Serendipity – revisitada

O texto que segue foi publicado orinalmente em 1º de novembro de 2005. O comentário da Vera no post Mandando bem, no qual ela conta que chegou aqui  pelas mãos da Isabel Allende ;-)  me levou a resgatá-lo do porão, tirar-lhe a poeira e colocá-lo novamente aqui na sala de estar. Como uma maneira de agradecer a simpatia e a generosidade dessa nova leitora. Devo admitir que também fui influenciada pelo excelente livro que leio em que Destino e Fado são personagens. Serve ainda como aperitivo para a um post ainda em gestação sobre revolução digital.

Espero que não reparem: o post é requentado mas ainda preserva o saber sabor*, creio eu.

Acontece comigo, não é raro, de cair de amores por certas palavras. A ponto de ficar ouvindo e pensando nela, como quando a gente cisma com uma música, ou quando se enamora por gente mesmo. Pode ser o som, o significado, a origem, mil coisas podem provocar esse enamoramento – assim como quando a gente se apaixona “de verdade”. Minha mais recente paixão foi por serendipity:

Serendipity: the faculty or phenomenon of finding valuable or agreeable things not sought for (Merriam-Webster Online Dictionary)
(A capacidade ou o ato de encontrar algo agradável ou valioso sem que se esteja procurando por isso. TTS – tradução tosca e safada)

Convém lembrar que a conheci entrando num blogue que parece abandonado, que constava nos favoritos de outro, no qual entrei porque o título era o mesmo de uma música de Cat Stevens. Ou seja, era um caso claro daquilo que eu lia, porque eu realmente não procurava por aquela informação. Fiquei fascinada com o som, com o sentido e com o fato de não haver correspondência em português para esta palavra. (Parece-me significativo que exista na língua de colonizadores). Tratei então de conhecê-la melhor, o que só fez aumentar minha admiração: a palavra serendipity tem pedigree, certidão de nascimento, pai conhecido, árvore genealógica. Numa busca simples pela internet sabe-se a primeira vez em que foi usada, por quem e baseada em que.

Encanta-me sua precisão e especificidade: não designa apenas o acaso, qualquer acaso, mas aquilo que se encontra de bom, sem intenção. Não é o resultado de uma pesquisa, tão pouco uma descoberta qualquer que cairá no esquecimento em curto prazo. Trata-se de algo necessariamente bom, útil, interessante ou agradável, que encontramos sem que estivéssemos procurando.

Pode ter surgido no século dezoito e vindo do Oriente, mas para mim é extremamente atual e tem tudo a ver com a grande rede, a blogosfera e tudo o que contém ou está contido nesses espaços. Porque não foi por outra força, senão por serendipity, que eu pude estar no lugar e na hora certos frequentando o melhor dos botecos, redimensionando distâncias e redefinindo conceitos (como ‘virtual’, por exemplo). Não foi por outro fenômeno que eu (re)encontrei amigas de uma infância imemorial. Não fosse pela ação poderosa da serendipity e eu não estaria hoje aqui, escrevendo com a Monix esse blogue. Fosse Serendipity uma divindade e eu renderia graças.

Helê

*Só hoje (28/11) notei a troca, mas ‘saber’ também funciona. Pra vocês verem que a minha culinária é tão ruim que erro até nas palavras relacionadas com o tema, tsc, tsc, tsc…

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