Don’t let me be misunderstood – coleção

Herdei de meu pai minha relação intensa com a música. Na maioria das vezes de maneira passiva, apenas por observação e audição. Mas lembro de uma lição direta: ele me dizendo, muitos anos atrás, que boas músicas são gravadas muitas vezes. Dessa forma as canções realmente importantes tornam-se atemporais, mantendo-se através dos anos, em diferentes releituras. A remota lembrança que tenho dessa conversa rescende a maresia, a luz é a do fim de tarde na praia do Grumari, aqui no Rio de Janeiro; no rádio do Fusca tocava “Your song”, do Elton John. Recém instalada na Casa dos Quarenta, não sou capaz de assegurar a autenticidade da lembrança, mas importa a verossimilhança: se não aconteceu exatamente assim, poderia ter sido.

Com o advento do emepetrês eu passei a colecionar versões de algumas músicas, talvez inspirada nessa lição do pai. Não tenho duplicatas de tudo o que eu gosto, não vale a pena. Músicas, como as pessoas, há as que queremos todo dia sem enfado, e aquelas com que se pode estar de tempos em tempos – o que não significa que possamos delas prescindir. (Evidente e infelizmente, não escapamos das intragáveis, pessoas e canções.)

Mas há as que a gente não se cansa de desfrutar, e que gosta de redescobrir sob um novo arranjo ou interpretação. Entre elas está “Don’t let me be misunderstood”.  A versão que ouvi primeiro era do Santa Esmeralda, bem dançante, meio latina, tinha eu uns oito anos de idade. Ela fazia parte da na trilha sonora da novela “O astro” (aquela em que o Cuoco era um vidente canastrão (!!!) e que começava com o João Bosco torcendo “Em setembro, se Vênus me ajudar, virá alguém”). O pessoal mais novo pode ter conhecido na trilha sonora do filme Kill Bill.

Mas a possibilidade de ser mal interpretado assombra há muito tempo, mais precisamente desde 1964, quando a grande dama Nina Simone gravou-a pela primeira vez. Seguiu-se a versão do The Animals e vários outros pediram clemência ao todo poderoso: Joe Cocker, Lou Rawls, John tudo-de-bom Legend, os brasileiros Edson Cordeiro, Sidney Magal e Juliana Aquino.  Yusuf Islam – para sempre Cat Stevens pra mim – gravou em seu disco de retorno, após um intervalo de mais de 20 anos na carreira. Sua conversão ao islamismo rendeu muita especulação e polêmica, fazendo-nos imaginar que se trata de uma resposta à intolerância que ele sofreu. Mas nem é preciso causa tão grave, quem de nós já não se pegou justificando “I’m just a soul whose intentions are good”?

As dez versões que selecionei são bastante diferentes entre si, mas todas têm – para usar uma expressão musical emprestada de Noel –  feitio de oração. Seja com a roupagem sóbria de Nina Simone, na batida disco de Edson Cordeiro, na voz sempre rascante de Joe Cocker, ou mesmo na suavidade de Juliana Aquino, permanece um sentido de urgência e um pedido de absolvição. Escolha a sua favorita. Ou não: faça como eu e fique com todas :-).

No Dufas Dial, of claro.

Helê

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Coming soon

Eu sei que vocês estão roxos de saudades de la Otra, aguardem um bocadim mais que ela já vai voltar. Ela teve que trabalhar um pouco demais da conta – o que sempre atrapalha enormemente nossa função aqui – e depois, nada mais justo, foi descansar. Mas tenham paciência e relevem. Ela já carregou esse blogue nas costas muuuuitas vezes; daqui a pouco voltamos à dobradinha costumeira. Enquanto isso, mantenham-se fiéis e comentem, que eu não quero entregar a casa pra ela com nota baixa.

Baideuei, inicia-se a contagem para o comentário nº2000, concorrendo à disputadíssima Mariola das Fridas (quem provou não esquece jamais!). Estamos em 1990, and counting.

Helê

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