Na marra

Foi dessa forma que emergi de um irretocável fim de semana pré-carnavalesco. Na marra, a pulso. Paguei contas, fui à reunião da escola, comprei uniforme, respondi e-mails, mas sabe Momo o custo dessa vida sem fantasia. Sempre ouvindo ao fundo, na Rádio Cabeça, os refrões da folia (“o carnaval/não vai ter fim…” ou “uma história de amor/sem ponto final…”) e achando tudo muito difícil sem um tamborim por perto, sem um arranjo na cabeça, umas purpurinas pelo corpo. Porque eu mergulhei nessa magia, era tudo que eu queria, como no antigo samba da Mocidade, e acordei hoje com saudade do carnaval. Então percebi que não foi um sonho e ele ainda vai chegar. Ô sorte!

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Oh, sim, na sexta estive na exposição sobre a qual a Monix falou e realmente foi um programão. Claro que não vimos exatamente as mesmas coisas, posto que eu passei por lá já num carnaval mode, pouco antes de seguir o Cordão do Bola Preta. Mas parece que os eflúvios carnavalescos alcançaram o Píer Mauá – ao menos o veleiro mexicano, no qual a tripulação tirava as moças para bailar e fazia demonstrações do que parecia ser uma dança típica, animadíssima.  Apreciei igualmente veleiros e marinheiros – que a gente precisa ter, digamos, uma visão ampla do evento. Abafa e arquiva.

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A aliança entre os Parasitas e o Me Chama consolidou-se de maneira irreversível nesses últimos dias. Uma sintonia fina uniu a todos e os intervalos eram tão divertidos quanto os desfiles, ensaios e blocos de nossa extenuante agenda. Uma das nossas muitas diversões foi criar nomes de blocos e de alas para nossas próprias agremiações, e seus respectivos gritos de guerra. A ala Arranca minha liga fez seu debut na Tiradentes, há provas materiais. Dado o nosso apego à importância da evolução nos desfiles, adotamos também a alcunha de Filhos de Darwin’(primos distantes dos Filhos de Gandhi) e atendemos ao chamado “Chora Galápagos!!!” (favor gritar com a mesma entonação de Chora cavaco!!!”).

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Em pleno Largo da Prainha, meidia, o maçarico do sol na cabeça, lata de cerveja na mão, ao lado da bateria, amigos em volta, constatei: estava no meu habitat natural. E me senti viva, de uma maneira absoluta, intensa, genuína. E muito feliz.

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O desfile dos Escravos da Mauá foi lindo, emocionante, perfeito. Com a participação da Grande Companhia Brasileira de Mystérios e Novidades, uma maravilhosa bateria, cheio à beça mas com espaço suficiente para brincar e sentir-se parte integrante da folia, e não um espectador (a essa diferença ficou patente horas mais tarde, quando assistimos ao ensaio técnico do Salgueiro). Fazia aquele já proverbial e infernal calor – o Coisa Runho inclusive apareceu pessoalmente – mas  havia também uma brisa intermitente e o céu era de um azul espetacular

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O samba era belo, curto, bom de cantar, e o bloco imprime sua marca nos foliões que reúne: há uma incrível gentileza entre os foliões, licenças e desculpas entre um refrão e um confete, e a maioria deles está empenhadíssima em brincar o carnaval: sambar, rir, fazer troça dos outros, sorrir, aplaudir uma fantasia original, paquerar desavergonhadamente, rebolar idem, divertir-se acima de tudo. Havia os gaiatos do carnaval (outro bom nome, heim, pessoal?), os homens vestidos de mulher, mulheres que trepam (uia!), vimos de um tudo. Mesmo as mais sérias divergências políticas ficam suspensas, até segunda ordem. Passista jornalista que sou, não pude deixar de interpelar o deputado Chico Alencar, do PSOL, ao encontrá-lo tomando cerveja com o presidente. Ele esclareceu: “Quando encontro o Lula assim sozinho, sem o Sarney por perto, dá pra gente se entender!”

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O Bloco das Carmelitas pode ter reinventado a roda ao ensaiar na Praça Tiradentes. Um espaço grande, histórico, bonito e subaproveitado, ideal para abrigar outras rodas e ensaios, coladinho ao furdunço da Lapa, sempre prenhe de opções. Foi um programa simpático, um esquenta de responsa para uma noite que prometia – e que nós fizemos cumprir.

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Então é isso. Resta-nos paciência e resignação para botar as manguinhas de fora, e o que mais for possível. Falta menos do que já faltou, e quando acabar não termina. Adelante!

Helê

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