as vantagens compensam. É necessário saber quais são elas, porque cada um tem seu próprio caminho e terá seus ganhos e dificuldades. Não lembro, por exemplo, de descobrir uma infinita miríade de sabores e cheiros antes inacessíveis por causa do cigarro, uma das promessas da propaganda antitabagista. Mas ganhei, por exemplo,  a liberdade imensa de poder sair de casa com absolutamente NADA nas mãos – incomodava-me profundamente poder deixar até a chave de casa na portaria, mas ter que sair com um maço de cigarros, como uma inseparável algema.

Bom, então isso posto, deixa eu dar um vivaeu pra mim que eu mereço, ora bolas.  Com direito a troféu. Viva!

Helê

Certas canções

Acredito piamente que há uma música para todas as situações sob a face da terra. Há, inclusive, canções que falam sobre outras canções que conseguem traduzir nossos sentimentos, formando um espiral metalinguístico-musical. Talvez o exemplo mais bem acabado em português seja “Certas canções”, que vai direto ao ponto: “Certas canções que ouço/cabem tão dentro de mim/que perguntar carece/como não fui eu que fiz?”. Anos atrás, assisti uma entrevista do Milton Nascimento em que ele dizia, com uma desconcertante sinceridade, que foi motivado por uma mistura de inveja com indignação ao ouvir “Ebony and Ivory”, sucesso de Stevie Wonder e Paul MacCartney. Bituca se disse inconformado com o fato de que, mesmo após anos à frente de um piano, não ter pensando antes naquela imagem óbvia: ébano e marfim lado a lado, em harmonia, etc.

O disco “Soy latino americano”, de Zé Rodrix, gravado no longínquo 1976, tem entre suas faixas a pungente  “Eu vou comprar esse disco”, que também descreve sem rodeios e com certa gratidão a capacidade de outra pessoa expressar o que o autor sentia: “Eu vou comprar esse disco/que toca sempre no rádio/dizendo tudo que eu sinto/eu sei que o cara que canta/nem sabe que eu existo/ mas s história que ele conta parece feita sob medida pra mim”. Em pleno século 21 talvez sejam necessárias umas notas de pé de página para nova geração – comprar disco?!? – mas o sentimento permanece, atemporal.

Em inglês o exemplo mais famoso – e, na verdade, o único que conheço – é a clássica “Killing me softly with his song”, mega hit de Roberta Flack. Reza a lenda que a canção foi inspirada em Don McLean: a cantora Lori Lieberman teria visto um concerto dele e ficado impressionada com músicas que pareciam descrevê-la. A canção narra com detalhes o acontecido:  “I heard he sang a good song/I heard he had a style/And so I came to see him and listen for a while/And there he was this young boy, stranger to my eyes/Strumming my pain with his fingers/Singing my life with his words/Killing me softly with this song”.

E vocês, têm alguma a acrescentar à lista? As citadas estão lá no DufasDial.

Helê

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