Amor de filho

As crianças às vezes nos matam de vergonha, de rir ou nos emocionam até a raiz dos cabelos por entender o que dizemos ao pé da letra, sem perceber a ironia, a provocação ou mesmo o nosso desleixo com a linguagem. Não raro dizemos coisas por hábito, sem nenhuma reflexão e eles, atentos, respondem com toda seriedade – aquela que o ser humano só é capaz de ter aos seis ou sete anos de idade.

Foi assim dia desses, conversando com minha filha. Não me lembro qual era exatamente o contexto, e não importa muito; sei que conclui dizendo:

-… se eu não gostar de mim, que vai gostar?

E ela, rápida e firme:

– Eu.

Helê

Preciso

Sabe, gente
É tanta coisa pra gente saber
O que cantar, como andar, onde ir
O que dizer, o que calar, a quem querer
Sabe, gente
É tanta coisa que eu fico sem jeito
Sou eu sozinho e esse nó no peito
Já desfeito em lágrimas que eu luto pra esconder
Sabe, gente
Eu sei que no fundo o problema é só da gente
E só do coração dizer não, quando a mente
Tenta nos levar pra casa do sofrer
E quando escutar um samba-canção
Assim como: “Eu preciso aprender a só ser”
Reagir e ouvir o coração responder:”Eu preciso aprender a só ser.”

Considero “Eu preciso aprender a só ser” uma das muitas e valiosas pérolas zen de Gilberto Gil. Só o título já serve de matéria para uma sessão inteira de meditação e carrega aquela densidade enxuta que só os textos zen budistas contém. Conquista o ouvinte de imediato, logo no início, como seu tom intimista, confidente: “Sabe, gente, é tanta coisa….”  Gosto da canção desde a primeira vez que ouvi, décadas atrás, quando ainda era uma menina e só pude intuir as dificuldades que estavam por vir, o peso das escolhas a serem feitas, o tamanho desse nó no peito do qual ele fala mais adiante.

Outro aspecto que me agrada é ser um  diálogo com outra canção – nesse caso uma resposta à “Eu preciso apresnder a ser só”, dos irmãos Valle. Há tristeza em ambas, mas enquanto uma mergulha de cabeça e sem boia na fossa total, a do baiano divisa alguma saída para o sofrimento. Para tanto, contrariando o senso comum, afirma que a mente nos leva a sofrer e o coração é quem pode impedi-la. Chega, afinal,  à amarga constatação de que “o problema é só da gente”: encontrar esse estado “de ser” em que, estando pleno de si, nunca  se está só.

***

E a cada dia que passa, gente, é mais coisa pra gente saber: acrescente-se à lista “onde postar”. Será que esse pensamento fica melhor no blogue, reduzo a um tweet, colo no mural do feice? Vai saber, né, VP? ;-)

Helê

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