Polícia para quem precisa

É tudo decorrência de um processo de mudança que já vem acontecendo há anos.

Começou quando o Hélio Luz fez a pergunta de 1 milhão de dólares: a sociedade quer uma polícia que não seja corrupta? Porque uma polícia que não seja corrupta deixará de ser tolerante com a classe média – isso interessa a alguém? É claro que a resposta permanece a mesma (ou seja, NÃO); mas a repetição deste questionamento, ao longo da última década, provavelmente contribuiu para os desdobramentos que vêm se seguindo.

Depois, um marco na história da segurança pública no Rio de Janeiro (que, também para este efeito, é uma vitrine para o resto do Brasil): o sequestro do ônibus 174*. Com a colaboração da TV em tempo real, o país acompanhou o descontrole do assaltante e a falta de coordenação da polícia. A ação terminou mal, com a morte de uma refém e a execução do bandido após sua prisão. Ali ficamos sabendo que a elite da polícia não estava treinada para nada além de matar.

O processo de amadurecimento foi lento, e ainda está em curso. Mas me parece interessante observar uma certa mudança de perspectiva. Dois anos depois, quando a polícia entrou no Complexo do Alemão para procurar os assassinos do jornalista Tim Lopes, foi montada uma megaoperação para emitir mandados de busca para 10 mil casas da comunidade. Certamente o fato de a então governadora ser uma ex-favelada deve ter contribuído para esta preocupação inédita com a legalidade. Na minha opinião, aquele foi um momento definidor para a virada que  hoje se consolida: se o Estado quer ocupar o morro, não pode entrar metendo o pé na porta.

Depois veio o fenômeno Tropa de Elite e, em que pese sua contribuição para a “saída do armário” de um segmento altamente reacionário da classe média, de fato o filme e seus heróis trouxeram para o debate alguns elementos novos. Talvez o principal tenha sido justamente esse: pela primeira vez o policial era visto como herói na ficção brasileira, e no imaginário da população este era uma passo importante a ser dado. Estávamos acostumados a ver os marginais como a parte charmosa e mais interessante dessa dualidade, enquanto os policiais estavam sempre associados às ideias de truculência, corrupção e despreparo. (Não que este estereótipo não seja apreendido da realidade; certamente o é. Mas se queremos que a sociedade organizada vença a guerra contra o crime, o mínimo que precisamos fazer é confiar no instrumento institucional designado para executar a missão, ou seja, a polícia.)

Aí veio a sopa de letrinhas do PAC e das UPPs, e as comunidades pela primeira vez entraram em cena. Vejam, nessa discussão não me importa se de fato a polícia pacificadora é eficiente, se há negociações de bastidores, quais os pactos foram feitos (se é que foram). O que interessa é a mudança de foco. Finalmente estabeleceu-se uma distinção entre favelados e bandidos. Do ponto de vista do “asfalto”, o “morro” sempre tinha sido visto como o inimigo. Ontem à noite, pela primeira vez desde que consigo me lembrar, na história dos confrontos entre tráfico e polícia (e não foram poucos os que acompanhei), a principal preocupação durante a cobertura do cerco ao Complexo do Alemão era evitar um banho de sangue. Inclusive no que diz respeito aos traficantes. A ordem é prender, processar, julgar, condenar. É pressionar através das prisões dos advogados, dos laranjas, é dificultar o acesso a território e a financiamento. E acima de tudo respeitar os cidadãos, pedir licença para entrar, pedir desculpas pela bagunça. Não é à toa que o Disque-Denúncia está batendo recorde de ligações. Se dão direito à voz, as pessoas falam.

Se vai funcionar? Não sei. Mas para mim o que vem acontecendo nos últimos dias tem um caráter de ineditismo que já garante seu registro na história da cidade.

E o pano de fundo é aquele, né? 2010, o ano em que a base da pirâmide entrou no mapa do Brasil. Espero que definitivamente.

-Monix-

* Para vocês verem como efeito psicológico é tudo nessa vida, poucas semanas depois o ônibus recebeu a numeração 158. Exatamente a mesma linha, mesmo trajeto, mesmos carros, mesmos motoristas, mas o que importa é que a maldição do 174 acabou.
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