Os mineiros do Chile

Nem 33 seriam necessários: achei que lá pelo nono mineiro resgatado a atração já teria entrado num mode boring, do qual sairíamos, talvez, no último, por representar o fim do drama, blábláblaá. Que nada. Ainda bem que tinha que tomar café, banho, trabalhar, isso de viver, porque eu chorei em praticamente todos os resgates que vi. A despeito da pieguice das transmissões, dos discursos políticos e religiosos, eu me comovi a cada reencontro entre gente que se ama e contornou a perspectiva de não se ver nunca mais. Apenas isso. Suficiente e comovente, over and over.

Osman Araya reencontra a esposa, Angelica (BigPictures)

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Sim, virou um grande circo – inclusive com lona à beça. Mídia do mundo inteiro, que ora santificava a harmonia entre os mineiros, ora especulava sobre desavenças e deserções; que destacava o sofrimento de parentes e as condições de trabalho dos mineiros, ora voltava-se para supostas disputas amorosas – o Telegraph afirmou que pelo menos cinco mulheres souberam da existência de amantes por causa do acontecido. Há também promessas de emprego, viagens e prêmios oferecidos; difícil divisar gestos sinceros daqueles que querem pegar carona na cápsula dos mineiros em busca de uns trocados de fama, a atual moeda corrente, aceita em todos os países. Mas para mim,  basta o olhar do  filho de  um daqueles trabalhadores e todo o resto sai do foco, vira um murmúrio quase imperceptível.

Bairon, 7 anos, filho de Florencio Avalos, primeiro mineiro resgatado. (BigPictures)

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O resgate dos mineiros chilenos foi também um evento de interesse planetário, como o 11 de setembro – só que com final feliz, o que é muito  raro. Há uma energia especial nessas ocasiões em que todo o mundo vibra pela mesma coisa, que passa pela consciência de participar da História, assim com maiúscula. E um pouco pela lembrança de que, afinal, pertencemos todos a um mesmo grupo, a humanidade. Cito novamente o jornal inglês Telegraph, o que noticiou os litígios amorosos, que resumiu tudo numa legenda de hoje: “World shares Chile’s jubilation as the last of the 33 miners is freed” (o mundo compartilha o júblio do Chile enquanto o últimos dos 33 mineiros é libertado). Ainda que se desconte algum exagero, quando foi mesmo a última vez que o mundo compartilhou alguma coisa, ainda mais júbilo?

(BigPictures)

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Durante o dia, quando desgrudava da transmissão ao vivo eu continuava ligada via tuíter, que atualmente é a ferramenta campeã em duas modalidades: mais rápida na disseminação de informação e mais potente veículo de socialização de bobice por minuto. Na hora da retirada do mineiro disputado pela esposa e pela namorada, um tuíte avisou: “Gente, atenção que agora vai sair o do bafão!” Para rolar de rir mesmo – mais ainda agora, que tudo acabou bem, portanto sem culpa nenhuma – basta acessar @mineirochileno. Engraçadíssimo, sobretudo para quem já tem domínio do ambiente tuíter: é humor construído a partir dessa linguagem e de suas sintaxes.

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Muito doido um resgate que levou 69 dias para ser elaborado e executado e então você vê aquela rodinha puxando uma corda. Parece tão simples, não?

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Tá, bobagem, complexo de inferioridade e tal. Mas senti orgulho latino-americano pela operação cuidadosa e perfeita. Pra quem cresceu achando que todo herói era Mr. e que técnica, planejamento e eficiência eram reservas americanas, foi delicioso ouvir Chi-chi-chi, Le-le-le fora do estádio de  futebol.

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Terminando com humor involuntário – que costuma ser dos melhores. Na manhã de quarta, da minha cozinha ouvi a vizinha explicando pacientemente para seu interlocutor:

– Eles são mineiros porque eles trabalham numa mina. Isso que tá passando aí é lá no Chile…

E eu fiquei me perguntando em que cápsula estava esse desinfeliz que até agora tava pensando que o negócio era pras banda de Belzonte, sô!

Helê

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