About Amy

Fundamental nessa vida é saber o que se procura. Se você…

…quer assistir a um espetáculo com coreografias esfuziantes, vá ao show da Beyoncé;

se quer megaprodução, descole ingresso para o próximo do U2;

se espera por afinação impecável e bom comportamento, não perca a turnê da Sandy;

se acredita que um bom espetáculo requer interação com a platéia, tente a dona Ivete.

Se você quer ter a experiência de estar diante de uma cantora realmente grandiosa, de talento raro e único, vá ver Amy Winehouse.

Eu fui para isso e saí de lá feliz daquele jeito carioca: feito pinto no lixo.

(R7)

Convém sorver atentamente cada minuto, desfrutar essa oportunidade que, por razões diversas, não sabemos quando e se poderá se repetir. Por causa delas, assistir a um show da Amy envolve riscos, claro, mas para mim, valeu cada centavo.

Nas primeiras duas, três músicas a platéia fica boquiaberta, eletrizada, enlevada, tudo ao mesmo tempo agora. Quando o povo começa a se acostumar, repara na banda absolutamente impecável, nos backing carismáticos e afiadíssimos e então você se deixa levar, entregue e tomado, por aquilo que esperamos de um bom show: música da melhor qualidade.

Quando eu descobri Amy, quatro anos atrás, tive dificuldade em associar aquela voz com a imagem que me apresentaram. Corri para o YouTube e não me contentei com clipe, tinha que ser gravação ao vivo. Só vendo acreditei que aquela voz potente saía daquele corpo frágil. Na terça-feira, vendo-a no palco tive novamente esse espanto, e a constatação de que a voz de Amy é uma força da natureza: potente, bela, emotiva, bruta.

Quem acompanha a trajetória musical da moça sabe que palco nunca foi o seu forte. Ela comete falhas técnicas, erra algumas letras e entradas, não domina o espaço. Mais grave: perde o vigor da metade para o fim, cansa como o jogador que só aguenta meio tempo – o que é preocupante para alguém de apenas 27 anos. Mas, como todo craque, surpreende, e mesmo que se esconda atrás dos companheiros, surge aqui e ali com lances tão encantadores e decisivos que você releva todo o resto, e sai achando que ele, afinal, foi o melhor em campo.

Durante todo o show eu pensava: se ela é boa assim, imagina com 30% a mais de foco, dedicação, seriedade? Assisti-la é constatar que o talento que vemos ainda é uma parte do que pode se tornar. Talvez essa força seja maior do que ela própria pode suportar, como se ela não conseguisse dar conta de seu poder.

No palco, Amy parece ser desengonçada por natureza, com ou sem biritas e quetais; embora magra e leve, não há graça em seus movimentos. Alterna posturas incoerentes: às vezes parece alheia ao público, noutras saltita de maneira quase infantil; conversa com os membros da banda como se fosse um ensaio; em outros momentos toca o corpo como se fosse uma das pinups que tem tatuada. Amy é junkie, mas não só; é louca, mas não apenas; erra e acerta com igual despudor e nos deixa, atônitos perguntando: que mulher é essa?

(Allan Burch, Robert De Michiell, Marco Calcinaro)

Além de tudo, senti novamente o tesão intenso provocado por um grande show ao vivo. Uma energia indescritível estar na presença de alguém que embalou momentos decisivos da minha vida, e cantar a plenos pulmões, com mais 15mil pessoas, as canções curtidas na solidão e intimidade dos fones de ouvido. Ainda com o privilégio de estar com as melhores companhias – só gente fina, elegante, sincera e divertida. 😉

Por essas e outras, mes amis, é que o show da Amy Winhouse já é candidato ao melhor show do ano para mim. Eu realmente precisei de algum tempo para me recuperar do impacto, queria reter as sensações na memória antes de reparti-las, temendo perdê-las. Mas não será possível: foi um show inesquecível.

Helê

PS: Não é de hoje que me irrita profundamente a cobertura jornalística a respeito da Amy. Sarcástica, desrespeitosa, moralista. E de um sadismo indisfarçável, todo mundo frustrado porque esperava vê-la vomitando do Cristo Redentor. Avaliar o seu desempenho apenas com base no tempo de duração do show, se falou ou não com a platéia ou se tropeçou no fio é de uma pobreza vexatória.  Assim como concentrar-se nos goles que ela ingere é reduzir Amy a um estereótipo que ela ajudou a criar, mas nem por isso deveria ser aceito tão preguiçosamente pela imprensa. Exceção que confirma a regra é a brilhante análise de Artur Dapieve no Globo de hoje, 14/01/11 (“Diamante louco”).
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6 Respostas

  1. Inveja…

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  2. Magnífico post.
    Apesar de não ser definitivamente fã de Amy, não deixo de me admirar com o poder hipnótico da sua voz, que é realmente uma força da natureza.
    A cobertura jornalística dos seus concertos, de sua vida, é apenas o reflexo da imprensa acéfala e seguidista que actualmente temos. E diz muito mais da imprensa em si do que do objecto da notícia…
    Por último, adorei o paralelo que você fez com o jogador de futebol, preguiçoso e genial. Minha galeria pessoal de ídolos está cheia deles…
    Pedro

    “E diz muito mais da imprensa em si do que do objecto da notícia…” Disse tudo, Pedro. Também se pode dizer o mesmo da imprensa portuguesa? Se sim, que pena!
    Você acredita que lembrei de vc, ou melhor, do seu e-mail quando me ocorreu a imagem? Pois é, me pareceu muito precisa para descrever, principalmente a sensação posterior de euforia que nos assola, esquecendo das falhas…
    Aquele Abraço,
    Helê

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  3. Ir ao show da Amy em boas companhias não tem preço!!! 😉

    NÃO TEM MESMO!
    Gracias, Ju, por não me deixar desisitir, pela companhia, por tudo.
    Pestanas felizes!
    Helê

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  4. muito legal o texto — vou mandar para o Arthur!!

    Oi, Karina, que bacana ver você por aqui! Tudo bom contigo e todos?
    Tomara que ele goste, porque eu adorei o dele.
    Beijo grande,
    Helê

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  5. Obrigado pela menção honrosa, Helê. Mas eu queria mesmo era agradecer aquele “se você” do início do texto. Resume tudo muito bem. Os caboclos aqui parecem medir qualidade de show pela quantidade de pulos que as cantoras dão no palco… A praga do axé distorceu tudo. Beijos, Arthur

    Ô, Arthur, que gentileza a sua. Obrigada e volte sempre, a casa é nossa 😉 .
    Aquele Abraço,
    Helê

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