Currículo de férias, atualizado

 

Eu já estive no palácio do Rei Minos (ou o que restou dele)
Eu já tive como guia da minha visita à Basílica de São Pedro um cardeal cotado para suceder João Paulo II
Eu já sobrevoei a Amazônia
Eu já fui ao aeroporto de Guarulhos só para jantar (escolhi um combinado japonês)
Eu já assisti um filme francês em Havana
Eu já vi os navios se aproximando do Canal do Panamá (pela janela do avião)
Eu já tive que comprar uma bolsa no meio do dia para dar conta de levar as tralhas que tinha comprado no caminho
Eu já comprei um queijo muito fedorento e tive que carregá-lo na mala pelo resto da viagem (mas valeu a pena, porque era uma delícia)
Eu já me perdi em Londres, justo no dia que saí sem o mapa
Eu já passei muito mal por causa da comida gordurosa de Cuba
Eu já passei o reveillón em outro país
Eu já fui a uma festa num barco no rio Sena (e tomei Brahma de latinha!)
Eu já mergulhei numa obra de arte
Eu já surtei num outlet da gringolândia

Eu já me perdi com ajuda do GPS
Eu já mergulhei no mar Mediterrâneo

Eu nunca me entendo com o câmbio de moedas
Eu nunca viajei de trem no exterior
Eu nunca me hospedei em albergue
Eu nunca peguei carona
Eu nunca tive problemas com filme velado, fotos perdidas e quetais
Eu nunca vi a Muralha da China (quem sabe um dia?)
Eu nunca fui roubada (toc, toc, toc)
Eu nunca me hospedei em hotel 5 estrelas
Eu nunca vi as árvores douradas pelo outono
Eu nunca viajei a trabalho
Eu nunca quis ir à Disney
Eu nunca estourei o cartão de crédito
Eu nunca fiz amigos em viagens (oh, que novidade)
Eu nunca esquiei na neve
Eu nunca vi as pirâmides do Egito
Eu nunca fiz um cruzeiro
Eu nunca pisei no continente africano
Eu nunca pulei Carnaval na Bahia
Eu nunca viajei “mochilão”
Eu nunca estive na Floresta Amazônica
Eu nunca acampei

Amanhã acaba. Dá gostinho que quero-mais.

-Monix-

Outra versão aqui.

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Entrevista com S. G. Browne, autor de “Desastre”

Fiquei tão empolgada com “Desastre” que no dia em que terminei de ler não me contive: escrevi para o autor falando do meu entusiasmo como uma tiete aborda um rock star. Tá, tá, guarde todas as muitas e devidas proporções, mas eu estava de fato muito excitada com o livro, e só por isso fui capaz de usar o meu precário inglês para dizer isso ao autor.
Assim, enviei a Scott um email repleto de empolgação e erros de digitação e gramática, e qual não foi a minha surpresa quando ele respondeu em menos de 24 horas. Além de rápido e gentil na resposta, foi generoso, oferecendo-se para ser entrevistado para um blogue que eu mesmo já havia definido como not huge.

Custei a responder, desconcertada com a oferta. Como admiti para ele mais tarde, congelei porque, apesar da minha familiaridade com as novas mídias, eu sou uma mulher do século passado. E lá de onde eu venho autores são criaturas que habitam outro plano – quase como os imortais do romance de Browne (até hoje considero uma deferência sem igual receber um e-mail da Fal).

Refeita da surpresa, perguntei a Scott todas as curiosidades que a leitura me despertou. Suas respostas compuseram um bônus maravilhoso ao livro, que divido agora com vocês.

♣♦♥

Li que você teve a ideia inicial para escrever “Desastre” sentando num shopping, exatamente como o livro começa. Foi o suficiente para iniciar a história? Quanto tempo o livro levou para ser escrito?

Sim, a ideia surgiu enquanto eu estava sentado no shopping, vendo as pessoas e imaginando como elas seriam daqui a 15 ou 20 anos. Não tinha outros aspectos da história em mente, nem outros personagens, o romance, ou o final – que só me ocorreu quando eu tinha escrito mais de dois terços do livro. Minha tendência é descobrir a história enquanto escrevo, os personagens costumam a desenvolver a partir dos argumentos, e não o contrário. É como sair de férias e ir decidindo a próxima parada a partir das experiências da viagem, ao invés de sair com a viagem toda planejada. Levei pouco mais de um ano para escrever “Desastre”, de dezembro de 2006 ao final de janeiro de 2008.

Quando li “Desastre”, sem nenhuma informação extra – nem orelha, nem 4ª capa – fui surpreendida por uma narrativa ora sarcástica, ora cínica, mas sempre muito bem-humorada. O humor foi uma opção?

Definitivamente, o humor é uma escolha. Mas muito do humor dos meus romances vem das situações que surgem. Eu não planejo a comédia, mas por outro lado permito que ela apareça na história e nos personagens. Então eu imagino que, desse modo, aparece enquanto eu escrevo.

Porque você escolheu “Fábio”, um nome português, para o fado? Alguma razão em particular? E por que “Dennis” para a morte?

Eu queria um nome que começasse com F, mas não consegui me conectar com nenhum deles. Depois de procurar nomes de homens com F encontrei Fabio e “bateu”. No caso de Dennis, eu tenho um amigo que me contou sobre sonhos que ele teve com a morte [death, em inglês], e como o nome dele é Dennis eu percebi que o nome era perfeito. Simplesmente soava bem.

Com qual dos personagens você se identifica mais? E com qual deles gostaria dar umas voltas por aí?

Eu diria que me identifico com Fabio, sobretudo porque a história é contada a partir do ponto de vista dele, e eu estou dentro da cabeça dele. Mesmo que ele não seja eu, com certeza há uma parte de mim nele. E de todos os personagens de “Desastre”, ele é o preferido. Quem eu escolheria para passar algum tempo? Provavelmente Lady Luck [Dona Sorte], por motivos óbvios.

Você acha que o livro poderia virar filme? Eu fiquei imaginando cenas e atores enquanto lia, e imaginei algumas possibilidades para Fábio – Jake Gyllenhaal, Brad Pitt, Hugh Jackman… Quem você gostaria de ver no papel?

Sim, acho que “Desastre” renderia uma versão para o cinema. Meu primeiro livro, ”Breathers” (lançado em 2009 e que infelizmente não chegou ao Brasil) foi escolhido para ser virar filme e, com sorte, entrará em produção em 2011.
Quem eu acho que faria bem Fabio? Hugh Jackman não seria má escolha, mas eu acho Ryan Reynolds um pouco mais perto de como eu imaginei Fabio. E penso que Jeff Bridges deveria interpretar Jerry/Deus.

Afinal, você se define como pessimista ou otimista? Você acredita que podemos mudar nosso destino ou ele já está pré-determinado? A propósito, você é religioso?

Eu acredito na lei da atração, em que se você agir de uma maneira positiva é provável que atraia resultados positivos e, inversamente, se você agir de uma forma negativa, as coisas não são tão propensas a seguir o seu caminho. Assim, ainda que muitas vezes seja mais fácil ter uma visão pessimista da vida (“não estou feliz com isso”, “eu gostaria que minha vida fosse assim”), eu prefiro adotar uma perspectiva positiva, ou otimista da vida.

Quanto a mudar o nosso destino, eu tendo a acreditar em alguns dos mesmos conceitos que apresento em “Desastre”. Embora possamos ter nascido com um determinado fado ou destino, são as escolhas que fazemos ao longo de nossos caminhos que, em última análise, vão determinar aonde a nossa viagem vai nos levar. Então, nesse caso, acredito que podemos causar mudanças em nosso destino. Nós apenas temos que fazer as escolhas certas.

Quanto a mim, me definiria como alguém mais espiritual do que religioso, já que tendo a concordar com as filosofias orientais como o Budismo e o Taoísmo mais do que eu concordo com as religiões tradicionais ocidentais. Acho que todos deveriam ter o direito de acreditar no que quiser, sem ser condenado por pensar diferente. E a  intolerância para com outras crenças é algo que eu encontro muito frequentemente na religião institucionalizada nos Estados Unidos.

Você acha que ser um escritor o coloca na trilha do Destino?

Eu sinceramente espero que esteja na trilha do destino, embora eu não acredite que ser um escritor me dá direito a esse resultado. Como eu menciono no livro, mesmo tendo escrito “O Grande Gatsby” Fitzgerald estava no caminho do Fado, porque ele foi desviado por um estilo de vida destrutivo que acabou matando-o. Então eu ainda tenho que tomar boas decisões e não me distrair do meu caminho.

 

Helê

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