Sobre livros, cartas, palavras

Acabo de ler “A sociedade literária e a torta de casca de batata” e não me restou alternativa a não ser escrever sobre isso, embora eu nem saiba exatamente o quê. Seja lá o que for deve ser inútil, porque todo mundo já leu esse livro antes (se eu fosse uma boneca seria  “A Atrasadinha da Estrela”, of claro).

Esse mistério, aliás, do timming do livro, muito me intriga. Deve haver uma explicação para ter lido esse livro agora e não há um ano ou seis semanas. Diversos amigos cuja opinião eu prezo seriamente já haviam indicado, e ele chegou às minhas mãos há alguns meses. Mas só na semana passada a leitura fluiu, passando de agradável a muito interessante, e depois, a urgente. Nas últimas páginas, havia excitação misturada com a melancolia pelo  fim iminente.

Pois é o tipo de livro que não se pode apenas fechar e guardar na estante, ou devolver. Mexeu tanto comigo, provocou tantas emoções, perguntas, risos e lágrimas igualmente sentidas e sinceras que não se pode dar por encerrado assim. Não algo que abriu tantas janelas e portas em mim.

Tomada por esse inconformismo com o término inevitável, entrei num frenesi internético que já reconheço como um padrão. Sempre caio na grande rede após um livro ou filme bom procurando informações, curiosidades – apenas com o propósito de prologar o prazer da experiência vivida tão intensamente.

“A sociedade literária e a torta de casca de batata” é uma história muito bem contada através das cartas da escritora Juliet Ashton, uma mulher que transformou a solidão em independência, recusando-se a viver como vítima e aproveitando o amor da maneira como a vida lhe ofereceu, mesmo que de forma incomum para a época. Com um humor delicioso e faro apurado para surpreender o bem em locais insuspeitos, ela segue seus instintos, que a levam ao seu destino – naquele sentido empregado por Browne em “Desastre”: ela faz as escolhas corretas para se manter na trilha da felicidade, a despeito do sofrimento.

Embora seja uma ficção, “A sociedade literária ” me lembrou o tempo todo de um livro fascinante que li há alguns anos chamado “Pensei que meu pai era deus”, de Paul Auster, de histórias reais tão fascinantes que parecem inventadas. No livro de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows, os personagens são tão verossímeis que parecem reais. Tanto um livro quanto o outro nos envolvem de tal modo que chegamos ao final entregues – e a veracidade não tem a menor importância.

Ambientado na Inglaterra pós Segunda Guerra Mundial, “A sociedade” consegue escapar do maniqueísmo fácil, pintando um quadro da natureza humana complexo, no qual cabem extremos de crueldade e generosidade, e também pequenos delitos, heroísmos cotidianos, transgressões simbólicas. Tudo muito… humano, demasiadamente humano.

Por fim, encantou-me, claro, o romance epistolar. Amo cartas, tenho ainda quase todas que recebi, além de cópias de algumas que mandei – sim, eu ainda sou desse tempo, mes amis.  Além de amar o objeto – folha, letra, selo, lascas da alma inadvertidamente remetidas no envelope – cartas têm um ritmo próprio, que dizem muito além do que está escrito. E são uma forma de relacionamento através da palavra, esse código ainda precioso para mim. Confesso, um tanto envergonhada que, vítima de um romantismo tolo ou delírio nonsense, alimento a fantasia de que aqui no blogue, quando eu escrevo e sobretudo quando um leitor se manifesta por e-mail ou comentário, eu também pratico essa arte perdida e charmosa de me relacionar com as pessoas através da palavra escrita.

Helê

Anúncios
%d bloggers like this: