Culpa? Não, obrigada.

Culpa é, digamos, um bem comum, democraticamente distribuído. Todo mundo vez ou outra cede a esse sentimento estéril, mesmo que saiba de sua inutilidade. Estive pensando porque que a gente é assim (como já fez o Cazuza). Culpa pra quê? Qual a função desse sentimento pesado e opressor como um bloco de concreto sobre o peito? Ocorreu-me uma possibilidade: que a gente se culpa pra ter uma explicação. Frente ao injustificável, ao incompreensível, ao inaceitável, toma-se pra si a culpa pelo acontecido, para ter a ilusão da compreensão e do controle. Na falta de justificativa para o fim de um amor, para a morte de um amigo, para injustiça de uma criança doente, para aquilo que nos parece totalmente irracional, a gente racionaliza se culpando, das maneiras mais absurdas e patéticas possíveis.

Falsa e perversa solução. Talvez se, numa atitude mais zen, aceitássemos o fato de que não sabemos quase nada, se abríssemos mão da fantasia de que é possível controlar o incontrolável – a vida – nos culpássemos menos (a verdadeira culpa, a mais nociva, é a auto-impingida. A culpa que nos jogam no colo só se aninha se encontrar acolhida). Talvez, se pudéssemos ser menos arrogantes com a vida pudéssemos ser também mais generosos e solidários conosco.

A culpa, como qualquer fantasma, não resiste ao confronto. Na maioria dos casos, ela simplesmente não procede: nada que pudéssemos ter feito diferente poderia realmente mudar os fatos. Em outros tantos, jamais saberemos. Nos que resistem, se encarada com coragem e franqueza, a culpa fica do tamanho que tem, quase sempre menor que o imaginado. Para ter alguma serventia não deve ecoar insistentemente, apenas marcar em negrito uma advertência. Assim, deixa de ser uma bola de ferro amarrada no pé pra ser só um carimbo: não repetir.

Helê

(Publicado originariamente em preto e branco em 29 de março de 2006)
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