Saramago

Eu entristeci ao saber da morte de Saramago – como de resto todo mundo, afora os imbecis intolerantes, com o perdão da redundância. Logo depois substitui o sentimento por um pesar leve, que a relação com ele era recente e curta, das que ainda permitem que escolhamos o que sentir civilizada e racionalmente. De mais a mais, o senhor já tinha 87 anos, viveu intensamente, a saúde minguava – condições que favorecem a aceitação da morte. Lendo o comovido depoimento do Luis Schwacz, falando do amigo, achei mesmo inadequado sentir qualquer coisa: ali está alguém que pode, de fato, sentir a perda.

No entanto, não pude evitar o lamento; minha reação não-expressa foi “puxa, logo agora?”. Porque me aproximei há pouco dessa figura. Por força do ofício, li recentemente a biografia dele, e fiquei encantada com sua história, seu humor, o amor maduro com Pilar. E, sobretudo, com o extraordinário fato de o único Nobel de Literatura em língua portuguesa ser neto de analfabetos – o que eu considerei emblemático de um certo jeito (nosso?) de ser ibérico: de quem consegue ir tão longe saindo com tão pouco.

Então, ao saber da morte de Saramago, foi como se partisse alguém que acabara de chegar e com quem eu iniciava uma agradável conversa, que prometia ser muito interessante. Sorte minha que a conversa continua, e estou certa que a promessa será cumprida.

Helê

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