E tem dias em que ninguém pode, ninguém está, ninguém atende. Foda, viu? Primeiro você tem que vencer as distâncias, o constrangimento, o medo de ser mala. Então, quando você finalmente telefona, escreve, bate à porta, entra no MSN, ninguém está disponível. E isso não quer dizer muito mais que isso mesmo: naquele momento aquela pessoa não pode estar com você. O que não significa que ela não queira em outro momento, nem que você é um looser patético. Mas é difícil. Muito difícil não transformar isso em uma miríade de sentimentos negativos, o diabinho saltitando na sua cabeça e rindo da sua cara com vontade. Lembro do filme “Ele não está tão afim de você”, da cena em que a Drew Barrymore diz que antigamente era só saber se o telefone ia tocar ou não. No máximo, uma secretária eletrônica que dizia “nenhuma mensagem”. Agora não, tem e-mail, sms, twitter e mais uma meia dúzia de outras maneiras de ser rejeitada. Em tempo real. Unbearable. Tem dias que de noite é assim mesmo. Ou, como disse muito melhor o Chico, tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu.

Helê

Mais perto

ps

Esse aí não saiu do túnel do tempo, mas da minha carteira mesmo. Por conta do post aí de baixo eu entrei no site dos Paralamas na sexta-feira passada. Bom, pra fazer curta uma história longa, eu participei de uma promoção  e ganhei ingressos para assistir ao show. Que foi muito, muito bom, melhor que eu imaginava: nem curto nem longo, com a combinação precisa de novas músicas e antigos sucessos e um Herbert sorridente como eu não vi no filme.

Eu precisava contar isso pra vocês que comentaram no post passado, festejando ou requisitando a identidade paralâmica. E também para acrescentar algo importante que faltou dizer: uma das maiores emoções do filme deve-se à constatação de que o Herbert está ali diante de nós, aquele que nós conhecemos. Com cicatrizes e sequelas , claro, mas a mesma pessoa. Já vimos algumas pessoas famosas que sofreram traumas semelhantes e sobreviveram, mas com um terrível comprometimento da própria identidade. Numa entrevista recente ao Globo Herbert disse que é cada vez mais ele mesmo. É o que se vê no documentário; foi o que conclui, feliz, depois do show de sábado.

Helê

Herbert de perto

Nesta semana assisti a “Herbert de perto” – graçadeus sozinha, que assim eu pude gargalhar e chorar à vontade, sobretudo chorar. Não é um filme triste, mas tocante. Tanto pela tragédia que Herbert viveu quanto pelo amor que sedimentou  sua recuperação: a dedicação da família e dos amigos  – em especial a relação dele com o irmão Hermano – é  comovente.

Trata-se de um documentário bem feito e sem grandes revelações. Mas para mim e para alguns da minha geração (alô, André!) acaba sendo também documento da nossa própria vida, nós que fomos crescendo e envelhecendo junto e ao som dos Paralamas do Sucesso (menos o Barone, que esse não envelhece,  parece ter a mesma cara até hoje!). Eu me acabei de dançar com “Óculos” e me achava transgressora aos 14 anos cantando “qual é seu guarda/que papo careta!”.  De lá pra cá, várias músicas estão relacionadas com uma fase, evento ou a determinadas pessoas na minha vida. Lembro exatamente de onde estava quando soube do acidente com o Herbert, da angústia ao acompanhar as manchetes diárias, da imagem de São Judas Tadeu enviada pelo Flamengo para ajudar um de seus torcedores mais fiéis. Então foi inevitável essa simbiose entre a trajetória dele(s) e a minha; foi como ver um pouco da própria vida na tela e rever momentos marcantes da vida de alguém a quem quero muito bem – a despeito de nunca tê-lo encontrado, e que provavelmente nunca encontrarei.

Helê

Tijucana

Eu experimentei na pele um ditado muito usado na minha família – a minha avó falava, minha mãe repete e eu provavelmente vou reproduzir. Não é lá muito bonito, mas certeiro: “a língua é o chicote do rabo”. Quem me conhece há (muito) mais tempo deve ter me ouvido dizer que eu detestava a Tijuca, porque lá todo mundo vivia de aparências. Quem conseguia subir de vida, mas não o suficiente pra chegar à zona sul, ia pra lá. Os que dilapidavam o patrimônio familiar mas não a ponto precisar usar pegar o trem na Central, idem. E assim se juntava um montão de gente tentando ser o que ainda ou já não era.

Mas Greta Garbo, quem diria?, veio morar na Tijuca.  E hoje, há mais de dez anos no bairro, não sei direito de onde eu tirei essa história. Existe um imaginário em torno do tijucano como alguém conservador, moralista, do tempo em que as meninas que estudavam no Instituto de Educação namoravam os meninos do Colégio Militar (quem lembra de “Anos Dourados”?). Acontece que hoje as meninas estudam no Colégio Militar. Além disso, se o bairro tem suas áreas nobres e uma suposta elite, também está coalhado de favelas (ou comunidades, como preferem os corretores), tem pelo menos 3 escolas de samba, universidades e incontáveis  botecos. Ou seja, abriga uma vasta diversidade social. Há ainda atrativos como a floresta da Tijuca e o Maraca –  sem falar de artigos de luxo, em franca extinção em outras cercanias, como praças e bandas.

Em resumo, eu paguei a língua e tive que rever meus conceitos sobre a Tijuca e os tijucanos – eu que me incluo agora entre eles, por direito adquirido e carinho conquistado.

Helê

Zona de conforto

Ó só, deixa eu falar uma parada pra vocês: não existe isso de “sair da zona de conforto”. Não repitam isso, for Christ’s sake. Já está virando um modismo, quase como ‘a nível de’ foi tempos atrás. E além de chato, como qualquer modismo, devo dizer-lhes, amigos, que trata-se de uma impossibilidade. Pensei em diversos adjetivos (emocional, física, moral) mas basta dizer impossibilidade humana. Ninguém sai da zona de conforto. Porque, a despeito de ser uma zona real muitas vezes, isto é, um lugar de caos, o conforto prevalece. E that’s what’s all about, é isso que buscamos todos nós, conforto, segurança, acolhida,  o previsível do cotidiano – ainda que seja tolerada ou até bem-vinda uma ou outra novidade pra variar um bocadinho. Ninguém sai da zona de conforto. Dela somos expelidos, expulsos,  em geral de forma violenta. E quando acontece ficamos mesmo desacorçoados, perdidos, muito fodidos,  tentando achar um caminho – ou construir um – que nos leve a uma nova zona de conforto, humanos que somos.

Adeus, Bloo

Trilha sonora do post no Dufas Dial, as usual.

Esse é nome do último episódio da Mansão Foster para amigos imaginários, um dos meus desenhos contemporâneos favoritos. Foi exibido há menos de um mês, mas eu ainda não me conformo. Inclusive porque o fim de um desenho é algo estranhíssimo, se você pensar bem. Você sabe qual é, por exemplo, o episódio derradeiro do Pica-pau, ou do Manda Chuva? Parece que eles nunca deixaram de ser feitos: nós é que crescemos e deixamos de assistir, apenas. Talvez por isso eu tenha me sentido um pouco abandonada com o fim daquela que, afinal, é uma foster’s home.

Houve um tempo que que eu parava tudo que estava fazendo, duas vezes por dia, para assistir com minha filha. Tinha o apelo e a delícia de ser um ritual com filhote, claro, mas a verdade é que era eu a maior fã desse desenho animado. A idéia toda é muito boa: uma menino de 8 anos, Mac, tem que se livrar do seu amigo imaginário, o Bloo, porque sua mãe diz que ele está muito velho para ter amigos desse tipo. Além disso, Mac vive sendo atormentado pelo irmão mais velho, de 13 anos, o Terrível. Assim, ele encontra a Mansão, que abriga amigos imaginários até que eles sejam adotados – por crianças que não são criativas o suficiente para imaginá-los, por exemplo.

Na Mansão, que por dentro é ainda maior do que parece por fora,  moram, entre outros, Eduardo, um monstro medroso e chorão com sotaque espanhol; Duquesa, a mais esnobe e intragável ocupante da casa, uma figura cubista; e o Sr. Coelho, mordomo formalíssimo e cheio de regras – que depois descobrimos ser o primeiro amigo imaginário da Madame Foster, a velhinha coquete dona da Mansão que certamente é mais doida que todos os personagens. Frankie, neta da Madame, ajuda o Sr. Coelho a gerenciar a casa (e só depois de algum tempo eu percebi que ela e vó têm praticamente a mesma roupa).

Apesar dos protagonistas serem Mac e Bloo, nem sempre as histórias giram em torno deles, exclusivamente. A Mansão é uma casa muito louca, com infinitos amigos, cada um com a aparência mais extravagante que o outro. Há uma relação muito especial entre os amigos e seus donos: num episódio, por exemplo,  Mac tenta ajudar Ivan, um amigo imaginário com dezenas de olhos que perdeu-se de seu dono, um menino cego.

Bloo, cujo nome completo é Blooregard Q. Kazoo, é o extremo oposto de Mac: egoísta, irresponsável, desobediente, aventureiro. Interessante foi ler nessa entrevista do autor, Craig McCraken, que ele perdeu o pai aos 7 anos, e que é como se Bloo fosse ele antes dessa perda, e Mac a criança que ele se tornou depois. Fiquei me perguntando quantas sessões de análise ele levou pra concluir isso…

A Mansão Foster era um desenho belo, que conseguia harmonia visual a despeito do carnaval de personagens que por ela passava. Também os enredos eram criativos, com personagens inusitados como a menina hiperativa (e carente) que não conseguia parar de imaginar amigos, superlotando a Mansão.  Ou os temíveis rabiscos, que eram rascunhos de amigos imaginados por bebês, que não conseguiam formar um amigo completo, apenas rabiscos desorientados.

Bom, mas o fato é que a Mansão fechou. Pelo que compreendi da entrevista já citada, a opção foi “parar no auge”, enquanto o desenho ainda era um sucesso. Foram seis temporadas e várias premiações. Consola-me o saber que em pouco tempo estarão disponíveis em dvd, e que nada é mais exibido na tv a cabo do que reprise.  Também aguardo o que mais sairá da cabeça de McCraken, meu ídolo: se mais não fosse, porque ele simplesmente é o pai das Meninas Superpoderosas (ah, e também trabalhou no Laboratório do Dexter).

Helê

PS: Horas atrás foi publicado, erroneamente, um rascunho do post. Desculpe os que leram o anterior, esse é o que vale 🙂

Aging

Helê

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