Bom finde

Helê

By the foot of the letter

O Millôr Fernandes tem um livro muito engraçado, The Cow Went to The Swamp, em que ele compila uma série de versões para o inglês para expressões comuns em português, só que ao pé da letra.

De uns anos para cá, as traduções dos títulos de filmes aqui no Brasil estão merecendo entrar para essa antologia. (Antigamente o pessoal era bem mais criativo, como já escrevi no blogue antigo.)

Vão dizer que não? Vejam se a tradução do novo filme do Tarantino não ficou muito mais coloquial, muito mais adequada ao nosso idioma, da forma como foi feita por nossos “irmãos” portugueses:

sacanas-sem-lei

-Monix-

Ciclo

Sinto que um ciclo se encerra em minha vida.

Um ciclo que, aliás, tem tudo a ver com este blog, que começou a surgir como ideia a partir do nome Duas Fridas. Por causa de um comentário sobre o quadro, feito pela Nina no Livro de Visitas do Mothern tantos anos atrás, consegui me definir, naquele momento, como uma mulher que usava uma anágua vermelha por baixo de uma saia bege. Essa metáfora foi tão forte para mim que acabou simbolizando esta minha busca interior. (Depois veio o convite para a Helê e a Frida dividida em duas acabou se transformando em duas Fridas efetivamente, mas isso é outra história.)

O processo de mudança já estava, então, iniciado, mas sem dúvida a experiência de uma escrita mais pessoal e subjetiva foi parte fundamental do percurso. E agora que me aproximo de um novo ponto de partida, seja ele qual for, percebo que finalmente posso aposentar a saia bege e adotar a anágua vermelha como minha vestimenta oficial. Essa imagem é, obviamente, simbólica, mas também se reflete em um plano mais concreto. Hoje minha casa é toda colorida (as cadeiras, uma de cada cor, foram uma ideia linda do Cláudio Luiz, detalhada pela minha talentosa irmã); meu guarda-roupa, idem. Minha vida está mais colorida, a verdade é essa.

E com sincronicidade existe e deve ser aproveitada quando se apresenta, a Zel escreveu lindamente e de forma bem mais sintética tudo isso que estou querendo dizer:

(…) entendi o seguinte: sentir é mais importante que pensar. a emoção é mais importante que o intelecto.
passei mais de 30 anos construindo (e super valorizando) meu intelecto e no fim das contas o que realmente importa é como me sinto. pensar e intelectualizar é só uma muleta para quando algo dá errado no sentir.

Estou muito satisfeita com esta nova versão de mim mesma. Me aguardem, pois sinto que isto é só o começo.

-Monix-

Correr é poder (ou: a 1ª 10 km a gente também não esquece)

Dom Maia já cantou há muito tempo que do Leme ao Pontal não há nada igual (no mundo).  Mas basta um trechinho: ali do final da Barra ao começo de Ipanema já dá pra deixar qualquer um boquiaberto – mesmo que esse um seja uma carioca nata, para quem o caminho está longe de ser uma novidade.

Acontece que no domingo passado eu participei da minha primeira corrida oficial de 10km, a Human Race. Depois de treinar na estonteante Lagoa Rodrigo de Freitas, aventurei-me nesta prova com algum receio – que treino é treino, jogo é jogo, como se sabe no futebol. Além do mais, no meio do caminho havia não uma pedra, mas montanhas, e a av. Niemeyer era um das subidas. Mas pagamos pra ver –  digo, pra correr -,  eu e Manu, e lá fomos nós, na nossa domingueira matinal.

Foi uma experiência sensorial, gente. Imaginem o que é correr da Barra até Ipanema. Não, eu não estou falando do calor ou do cansaço, eu estou falando da vista, do percurso, da montanha, pedra e mar, nessa cidade arrebatadora em que eu vivo. E correr, estando preparada, é uma das melhores maneiras de desfrutar disso: de carro é rapido demais; andando acho que cansaria – me interna, eu sei, mas é verdade. Ao correr senti que estava aproveitando tudo ao máximo no ritmo certo, sem pressa e sem perder tempo.

Escrevo isso e acho que ainda estou sob efeito das drogas da corrida, porque no final eu senti a serotonia , ou  outra ‘ina’ qualquer atuando intensamente no meu corpo, no meu sistema nem um pouco nervoso. Fiquei emocionada como naquela primeira, deu até o mesmo bolo na garganta, depois que cruzei a linha de chegada. Estava extremamente feliz, me sentindo empoderada de fato (eu também acho feia a palavra, não gosto desses estrangerismos, mas nesse caso  tem um sentido mais próximo do meu sentimento que ‘poderosa’. O poder estava em mim – ou sempre esteve, mas se revelou então de maneira inequívoca).

Av. NiemeyerAinda na Niemeyer,  quando olhei pra trás e vi aquele mar de gente, e vi o tanto que eu já tinha corrido e soube  que iria até o fim, deu um orgulho enorme de mim mesma, cara. Porque é chão, viu? E eu nunca fui o tipo atlético. Sempre era a última a ser escolhida no time de queimado, não era boa em pular elástico, todas as minhas medalhas de natação ganhei em revezamentos porque minha equipe era ótima e eu já caia na piscina com uma volta de vantagem. Então mesmo mantendo a regularidade nos treinos, sempre me surpeendo comigo mesma e com minha capacidade de superação: corri meu melhor tempo, menor até do que o que consegui correndo na esteira.

Creio que  a sensação de poder vem também do fato que correr é, na verdade, algo muito simples, cujo equipamento principal é o seu corpo, então foi realmente você quem conseguiu, sem intermediação. Claro que numa bicicleta ou remando seu corpo age como propulsor principal, mas tem algo entre você e o meio –   que na corrida é o só o tênis, que não tem alavanca ou roda, só te protege. Vem daí essa sensação de inteireza, de estar completa, presente e inteira naquele momento: é você, seu corpo, sua respiração, cada um de seus poros que estão te levando nessa jornada.

Além disso, correr é de uma simplicidade atroz, e querendo,  basta parar. Mesmo numa prova: ninguém te controla e há muitas pessoas que caminham. Porque desistir é tão fácil, persistir torna-se ainda mais difícil.

Tudo isso explica a classificação dessa experiência como sensorial. Tudo isso e essa cidade, porque nesses cenários tudo fica infinitamente mais interessante, belo, recompensador. No fim da corrida, naquele estado alterado de euforia e felicidade, ainda em êxtase, eu disse à Manu, com uma marra que eu nem tenho, mas é bem carioca: “Eu corro porque é no Rio!!!”

Fotos, na ordem em que aparecem: aquecimento na Barra, Av. Niemeyer, elevado do Joá; praia de São Conrado e  praia do Leblon

Helê

Sob ameaça

A sócia ameaçou e até deu prazo para meu retorno. Os leitores, ou são excessivamente compreensivos, o que seria comovente, ou não deram a menor bola para minha ausência; jamais saberemos. 😛

Enfim, o fato é que vocês querendo ou não, estou de volta! Foram dois meses de um trabalho extremamente puxado que consumiu meu corpo e minha alma. <fim do modo drama queen>

Depois, dez dias de merecidas e maravilhosas férias na Bahia, onde todas as férias deveriam ser.

Com a bênção dos orixás, volto à casa. Cheia de axé e meio sem assunto, porque essa coisa de blogar tem que ser feita com ritmo, quando a gente para tem que voltar ao início do tabuleiro. (Mais ou menos como as corridas da sócia Helê.) Mas o importante é começar, e bola pro mato que o jogo é de campeonato.

Cá estou. Senti saudades disso aqui.

-Monix-

Don’t let me be misunderstood – coleção

Herdei de meu pai minha relação intensa com a música. Na maioria das vezes de maneira passiva, apenas por observação e audição. Mas lembro de uma lição direta: ele me dizendo, muitos anos atrás, que boas músicas são gravadas muitas vezes. Dessa forma as canções realmente importantes tornam-se atemporais, mantendo-se através dos anos, em diferentes releituras. A remota lembrança que tenho dessa conversa rescende a maresia, a luz é a do fim de tarde na praia do Grumari, aqui no Rio de Janeiro; no rádio do Fusca tocava “Your song”, do Elton John. Recém instalada na Casa dos Quarenta, não sou capaz de assegurar a autenticidade da lembrança, mas importa a verossimilhança: se não aconteceu exatamente assim, poderia ter sido.

Com o advento do emepetrês eu passei a colecionar versões de algumas músicas, talvez inspirada nessa lição do pai. Não tenho duplicatas de tudo o que eu gosto, não vale a pena. Músicas, como as pessoas, há as que queremos todo dia sem enfado, e aquelas com que se pode estar de tempos em tempos – o que não significa que possamos delas prescindir. (Evidente e infelizmente, não escapamos das intragáveis, pessoas e canções.)

Mas há as que a gente não se cansa de desfrutar, e que gosta de redescobrir sob um novo arranjo ou interpretação. Entre elas está “Don’t let me be misunderstood”.  A versão que ouvi primeiro era do Santa Esmeralda, bem dançante, meio latina, tinha eu uns oito anos de idade. Ela fazia parte da na trilha sonora da novela “O astro” (aquela em que o Cuoco era um vidente canastrão (!!!) e que começava com o João Bosco torcendo “Em setembro, se Vênus me ajudar, virá alguém”). O pessoal mais novo pode ter conhecido na trilha sonora do filme Kill Bill.

Mas a possibilidade de ser mal interpretado assombra há muito tempo, mais precisamente desde 1964, quando a grande dama Nina Simone gravou-a pela primeira vez. Seguiu-se a versão do The Animals e vários outros pediram clemência ao todo poderoso: Joe Cocker, Lou Rawls, John tudo-de-bom Legend, os brasileiros Edson Cordeiro, Sidney Magal e Juliana Aquino.  Yusuf Islam – para sempre Cat Stevens pra mim – gravou em seu disco de retorno, após um intervalo de mais de 20 anos na carreira. Sua conversão ao islamismo rendeu muita especulação e polêmica, fazendo-nos imaginar que se trata de uma resposta à intolerância que ele sofreu. Mas nem é preciso causa tão grave, quem de nós já não se pegou justificando “I’m just a soul whose intentions are good”?

As dez versões que selecionei são bastante diferentes entre si, mas todas têm – para usar uma expressão musical emprestada de Noel –  feitio de oração. Seja com a roupagem sóbria de Nina Simone, na batida disco de Edson Cordeiro, na voz sempre rascante de Joe Cocker, ou mesmo na suavidade de Juliana Aquino, permanece um sentido de urgência e um pedido de absolvição. Escolha a sua favorita. Ou não: faça como eu e fique com todas :-).

No Dufas Dial, of claro.

Helê

Coming soon

Eu sei que vocês estão roxos de saudades de la Otra, aguardem um bocadim mais que ela já vai voltar. Ela teve que trabalhar um pouco demais da conta – o que sempre atrapalha enormemente nossa função aqui – e depois, nada mais justo, foi descansar. Mas tenham paciência e relevem. Ela já carregou esse blogue nas costas muuuuitas vezes; daqui a pouco voltamos à dobradinha costumeira. Enquanto isso, mantenham-se fiéis e comentem, que eu não quero entregar a casa pra ela com nota baixa.

Baideuei, inicia-se a contagem para o comentário nº2000, concorrendo à disputadíssima Mariola das Fridas (quem provou não esquece jamais!). Estamos em 1990, and counting.

Helê

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