Depois do temporal

Antes de mais nada, vou dar notícias do meu paradeiro na(s) chuva(s)*. Segunda à noite, voltando do trabalho, meu trajeto passou pela Glória e Laranjeiras, onde enfrentei vários pontos de alagamento, subi até o Rebouças com tranquilidade, fugi do acesso ao Humaitá – que estava impraticável, com carros enguiçados e tudo -, entrei em Botafogo via Fonte da Saudade, provavelmente minutos antes do transbordamento da Lagoa Rodrigo de Freitas (o nível da água estava altíssimo), encarei a Voluntários da Pátria completamente alagada e com lixo boiando, mas cheguei em casa seca e salva. Terça nem pus o nariz fora de casa. Minha rua também alagou, e por isso logo de manhã liguei a TV, a tempo de ver o prefeito recomendando que ninguém saísse de casa, o que, como boa moça obediente que sou, atendi prontamente.

À noite fiquei sabendo que a Ana Paula tinha passado a noite dentro do carro, na Tijuca, e fiquei preocupada; por isso liguei para saber se ela estava bem (não estava: tinha passado o dia com enxaqueca, e não é para menos).

Enfim, depois desse não tão breve colorido pessoal, vou entrar no assunto. Conversando com a Ana, que enquanto estava presa dentro de um carro não deixou de ser urbanista, nos perguntávamos o que levou a cidade a sofrer tanto desta vez, tão mais que em inúmeras outras enchentes. Porque desta vez foi pior, muito pior; mas o fato é que o Rio de Janeiro já deveria estar acostumado a isso. Meus pais se conheceram no rescaldo da enchente de 1967 – a de 1966 está famosa nas análises da tragédia atual, mas no ano seguinte houve outra, e no outro, e ainda no seguinte, e provavelmente nos anteriores, porque final de verão no Rio é assim: molhado. Muito.

Lembro de tantas situações em que a rua onde morava com meus pais se transformou em um rio caudaloso. Minha mãe até hoje mora lá, e é só chover mais forte para a gente ligar a TV e ver imagens do trecho de rua em frente ao prédio dela – é um dos pontos que tradicionalmente são mostrados nas reportagens. Já desci do campus da Praia Vermelha até a Praia de Botafogo, sem perspectiva de voltar para casa, com água pelos joelhos. Acabei acampando na casa de um amigo. Naquela noite, minha mãe também abrigou um casal de amigos que voltava de São Conrado e ficou preso no meio do trajeto, sem ter para onde ir. Histórias de riscos e solidariedades, temos muitas. Minha irmã caiu num bueiro uma vez, e só se salvou porque a rua alagada era uma ladeira, e a própria correnteza da água a tirou lá de dentro. Um susto danado.

Todas essas histórias aconteceram em outras enchentes, outros carnavais.

Mas então porque é que a cada vez que chove forte (eu sei que esta chuva teve uma intensidade sem precedentes) a gente reage como se fosse a primeira chuva do mundo? “Nossa, que chuva! A rua está toda alagada! O trânsito está caótico! Socorro, a encosta está deslizando!”

A Ana Paula levantou a hipótese de que em países mais desenvolvidos as cidades seriam mais preparadas no sentido de evitar catástrofes naturais. Eu não sei, nunca morei fora do Brasil. Se houver algum leitor emigrado que possa dar seu testemunho, agradeço. Mas me parece que as intempéries acontecem em todos os lugares do mundo, sendo que fora dos trópicos, além das enchentes há também nevascas, cujas consequências são até mais graves. A diferença é que as cidades têm planos de emergência. As agências especializadas emitem alertas (numa googlada rápida, achei este site inglês específico para inundações; acredito que haja dezenas de outros, em diversos países, mas não sei com certeza). A população é orientada permanentemente sobre o que fazer.

Acho que é isso que falta por aqui: planejamento. Até nas crises pode haver contingências, e nós não estamos nem um pouco preparados para isso. Além de cada um fazer sua parte, não jogando lixo nas galerias pluviais, respeitando os códigos de ocupação de solo, etc e tal, e para além das políticas habitacionais necessárias (que a Ana Paula explica muito melhor que eu), acho que as autoridades deveriam instruir as pessoas sobre o que fazer em situação de emergência. Em caso de chuva forte por mais de uma hora, os carros devem ficar na garagem, o acesso a áreas de alagamento é fechado, as alternativas são X, Y e Z, a defesa civil tomará tais medidas, moradores de área de risco são deslocados para os abrigos tais e tais… enfim, eu não sei quais deveriam ser as características do plano. Mas sei que deveria existir um plano.

-Monix-

* No meu tempo de TV Manchete, um amigo repórter implicava – com razão – com a expressão “as chuvas”. Afinal, a chuva é uma só, ou não é? Neste caso, foram várias mesmo, daí o plural.

7 Respostas

  1. […] que se instaurou na cidade. A Ana Paula (que ficou presa no trânsito por uma noite inteira) e a Monix trocaram uma conversa cheia de opiniões interessantes. Conforme previsto, uma discussão cheia de […]

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  2. Aqui em Milão a previsão também é levada a sério. todos os dias os jornais avisam como vai ser o dia seguinte e existem recomendações do que fazer quando neva muito (ou chove muito). Fica todo mundo “preparado”. É sempre um tanto alarmista mas eu sinceramente acho melhor assim, as pessoas se preparam para o pior…

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  3. Monix,
    eu corroboro isso tudo que vcs estão falando: no plano pessoal, aqui na Suiça todo mundo tem o hábito de ver a previsão do tempo não só do dia seguinte, mas da semana inteira. Aqui tem nevasca e também tem inundação. Tem terremoto mas é sempre em pequena escala. Existem sirenes instaladas por toda a cidade, em escolas, igrejas, hospitais, que soam em caso de catástrofe. Quando se ouve as sirenes, a conduta é ligar o rádio para saber o que fazer. De 6 em 6 meses, tem uma data nacional, com horário em comum para teste das sirenes. Esse lance vem do tempo das guerras mundiais.

    Em 2005 teve enchente braba aqui em Berna, por conta do acúmulo de gelo excessivo no inverno e aumento de temperatura acima do normal em março-maio. Foi um horror, mas bombeiros, defesa civil, associações sempre tiveram um plano certeiro. Ninguém morreu. “Só” danos materiais.

    E ano passado terminou as adaptações urbanas do plano de emergência instaurando após as enxentes de 2005.

    Mas também tem limpeza de bueiros, rios, barragens regulares, né?

    beijo,
    glau

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  4. fridas, em canais como HISTORY CHANNEL, DISCOVERY, GLOBONEWS (dentro do programa Ciades & Soluções), etc, abundam programas que mostram soluçoes contra enchentes e alagamentos em locais como londres, amsterdam, singapura (onde parece que túneis se fecham e viram piscinões – controlados, claro, nao o nosso caos). etc.. o que parece é que existem soluções possíveis e viáveis, mas com tanta meia, cueca e bolsa pra encher com o dinheirio publico, não vai sobrar muita grana pressas obras, né mess?
    beijos

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  5. Monix, acho que o serviço de meteorologia no Brasil tb precisa de mais reforços. Aqui nos EUA, com 3 dias de antecedência, o “homem do tempo” da TV avisa se vai chover, vai ventar, vai dar onda de surfe, etc. e já dá os avisos para as pessoas se prepararem. Ontem mesmo, a cidade aqui estava em alerta de flash flooding – um anúncio q saiu 3 dias antes, q ia chover horrores ontem. Então as pessoas se preparam, não pegam certas vias q enchem, evitam áreas próximas a córregos, evtam sair de casa, etc. Choveu pra burro, mas ninguém morreu nem perdeu sua casa. Essa antecipação depende de equipamentos meteorológicos eficazes, de recursos humanos dedicados a isso, etc. Eu não sei os dados no Brasil, mas meu gut feeling diz que, além da falta de equipamentos e pessoal especializado no Brasil, o brasileiro em geral acha desnecessária a previsão do tempo – e o governo acha mais desnecessário ainda. Acha um gasto à toa. Não é, em minha opinião. Um planejamento é muito mais eficaz e robusto se tiver uma previsão mais significativa.

    Eu não sei, mas a sensação que eu tenho é que o Rio sofre de falta de governo real – o que está aí só finge que é governo.

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  6. É isso ai. A gente deve, como vc mesma sugeriu na nossa conversa, incorporar que todo ano, talvez haja uma semana ou pelo menos 3 dias sem expediente, sem aulas, por causa da chuva, e as coisas devem ser planejadas para que as ações sejam tomadas ANTES, e não depois, resgatando corpos soterrados. Vc linkou o site inglês, e eu lembrei que os ingleses são neuróticos com essa coisa de previsão meteorológica, os americanos também levam isso muito a sério. Talvez fosse hora da gente aqui no Brasil também passar a acompanhar mais, e a própria prefeitura do Rio usar isso a seu favor. é melhor colocar em ação um plano que depois se revele um pouco exagerado por não se confirmarem chuvas tão graves do que esperar a chuva se revelar calamitosa pra começar a acionar a defesa civil.
    No último terremoto grande do chile, há pouco tempo, foram disparados alertas de tsunamis no Pacífico. A Lúcia Malla, que mora no Havaí, tava contando como o governo fez questão de evacuar as áreas de risco, retirando inclusive população de rua das beiras das praias. No fim das contas, todo mundo acordou d madrugada, foi pra casa de parentes e amigos, os mais pobres foram para abrigos, e não teve tsunami nenhuma, só 3 ondinhas fracas. Mas ninguém ficou zangado, pelo contrário, todo mundo tem a noção de que se fosse de verdade, eles estariam a salvo por causa do planejamento e da obediência a uma estratégia de prevenção.
    Obrigada por escrever.

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  7. […] This post was mentioned on Twitter by dufas. dufas said: Depois do temporal, é hora de nos planejarmos, antes que venha o próximo: https://duasfridas.wordpress.com/2010/04/08/depois-do-temporal/ […]

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