Pensando o casamento real

A família real britânica exerce sobre mim um fascínio inexplicável. Não tem socialismo nem feminismo que me restem quando vejo uma foto da Princesa Diana, da Rainha Elizabeth, dos simpáticos príncipes William e Harry ou mesmo da incômoda Camilla Parker-Bowles, porque, afinal, todo conto de fadas precisa de uma madrasta malvada.

Ou seja, quando se trata do Palácio de Buckingham, não tem racionalidade que me salve.

Eu mesma nunca fui contaminada pelo vírus casamenteiro, infecção tipicamente feminina. Não que não goste de casamentos, mas não sonhei com um casamento de princesa, e embora tenha me casado na Igreja, na época foi uma decisão muito mais pautada em uma acomodação de expectativas familiares do que propriamente a realização de um desejo adolescente.

Ou seja, pensando nessas contradições todas, me pego questionando, afinal, o que leva uma pessoa tão desinteressada pelo conto de fadas ser, ao mesmo tempo, tão fisgada pela hipnótica monarquia britânica. A pompa e circunstância? A solenidade? A elegância? A ilusão de perfeição?

Com certeza um pouco de cada, mas acho que o fascínio com a boda real tem uma pitadas de outras coisas também.

Em primeiro lugar, considerando que a sociedade ocidental contemporânea baseia seu imaginário coletivo no culto aos olimpianos, não é difícil entender que a família real do Reino Unido aprendeu melhor que todas as outras a garantir seu espaço no panteão das celebridades planetárias. Sendo que além de serem famosos do melhor jeito possível neste século XXI – ou seja, são famosos apenas porque são famosos -, ainda carregam consigo uma aura de legitimidade que as celebridades “comuns” nunca terão. Eles são nobres, têm “sangue azul”. Eles são melhores que os simples mortais, mesmo quando são fracos, errados, humanos.

O principal charme da família real é justamente ser um elo com o passado, com a tradição, com algo que não faz mais sentido no mundo de hoje. Somos escravos do novo, do moderno, temos que ser sempre diferentes do que já foi feito até agora. É, de certa forma, reconfortante ver que em algum lugar importante de nossa consciência coletiva ainda damos valor a algo que é feito do mesmo jeito há gerações e gerações. E aí temos duas derivações: 1) a Rainha Elizabeth é bastante hábil (embora às vezes não pareça à primeira vista) em avaliar onde deve conceder e onde precisa manter o protocolo tradicional – não faria sentido exigir comprovação da virgindade de Lady Kate, e a vovó-rainha sabe bem disso; e 2) por outro lado, num mundo cuja célula fundamental ainda é a família, os Windsor representam a ideia de continuidade: o casamento de William e Kate nos remete ao casamento de Charles e Diana, que por sua vez trouxe de volta o casamento de Elizabeth e Philip e por aí vamos, até chegar à Rainha Vitória. Gerações que se sucedem, nos mostrando que o que é essencial não mudou tanto assim.

Por fim, o casamento em si: quando essas figuras mitológicas sobem ao altar, o que vemos?

Futuro.

Ver dois jovens lindos, elegantes, revestidos dessa aura mítica, subir ao altar e se comprometer diante do mundo, nos faz ter uma breve visão de futuro. Um dia Elizabeth morrerá, depois Charles morrerá, e todos sabemos que rei morto é rei posto: William reinará, e seu filho o sucederá, e por mais que tudo mude, algo de nosso permanecerá.

Talvez as coisas não aconteçam bem assim – provavelmente não acontecerão, pois a vida é como uma caixa de chocolates, já dizia a mãe do Forrest Gump. Mas é reconfortante imaginar, eu acho.

-Monix-

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