Elementar, meu caro Watson*

Na saída do cinema, ouço o comentário:

Arthur Conan Doyle deve estar se revirando no túmulo!

As muitas faces de Holmes

Tenho certeza que muitos fãs do detetive sairão do cinema com esta sensação. Mas a verdade é que as características do Holmes de Guy Ritchie estão, todas, na obra de Conan Doyle. O que o diretor fez, é claro, foi adaptar o personagem ao cinema do século XXI, amplificando o lado “mania” e suavizando o lado “depressão” (tem personagem mais bipolar que Sherlock na ficção? Não creio que). Porrada, explosões e correria dão muito mais bilheteria que imersões melancólicas em um quarto sujo e escuro, ao som frenético de um violino mal tocado.

O Holmes dos livros é de fato pugilista, se mete em lutas corporais com relativa frequência, arromba e invade residências, bate carteiras, se disfarça de mendigo, se relaciona com os escroques da Londes fin-de-siècle, enfim, faz qualquer coisa para solucionar um mistério que o intrigue. (E embora seja em geral muito bem recompensado por isso, não o faz por dinheiro e sim por ‘amor à arte’.)

Holmes se havia erguido no sofá, e eu o vi fazer um sinal como querendo mais ar. Uma empregada atravessou a sala depressa e abriu a janela. No mesmo instante vi que ele levantava a mão, e, a este sinal, atirei meu foguete dentro da sala, com o grito de “fogo”. Mal a palavra saiu de meus lábios, a multidão de espectadores, os bem trajados e os mal vestidos – cavalheiros, cocheiros e empregadas – uniram suas vozes num só grito: “Fogo”!

(Um Escândalo na Boêmia)

Holmes é também capaz de saber onde pesquisar os diferentes tipos de fumo e a partir daí deduzir que o criminoso veio do Paquistão, pois a cinza espalhada só é utilizada em cigarros fabricados  naquela região. E é também reflexivo, anti-social, um tanto arrogante, exatamente como o imaginário popular consagrou, a partir do estereótipo criado ao longo de tantas e tantas adaptações da obra de Conan Doyle para o cinema, o teatro e a televisão.

O mérito do filme de Guy Ritchie é justamente desconstruir esse estereótipo tão caro a milhões de pessoas no mundo todo, e apresentar uma releitura bastante contemporânea, a partir de elementos do próprio personagem. Alguns considerarão uma traição ao herói; eu acho uma ousadia brilhante.

Sinceramente, para mim se há algum personagem cuja essência foi perdida nesta adaptação para o cinema é o dr. Watson.

Mas isso já é outra história. (Ou é a mesma?)

-Monix-

* Acho que todo mundo já sabe, mas não custa lembrar que o Sherlock Holmes de Conan Doyle jamais disse esta frase.

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10 Respostas

  1. […] Sherlock Holmes – praticamente o primeiro filme que assisti no ano, me fez revisitar um personagem pelo qual tenho especial carinho (ganhei a coleção completa do meu pai quando era adolescente, e a partir do interesse por ele aprendi a amar a literatura policial / detetivesca). Como que fechando um ciclo, em janeiro de 2011 estou descobrindo Sherlock, a série da BBC que traz o personagem para o século XXI com a competência habitual do canal, que dispensa apresentações. (A dica é do Alex.) […]

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  2. Eu gostei bem do novo Sherlock, um ótimo filme de entretenimento!

    E também não concordo com essas críticas (que eu também ouvi) de que o personagem fugiu completamente à proposta original.
    Afinal, se é pra fazer igualzinho ao que já foi feito, pra quê fazer de novo?!

    beijocas

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  3. Achei que foi a crítica definitiva, principalmente depois dos adendos perfeitos do Marcos. Também vou indicar. Eu, que não li praticamente nada de Conan Doyle (shame on me) e só conheço o Sherlock pelo olhar mais do que enviesado do meu marido, adorei o filme. Mas também não gosto dessa Rachel McAdams. A Weiss ficaria muito melhor nesse papel.

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  4. Também quero ver este filme.
    Gostei muito da tua crítica

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  5. Eu estava no maior preconceito mas, depois dessa resenha recomendada pelo nosso amigo Marcos VP, me deu até vontade de assitir. Beijo.

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  6. Eu já li TUDO de Sherlock Holmes e assino embaixo a sua crítica. E gostei do filme, ainda que ele tenha me dado um pouco de sono. Faltou, eu creio, deixar mais ganchos, prender mais o espectador na trama. A solução final é quase Deux-Ex-Machina. E embora eu adore o Robert Downey Jr., não consegui ver Holmes encarnado nele. Preferiria, quem sabe, um Adrian Brody no papel. É, faltou nariz, creio. E Rachel McAdams (que eu tenho na conta de um genérico de Brittany Murphy, (IM)) também está longe de uma boa Irene Adler. Me foge uma atriz com mais personalidade para representá-la, mas no mínimo, para ficar nas Rachels, a Weiss. No mais é um bom filme. Esperemos a seqüência – ou você duvida que ela virá?..:-)

    Abs.
    VP

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  7. Definitivo. Vou indicar sua crítica. Gostei muito, Mô. Dacrítica e do filme. Você continua sendo a maior especialista em Sherlock que eu conheço. Talvez, seu pai. 🙂

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  8. Vou tentar assistir hoje.

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