Pandemônio

Um dia ainda há de vir a Revolução dos Adultos, que levará as crianças de volta para o quintal. Ou para a cama, depois das dez da noite.

Porque está acontecendo alguma coisa muito estranha com as famílias. Não sei se fui eu que envelheci e fiquei rabugenta, ou se deveria ser assim mesmo e eu perdi o bonde da história, mas não consigo me acostumar com o fato de que hoje em dia as crianças ditam a (falta de) rotina, as normas de comportamento e eventualmente até as decisões de compra da casa. Eu sou antiga, sou do tempo em que quando os adultos iam passear as crianças ficavam em casa, de preferência de banho tomado, pijaminha, dentes escovados e deitadinhas na cama.

Sei que hoje em dia tudo é mais difícil. Que a maioria das pessoas não tem estrutura de apoio, seja babá, baby sitter ou uma vovó de boa vontade. (Aliás, vovó de boa vontade é artigo de luxo meeesmo, eu tenho mais é que agradecer à minha santa mãe todos os dias, porque que nem ela tem poucas por aí.) Também acho que tem o seu valor uma criança que não é toda certinha, cheia de horários rigorosos, que eventualmente consiga ficar acordada até mais tarde, ou acompanhar os pais num passeio noturno, se for o caso.

Mas o que está fazendo falta é ensinar às crianças que quando elas estão no ambiente dos adultos, elas precisam estar submetidas às regras daquele ambiente! Numa festa de adultos, as crianças é que estão “fora do lugar”, e consequentemente são elas que não devem fazer barulho, não devem incomodar, não devem chutar a perna da mesa, nem derramar o refrigerante no tapete da sala, nem esvaziar o açucareiro. Não são os adultos que precisam evitar falar palavrões, não é o anfitrião que deve providenciar uma pizza à meia-noite porque “não tem comida de criança nessa festa”. As crianças que foram levadas para a festa dos adultos devem sair de casa já alimentadas ou a mamãe/o papai levará um sanduichinho na bolsa. Junto com brinquedos, gibis, lápis e livros de colorir. E ficará até um horário razoável, antes de o sono chegar e a boa educação ir dormir, levando com ela aquela criança linda e comportada e deixando uma peste que corre pela sala a irrita os demais convidados.

Um dia essa pestinha adorável irá crescer – todas elas irão crescer. E, sei lá, todos nós tivemos nossas infâncias, não sou nostálgica a ponto de pensar que “no meu tempo que era bom” nem nada, mas temo sinceramente pela qualidade da vida social dessa geração. Algo me diz que pandemônio define.

 

-Monix-

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Honestamente

Há palavras que caem em desuso. Todos conhecem, elas permanecem vivas na língua (não são palavras como “sacripanta” ou “balaustrada”, que ninguém sabe o que significam), mas simplesmente não são mais usadas, saem do repertório das pessoas.

Honestidade é uma dessas palavras.

O que, é claro, não deixa de ser sintomático.

Desde a redemocratização do Brasil, temos falado muito na (fata de) Ética. A Ética, com E maiúsculo, dos grandes princípios que deveriam nortear a política e, embora muitos se esqueçam, também as relações de cidadania.

Mas ser Ético é muito difícil. Para começar, temos que entender o que é essa tal de Ética, um princípio filosófico, discutido pelos Aristóteles, Kants e outros homens sábios ao longo de séculos. Nós, que somos pessoas comuns, o que podemos diante deles?

Por isso penso que seria mais simples se voltássemos a buscar a boa e velha honestidade. Com h minúsculo mesmo. A honestidade do dia a dia. A honestidade de devolver o troco que veio a mais. De ensinar nossos filhos a não colar na prova. De não avançar o sinal. De não molhar a mão do guarda. Etecetera.

Se todos nos preocuparmos em ser honestos, um dia, quando menos esperarmos, teremos construído uma sociedade mais Ética.

-Monix-

Arte urbana – Muhammad Ali

O artista Michael Kalish utilizou 1300 sacos de areia para homenagear “o maior entre os maiores”

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Em exposição em Los Angeles. Mais detalhes no site reALIze (cujo logo também gostei muito).

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Helê

Dândis

Fui ver o filme O Retrato de Dorian Gray, recém-estreado nos cinemas e forte candidato à lista dos piores filmes de 2011.

O filme é pretensiosíssimo desde o primeiro quadro, abusa de clichês tipo trilha de violinos, câmera trêmula, fusões, etc. Só gostei de duas coisas: Dorian Gray e o retrato. Nem Colin Firth (o maravilhoso) se salva.

Como costuma acontecer, é um filme que não faz justiça ao livro em que se inspirou.

O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, é um de meus livros favoritos. Wilde, na minha opinião, era, antes de tudo, um teórico da arte. Escreveu romances, foi teatrólogo, é um grande frasista, mas em tudo o que escreveu estava, na verdade, discutindo o papel da arte, da estética, do belo. E o Retrato é uma alegoria perfeita sobre o quanto somos escravos da beleza e da juventude. É uma história que está mais atual do que nunca.

O embate filosófico entre o hedonista Lord Wotton e o artista Basil Hallward tem como vítima Dorian Gray, que se deixa corromper pela ideia de ser eternamente jovem e belo. É nesta obra que Wilde eleva o espírito dândi a sua forma mais concreta e, ao mesmo tempo, o critica com mais acidez. O que, convenhamos, é uma atitude dândi até o último fio de cabelo. Ser cínico, saber que se é cínico e lamentar que o mundo seja tão povoado por cínicos – eis o “pulo do gato” de Wilde, o que o torna maior que os homens de seu tempo.

O que nossa época precisava era de alguém que fosse, ao mesmo tempo, um símbolo do espírito do tempo e de sua decadência. Toda cultura fin-de-siècle deveria ter seu Oscar Wilde para deixar para a posteridade.

-Monix-

Para ler ouvindo A Revolta dos Dândis

Cinema e feminismo

A Alison Bechdel Rule, teste criado pela quadrinhista americana para verificar se um filme pode ser considerado feminsta ou não, estabelece três critérios praticamente impossíveis de atingir:

1) Há pelo menos duas personagens femininas; 2) elas falam uma com a outra; e 3) sobre alguma coisa que não seja um homem.

É um desafio praticamente instransponível. Em muitos filmes, quando há mulheres, elas sequer chegam a ter um nome.

Pois no sábado assisti a um filme – dos mais improváveis – que passou com larga folga no teste: Sucker Punch – Mundo Surreal. Digo improvável porque este, por nenhum outro critério, poderia ser considerado um filme feminista. Trata-se de um típico filme “de menino”, com direito a muitos tiros, explosões, matanças, destruição em massa.

Há diversos problemas que o desqualificariam como legítimo filme feminista. O mais evidente deles é que as protagonistas são mocinhas anoréxicas e seminuas que basicamente massacram todos os homens que veem pela frente – o que pode ser considerado um desserviço à “causa”, pois passa o recado de que o que as feministas querem, na verdade, é suplantar ou destruir os homens, o que obviamente não é verdade.

Além disso, todas as ideias que a mocinha usa para escapar da prisão em que se encontra vêm de um homem que aparece em seus delírios.

Ou seja.

Mas enfim, com tudo isso jogando contra, o fato é que 1) há seis personagens femininas no filme, todas com nomes; 2) elas falam umas com as outras o tempo todo; e 3) sobre diversos assuntos, tais como planos de fuga, liberdade, histórias de família etc, e inclusive sobre os homens que são seus algozes.

Não sei se o filme é uma desmoralização do teste de Alison Bechdel ou uma prova de que ele faz sentido. É um bom filme de ação. Mas vai agradar mais aos meninos que às meninas, eu acho.

-Monix-

Quando o filme é melhor que o livro

Um amigo me propôs o desafio: quais filmes são melhores que os livros em que se basearam? O contrário acontece com frequência e há inúmeros exemplos. Para começar a brincadeira, ele citou Morte em Veneza (livro de Thomas Mann, filme de Luchino Visconti) e O Poderoso Chefão (livro de Mario Puzo, filme de Francis Ford Coppola). No primeiro caso li o livro – na verdade tentei, mas abandonei antes de terminar* -, no segundo vi o filme; portanto, não tenho como comparar.

Assim de bate-pronto lembrei de O Passado (livro de Alan Pauls, filme de Hector Babenco). O filme, embora extremamente denso e perturbador, é bastante bom. Pouco tempo depois de assisti-lo, uma amiga se hospedou na minha casa e deixou o exemplar dela para que eu lesse, dizendo que tinha tentado e não conseguia passar da metade. Não que o livro não seja bom – sem dúvida o é -, mas esse efeito disturbing é muito exacerbado e de fato tornou impossível, também para mim, concluir sua leitura.

O segundo exemplo de que me lembrei é, na verdade, um desenho animado: Alice no País das Maravilhas, a versão da Disney. Os fãs de Lewis Carrol devem (e podem) me condenar pela heresia, mas calma. É claro que o livro é uma obra-prima, mas acho que o desenho – justamente pelo fato de ser uma fantasia em animação – consegue dar vida à psicodelia de Alice de uma forma que jamais a literatura poderá realizar.

Mais tarde, namorado apresentou sua contribuição: A Identidade Bourne (livro de Robert Ludlum, filme de Doug Lyman). Segundo ele, o livro padece de um defeito que ele considera irritante em livros de ação: a personagem feminina é totalmente inverossímil, fraca, estereotipada. O que é uma pena, pois um dos pontos fortes do(s) filme(s) é justamente a personagem Marie.

Agora me contem, quais seriam suas contribuições a esta lista?

-Monix-

Update: Lembrei de um caso emblemático: O Curioso Caso de Benjamin Button, o filme de David Fincher, leva o conto de Scott Fitzgerald muito além, e acrescenta à história uma dose de lirismo e encantamento que o original não carrega em si. Deve ser um talento especial do diretor, pois acho que talvez A Rede Social seja melhor que o livro em que se baseou, Bilionários por Acaso.

* Tenho uma vergonhosa lista de clássicos abandonados no meio: além de Morte em Veneza, não consegui terminar a leitura de Mrs. Dalloway, O Velho e o Mar, O Grande Gatsby, Viagens de Gulliver e provavelmente alguns outros que já nem lembro mais. Pronto, falei.

Rosa, sempre ele

(Do sempre lindo De(coeur)ação, via Tudoaomesmotempoagora)

Bom finde pra vocês!

Helê

Helê

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