Desastre/Fated

Por causa do trabalho, li muitos livros em 2010. Uns muito bons e outros nem tanto, de variados gêneros: poesia, biografias, quadrinhos, autoajuda. Mas apenas um, entre tantos, provocou uma sensação que há muito um livro não me causava: deixou saudades.
Já sentiu isso? Já se flagrou economizando livro, lendo vagorosamente as últimas páginas pra evitar o fim? Pois assim se deu com “Desastre”, em que S.G. Browne narra a história de Fábio, que no início da trama está absolutamente entediado com o trabalho, que realiza sem interesse ou motivação. Mas quem não estaria, depois de 250 mil anos na mesma função?
Acontece que Fábio é o Fado (fate, no original), imortal responsável pela sina de grande parte dos humanos. Não confunda Fado com Destino, imortal cujas funções são bem mais gratificantes. Enquanto o Fado assiste homens e mulheres fazerem escolhas erradas que os levam a catástrofes pessoais, Destino lida com a outra pequena e mais afortunada parcela da humanidade que se mantém em sua Trilha, à caminho da felicidade.

Morando num apartamento de luxo em New York e viajando pelo mundo à velocidade da luz, Fábio tem cotas a atingir e precisa se reportar a um superior –  nesse caso, onipotente e onisciente. Também precisa observar uma série de regras, como nunca se materializar na frente de humanos e, a primeira e mais importante, não se envolver com eles.
Num acontecimento único em sua longa existência, Fábio se apaixona por uma mortal, Sara.  Essa experiência inédita o modifica aos poucos, em diferentes aspectos. Onde antes havia indiferença surge empatia, e Fado passa ajudar os humanos sob seu controle, desrespeitando várias das regras de Jerry (como Deus é conhecido pelos imortais). Suas interferências podem acarretar graves consequências cósmicas – sem falar nas repercussões para a proibida relação com Sara.

“Desastre” é uma comédia refinada, com diversas referências pop e eruditas combinadas num texto leve, mordaz e irônico. S. G Browne constrói uma mitologia contemporânea em que seres superiores são divinos em seus poderes e humanos, demasiadamente humanos em seus defeitos. No decorrer do romance ficamos sabendo que Fracasso, por exemplo, é maníaco-depressivo, enquanto a Sorte sofre de déficit de atenção; Segredo, embora confiável, padece de paranoia; Gula tem intolerância à lactose. Agindo como membros de uma corporação celestial, eles não estão imunes a intrigas, ciúmes e ambições, como em qualquer ambiente empresarial.

A ideia de seres sobrenaturais que vez por outra se misturam com os mortais pode não ser original, mas Browne os retrata de modo muito criativo;  a longevidade dos personagens gera comparações como essa,  feita por Fábio:

Carma olha para mim como Ramsés II olhou para Moisés quando ele pediu para o faraó libertar os judeus da escravidão”.

Eu me diverti muito, me surpreendi  e me emocionei com “Desastre”. E de algum modo me afeiçoei a esses personagens a ponto de, agora, estar aqui falando deles para vocês só pra matar uma pouquinho a saudade que ainda sinto.

PS: Gostei tanto que cedi ao impulso de enviar um e-mail para o autor, parabenizando-o, e essa troca de mensagens acabou resultando numa entrevista. Mas essa fica para outro post.


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9 Respostas

  1. Olá! Sou nova por aqui, recém conheci seu blog e já está adicionado entre os meus favoritos.
    Quanto ao livro citado neste post, você realmente me deixou curiosa. Provavelmente será uma de minhas leituras próximas.
    Um beijo e ótimo 2011!

    Oi, Claudia, bem-vinda! Fica a vontade, a casa é nossa, e obrigada pelo comentário artigo muito apreciado aqui, viu? 😉
    Se ler, volte aqui e conte o que achou.
    Aquele Abraço,
    Helê

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  2. Ótimo! Mandei o post pro presenteado com o livro.

    🙂
    Beijo,
    Helê

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  3. Que delícia!! eu quero ler, mas em português. Aliás, topas ser minha music stylist? 🙂
    bj!

    Hahahaha, claro que eu topo, Glau, conta comigo!
    Beijim,
    Helê

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  4. Magnífico post! Foi minha primeira visita, vindo das “crônicas urbanas”, mas voltarei.
    Para já vou procurar o livro de que vc fala. Fiquei muito interessado.
    Por último uma confissão: Também eu escrevi um e-mail de agradecimento a um escritor que muito admiro, e que se tornou meu amigo pessoal…

    Nossa, Pedro, que bacana! É uma experiência nova essa de ter acesso a um autor, sempre os tive quase como os imortais de SG Browne, gente que ocupa um outro plano. Fazer contato e estabelecer uma relação então, que bacana!
    Seja bem-vindo e fique à vontade, a casa é nossa.
    Aquele Abraço,
    Helê

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  5. Acabei de ler esse livro hoje. Fazia uma semana que eu ficava lendo uma página por dia só pra ver se ele durava mais. Assim como você, eu me emocionei em vários momentos, ri demais com a humanidade dos personagens e me decepcionei quando o livro acabou. Não pelo fim dele, mas pelo fato de que ele não tem mais 5000 páginas de história, o que deixa quem lê com um gosto de quero mais. Sem dúvida um dos melhores livros que li.

    Então temos esse livro (e as emoções subsequentes) em comum, Derick. Volte ao blogue e quem sabe encontramos outras ;-)? Ou discordâncias interessantes? Fique à vontade e muito obrigada pelo comentário, é disso que o povo gosta! Quer dizer, que as Duas Fridas gostam, hahaha!
    Aquele Abraço,
    Helê

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  6. Mmmmm…. Fiquei com vontade também.
    Tem edição em português ou só em inglês?

    No Brasil foi editado pela LeYa, queridona. Ó aqui nesse link a carinha dele http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=22341519&sid=14313814612127563961768646&k5=125E9656&uid=

    Beijo!
    H.

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  7. já comprei, será o livro da minha semana de férias (ou um deles, pq é pequenininho, e eu não sei economizar livro assim, snif!)

    Ai, Dedear, eu tinha outras coisas a indicar pra uma semaninha, pena q vc não falou antes. Boas férias e me conta depois o que achou, ok?
    Beijoca,
    H.

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  8. TAMBÉM ESTOU CURIOSA!

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  9. segunda-feira, sem falta, vou achar este livro!
    e falando em contato com escritores…
    em novembro tive o inenarrável prazer de receber pra jantar aqui em casa um dos meus autores preferidos, o richard zimler. tudo começou com um contato por email, ao qual ele respondeu com muita simpatia e disponibilidade. daí, quis a vida, o destino e os meus conhecimentos que se proporcionasse a edição de um dos livros dele aqui no brasil, o que o trouxe pra abrir a bienal do livro em 2007, quando tive a sorte e a alegria de conhecê-lo pessoalmente, num almocinho em santa. desta vez, por ocasião do lançamento de mais um título seu por estas bandas, consegui que aceitasse meu convite e recebi-o em casa pra um jantarinho simpaticérrimo, com outros fãs e afins, que foi agradabilíssimo e inesquecível. tem fotos no meu face 🙂

    Lembro de ter lido qualquer coisa no FB, mas não vi fotos, vou procurar, Peti.
    Bj,
    Helê

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