Pandemônio

Um dia ainda há de vir a Revolução dos Adultos, que levará as crianças de volta para o quintal. Ou para a cama, depois das dez da noite.

Porque está acontecendo alguma coisa muito estranha com as famílias. Não sei se fui eu que envelheci e fiquei rabugenta, ou se deveria ser assim mesmo e eu perdi o bonde da história, mas não consigo me acostumar com o fato de que hoje em dia as crianças ditam a (falta de) rotina, as normas de comportamento e eventualmente até as decisões de compra da casa. Eu sou antiga, sou do tempo em que quando os adultos iam passear as crianças ficavam em casa, de preferência de banho tomado, pijaminha, dentes escovados e deitadinhas na cama.

Sei que hoje em dia tudo é mais difícil. Que a maioria das pessoas não tem estrutura de apoio, seja babá, baby sitter ou uma vovó de boa vontade. (Aliás, vovó de boa vontade é artigo de luxo meeesmo, eu tenho mais é que agradecer à minha santa mãe todos os dias, porque que nem ela tem poucas por aí.) Também acho que tem o seu valor uma criança que não é toda certinha, cheia de horários rigorosos, que eventualmente consiga ficar acordada até mais tarde, ou acompanhar os pais num passeio noturno, se for o caso.

Mas o que está fazendo falta é ensinar às crianças que quando elas estão no ambiente dos adultos, elas precisam estar submetidas às regras daquele ambiente! Numa festa de adultos, as crianças é que estão “fora do lugar”, e consequentemente são elas que não devem fazer barulho, não devem incomodar, não devem chutar a perna da mesa, nem derramar o refrigerante no tapete da sala, nem esvaziar o açucareiro. Não são os adultos que precisam evitar falar palavrões, não é o anfitrião que deve providenciar uma pizza à meia-noite porque “não tem comida de criança nessa festa”. As crianças que foram levadas para a festa dos adultos devem sair de casa já alimentadas ou a mamãe/o papai levará um sanduichinho na bolsa. Junto com brinquedos, gibis, lápis e livros de colorir. E ficará até um horário razoável, antes de o sono chegar e a boa educação ir dormir, levando com ela aquela criança linda e comportada e deixando uma peste que corre pela sala a irrita os demais convidados.

Um dia essa pestinha adorável irá crescer – todas elas irão crescer. E, sei lá, todos nós tivemos nossas infâncias, não sou nostálgica a ponto de pensar que “no meu tempo que era bom” nem nada, mas temo sinceramente pela qualidade da vida social dessa geração. Algo me diz que pandemônio define.

 

-Monix-

21 Respostas

  1. Cometi alguns errinhos gramaticais aqui e acolá, mas deu pra entender!

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  2. Monix, você foi certeira! As pessoas se esquecem de suas vidas, e abrem mão de tudo em nome de sus filhos, se esquecendo até mesmo que esses preciosos 20, 25 anos, não voltarão mais. Um pouco de egoísmo e adultismo, faz bem.

    Isso me lembrou muito um livro que estou lendo, chamado Sem Filhos: 40 razões para você não ter (eu sei q tem muitos pais aqui, então, calma, gente!) da escritora francesa Corinne Maier, mãe de 2 adolescentes que listou 40 razões para não se ter filho. Uma das questões-chaves elencada pela escritora está justamente no fato de estarmos vivendo uma era em que as crias estão no centro das atenções e isso nunca existiu na história da humanidade. Crianças, por motivos lógicos, nunca foram centro do universo dos pais, menos ainda do mundo dos adultos. E ela questiona que tipo de mensagem estamos dando para esses futuros adultos. Estamos deixando eles pensarem que, assim como seus pais, que largaram suas próprias vidas e seus momentos de adultos para fazer o que a sociedade hoje em dia preza que se faça para se ser um bom pai e uma boa mãe, a vida em sociedade também irá deixá-los ser os centros do universo, onde tudo e todos irão parar para eles sempre que quiserem. (Acho que todos podemos imaginar onde isso vai dar, né).

    Sobre o livro… Bem, tirando essa conclusão brilhante que a escritora teve, o livro tem um ou outro insight, mas no geral é bem amargurado e não curti. (Tampouco os argumentos lotados de amargura e arrependimento me convenceram a não ter filhos. O que foi uma decepção, porque queria encontrar razões lógicas vinda de quem tem experiência prática).

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  3. Vi este cartum e lembrei do post:

    Caraca, Rê, simplesmente perfeito! E real, infelizmente.
    Beijo, saudade,
    Helê

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  4. Isso, Monix. Abaixo a ditadura das crianças e dos pais sem noção. É um tal de pizza sem cebola, linguiça sem pimenta, ambiente sem fumaça (rs).

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  5. Lamento.Sou radical .
    Já saí do teatro pq tinha criança comportadinha que falava uma coisinha ou outra.
    Quando tem festinha na minha casa também aviso que é de adultos,que se não tiver com quem deixar não venha.
    Adoro crianças.
    Mas o meu que hj tem 19 tava tomado banho e deitado ãs 20hrs.
    Não frequentava bares e nem restaurantes ã noite.
    É isso.Hoje as crianças mandam na casa.Pq VC ADULTO QUER!
    Não sabe o que é limite.

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  6. Ai, posso adorar o post, né. Pois então. Não suporto criança botando banca onde não deve. Não suporto.
    Eu sou do tempo e do costume e da opinião e da ideia e da conviccção de que criança precisa de rotina. Ninguém precisa de quartel, claro, mas liberdade pra fazer o que der na telha vem com a idade. Pelamor. Tem hora, sim, tem lugar que não pode, tem coisa que não fala, etc. Né? Então. Bj!

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  7. Quando eu era criança, tinha “programa de adultos” e “programas de adultos com crianças presentes”, porque os outros pais também iam levar e rolava um certo combinado. E havia mais crianças, também. Quase ninguém tinha um filho só, então, a festa das crianças era cheia e rolava em paralelo, sem necessidade de se intrometer no programa dos adultos. Me lembro que minha mãe chamava para comer e depois, para ir embora, o resto da noite era livre. Hoje, me parece que os pais (algumas vezes com razão, porque os riscos são outros) ficam controlando demais os filhos, e aí eles não tem timing para saber que, sim, pode ficar brincando na garagem (ou em qualquer outro lugar) da casa, pode comer só salgadinho porque é dia de festa e pode trocar a barbie ou mudar a posição dos carrinhos na pistinha sem avisar a mãe. Aqui em casa, a regra é levar se houver outras crianças, até para fazer esse volume que garante a “festa paralela”. Caso contrário, a super vovó entra em cena, porque criança sozinha em festa de adulto é sinônimo de aborrecimento para a família inteira. Ah, e aqui as meninas estudam de manhã, então dormem entre 20h30 e 21 horas, todos os dias (e acordam cedo todos os dias tbm). Sério, ter umas duas horas sem criança, à noite, é o que garante a minha sanidade mental. Beijos

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  8. Concordo com a Dedéia. A palavra em questão é “limites”.

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  9. Amém jesuis vocês tudo.

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  10. Eu concordo com a Meg, isso sempre existiu, eu mesma sempre fui levada a tiracolo pra mil coisas com meus pais. A diferença é que hoje a criança tem que ser o centro das atenções o tempo todo, não tem limite, e todo mundo acha normal. Até nas coisas mais simples. Criança hoje não espera a mãe acabar de falar no telefone, ou terminar uma conversa com alguém pra sair falando no meio, demandando atenção por qualquer motivo. Da mesma forma, mudam o som, o programa de tv, o que quer que seja, sem se importar se tem outras pessoas ouvindo / assistindo ou não. Ah, mas criança sempre foi assim, inclusive eu e vc! Pois é. Só que as nossas mães, ou qualquer adulto que estivesse por perto ia sinalizar que não é assim, que quando tem 2 pessoas falando a gente espera terminar pra falar tbm, que precisamos perguntar antes de mudar a estação do rádio ou o canal de tv. E hoje aparentemente isso não existe, a criança (de)manda e os adultos atendem. Daí, quando a criatura está numa sala de aula e não para de falar quando a professora está explicando ninguém entende o porque….

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  11. Monix, não sei bem se isso é assim agora, ou se sempre foi e a gente é que não lembra direito.

    Meus pais não me levavam a todos os programas deles, lógico, mas lembro que levavam a muitos. Casamentos, aniversários de adultos, formaturas, churrascos na casa de amigos, eu ia num tanto dessas coisas. E lembro que alguns outros amigos adultos dos meus pais também levavam filhos-criança e no meio da festa era aquela correria de crianças entre as pernas dos adultos e tinha bagunça, claro, e briga entre os pequenos e tinha mães que vinham dar bronca e aquela confusão. Me parecia que todos achavam isso normal.

    Vai ver que nem naquela época era normal, meus pais é que eram sem noção e sempre teve gente achando um absurdo…

    bjos

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    • Meg, “tinha mães que vinham dar bronca”! Exatamente! Meu questionamento (que nem é exatamente uma crítica, é um ponto para se pensar apenas) é que hoje ninguém dá bronca… A impressão que tenho é que as crianças reinam absolutas. Nem as próprias mães chamam sua atenção, nem – muito menos – os outros adultos. Ai de quem se meter a dar alguma orientação a uma criança alheia. Antigamente a gente tomava chamada de qualquer adulto, fosse pai, tio, avô, padrinho… e seguia em frente. O chato é que agora, quando há crianças presentes, os adultos é que têm que mudar seu comportamento – não falar alto, não dizer palavrões, evitar assuntos inadequados, providenciar comida de criança etc. Quando o anfitrião está disposto, OK, sem problemas, mas às vezes não é esse o caso. E os pais dos pequenos não se conformam.

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  12. Ai, Helê! Certas coisas não ficam antigas nunca! E boa educação aliada a bom sensonao cai de moda. Lugar de criança é em casa, na escola, em programas infantis e nas casas dos amigos e parentes. Levar criança em festa de adulto não tem desculpa. Se os pais não tem com quem deixar, não vão. Simples assim. E criança prodígio é um moleque que já deveria ter ido pra cama horas atrás.
    Bejos rabujentos!

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  13. Helêzinha, falou tudo. Se o programa é dos adultos, as crianças que precisarem estar lá vão ter que se adequar. E quem levar, terá que dar condições (e distrações) para que o pequeno não atrapalhe o andamento do programa, sabe? Bom senso, ah, o bom senso, né? 🙂

    Beijinhos, amada!

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  14. Belo texto! A molecada tá foda… eu acho da hora… hahahaha

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  15. dá a mão, monix…
    vc não está só. acho isso, também. mas muitas vezes me reprimo nessa opinião pois meio que é ‘as crianças primeiro’, sempre. criança tem prioridade, lógico, mas não em programa de adulto. já cansei de vetar filhos dos outros em programa aqui em casa, a menos que, óbvio, não tenham esquema. mas vou avisando logo que é programa de gente grande, tá???
    :)))

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  16. Dialogando com o Túlio: a questão é menos se e quando levar, que aí cada um sabe onde aperta o calo. Pra mim o que está em jogo é de quem é o mando de campo, se as crianças ou os adultos ditam as regras de comportamento e convivência. Assim posto parece óbvio, mas nossa experiência mostra que não é.

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    • Helena, o Mangueira comentou lá no Facebook, e concordo, que a questão é exatamente saber em que momento dá pra fazer o jogo de ida e o de volta. Como ele disse, oito anos, dá, três, não. A Luna vai fazer seis, está na passagem. Se eu der mole ela dá ordem, mas também não sabe ainda ficar quieta muito tempo – a não ser vendo Discovery Kids, claro. Então, é uma questão de educação – mútua.

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  17. Caramba, Mônica, entendi, mas não sei. A minha Luna também não é mole e às vezes a gente tem que levar ela junto para resolver algo em algum lugar e ela fica pedindo atenção até levar uma chamada porque está nos impedindo de resolver. Isso é uma coisa, concordo plenamente. Mas levar para uma festa de adulto, só ela, sem mais ninguém, num ambiente estranho, me pondo no lugar dela, fico com pena. No meu tempo até era melhor, mas só porque eu aprendi a ler cedo, pegava um livro da estante e fica no no meu canto até me chamarem, amarradão. A Luna está aprendendo a ler este ano. De repente ano que vem, por enquanto só deixando com avó, tia, quem der, por mim, mas por ela também.

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