Aconteceu em Woodstock – o livro

Acabei de ler o livro, que ganhei no meu aniversário, e queria comentá-lo antes de assistir o filme, porque inevitavelmente uma experiência influenciará a outra. Gostei muito e foi, em certa medida, surpreendente. Esperava uma história de Woodstock, mas trata-se de um livro autobiográfico em que o festival em si começa a poucas páginas do fim. A história está lá, mas entrelaçada com a trajetória do autor, Elliot Tiber, um artista homossexual que, no final dos anos 60, divide-se entre Nova Iorque e Bethel, onde seus pais tentam manter hotel decadente numa cidade idem. (Pelo que entendi era mais ou menos como morar no Rio e passar todos os fins de semana numa pousada em Vassouras ou Paracambi). Ele odeia o lugar, o hotel e em certa medida os pais, mas não consegue desvencilhar-se da responsabilidade de ajudá-los e da esperança de obter deles amor e aprovação. Trata-se, portanto, de uma  biografia – que já seria interessante posto que o autor foi um dos responsáveis pela realização do maior festival de música de todos e esteve também na revolta de Stonewall.

Pois esse relato extremamente pessoal  me fez colocar em nova perspectiva eventos grandiosos. Uma variação do batido “pra ser universal fala da sua aldeia”: olhando com lupa as angústias de Elliot ampliei o olhar sobre o que significou o movimento hippie e seu contexto. Porque eu, nascida em setembro de 69, pertenço a uma geração pós-Woodstock, que se beneficiou de algumas conquistas ao mesmo tempo em que cresceu achando que ser hippie era algo ultrapassado. “Paz & amor” era apenas algo que se dizia naquele tempo nebuloso e distante, “na época dos meus pais”. O livro de Tiber mostra a potência dessas palavras frente a uma conjuntura em que imperavam a repressão e caretice; as transformações que o Flower Power provoca nas pessoas que dele se aproximam é comovente.

Para mim, Woodstock sempre soou sensacional pela música – Janis Joplin e Joe Cocker reinventando “With a little help from my friends” já valiam por tudo. Mas depois de ler o livro deu muita vontade de participar daquele que certamente foi um momento único, como um evento da natureza que não se repete e cujas marcas permanecem muito tempo depois. Os hippies podem não ter conseguido mudar o mundo, mas é certo que mudaram profundamente algumas vidas – e no fim, é isso que conta.

(Adorei o presente, Marcelo! ‘Brigadão!)

Helê

4 Respostas

  1. […] This post was Twitted by dufas […]

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  2. Hendrix e sua interpretação muito pessoal do Hino Americano em plena Guerra do Vietnã.
    :)

    Outro momento mágico!
    beijo,
    Helê

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  3. Estou na fila, heim?

    Podexá, podexá.
    Bj,
    H.

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  4. Você está certa. Também tenho dessa época uma nostalgia emblemática, pois o que se vislumbrou para pessoas que achavam que no mundo havia algo novo, e esse novo nada mais era que a própria Revolução dos Sentimentos. Essa época pra mim, costumo dizer, descortinou um Futuro para a Humanidade, quando foi usada a Expressão “Paz e Amor”, ou seja, só através desses dois sentimentos fraternos o mundo poderá se redimir de suas atrocidades, crueldades e sadismos.
    Ali, pela primeira vez, houve um chamado cósmico: SOMOS TODOS UM, que só agora está sendo assimilado, absorvido.
    Gostaria muito de ter participado dessa Celebração, mas me sinto privilegiada por ter conseguido transformar meus valores e aprender a respeitar todos os seres vivos.
    Um grande abraço.

    Pois é, Bete, mais uma prova do poder do “flower power” é o fato de que 40 anos depois ele ainda tem muito a nos dizer e ensinar.
    Bj,
    H.

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