As canções que eu peguei pra mim

Eu gosto de Roberto Carlos.

De um modo geral esta declaração costuma ser acompanhada de explicações sobre exceções e preferências – “gosto só de tal fase…”, “detesto a Jovem Guarda, mas acho isso e aqui legal” etc. Como se fosse obrigatório justificar sua preferência ou rejeição.  Opto por assumir logo gostar do Reirobertocarlos, essa figura que desperta repulsas homéricas e amores profundos (depois de ser tema e campeão do carnaval carioca com a Beija-flor, escola que também desperta sentimentos extremados, pior ainda). Claro que há muito que me desagrada, mas gosto de tantas coisas que prefiro arrendondar para mais. E aqui vai o meu bestófi do rei, não com explicações – porque gosto é igual bunda, cada um tem a sua -, mas com impressões e reminiscências:

Olha – dia desses eu escutei a melhor gravação, feita por uma cantora chamada Marília Barbosa, que fazia parte da trilha sonora da novela ‘O Astro’, lá em 1978. Lembro que eu amava a música já naquela época, aos 8, 9 anos de idade, e compreendi tanto tudo aquilo, apenas pela maneira como Marília cantava. Há tanta entrega e verdade na interpretação dela! Além disso, a letra falando de imperfeições (“a cabeça cheia de problemas/não importa eu gosto mesmo assim”) me ganhou de cara.

As curvas da estrada de Santos  – o  amor por esta música também se deve a uma gravação espeífica, que é a de Elis Regina. Simplesmente incrível o que ela fez com essa canção, que ganhou um clima de urgência, um tom de desespero jopliniano, eu diria, auxiliado por uma bateria quase tão infernal quanto a voz de Elis. Imbatível, do tipo ninguém mais deveria gravar e ponto.

Além do horizonte – essa entrou no rol das favoritas depois de uma viagem à Chapada Diamantina e da experiência de “bronzear o corpo todo sem censura/gozar a liberdade de uma vida sem frescura”. Como não amá-la, depois disso? 😉  Melhor gravação: Erasmo e o síndico, Tim Maia, que confere à canção seu indefectível suingue.

Sua estupidez  – Aqui sempre me intrigou a maneira agressiva, quase estúpida mesmo, de falar de amor. “Quantos idiotas vivem só/ e você vai ficar também sozinha”- é para voltar ou para separar de vez? Não sei como funcionaria para mim, não sei se cantaria para alguém, mas com certeza ali tem alguém sendo brutalmente sincero. (Roberto gravou depois “Um jeito estúpido’, de Isolda e Milton Carlos, que soa como uma justificativa: “Eu sei que eu tenho um jeito/Meio estúpido de ser/e de dizer coisas que podem magoar e te ofender/Mas cada um tem o seu jeito todo próprio de amar/ e de se defender”).

Todos estão surdos – quase irreconhecível como canção de RC, ainda mais na brilhante regravação do Chico Science e Nação Zumbi. Adoro o clima power flower e o batidão.

Detalhes  – Considero um clássico. Simples assim. Embora cada romance tenha seus próprios, não há quem não tenha vivido algum detalhe descrito na música (se não viveu viverá, pode esperar) . O sujeito parece estar sendo cruel, quase rogando uma praga  – “Não adianta nem tentar me esquecer/durante muito tempo em sua via eu vou viver”. Mas lá no finalzinho ele entrega que a canção é, na verdade, uma tentativa desesperada de se manter presente, frente a possibilidade do esquecimento:”Eu sei que esses detalhes vão sumir na longa estrada do tempo/que transforma todo amor em quse nada”, Em seguida tenta novamente eternizar seu lugar ao menos na memória: “Um grande amor não vai morrer assim/ por isso, de vez em quando você vai lembrar de mim”.

Pideite necessário

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos – eu temi cometer um pecado e deu-se. Mas há uma explicação: durante toda a escrita eu cuidei para não citar canções que adoro, que o Roberto gravou mas não são dele, como “Dois e dois” e “Força estranha” – não por acaso, as duas de Caetano.  Preocupada com isso, acabei deixando de fora justo essa, feita para o baiano, uma bela história que, quando sabida, deixa a música ainda mais bonita e comovente. Eu sempre adorei porque  minha mãe cantava para o meu irmão, e essa é uma das raras lembranças vívidas  que tenho da infância. A imagem festiva e benfazeja “Janelas e portas vão se abrir/pra ver você chegar” me fazia imaginar cenários ensolarados  e um reencontro feliz, ainda criança. Anos mais tarde, tive o prazer de assistir Caetano cantando-a e contando a história, no show Circuladô, numa apresentação antológica na Praça do Canhão, em Realengo, bairro do quartel em que ele ficou preso antes de ir para o exílio. Muitas emoções, bicho!  (Obrigada, Geide, pelo comentário que me fez reparar essa falha. Ainda bem que com blogue dá pra rolar uma reimpressão quase instantânea 😉 ).

E você, também tem suas favoritas?

Helê

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14 Respostas

  1. Helê,
    “Um dia a areia branca, seus pés irão pisar e vai molhar seus cabelos, a água azul do mar…” Me emociono ao ouvi-lá em qq lugar. Ultimamente, por conta daquele CD com os sertanejos (coisa de gente do interior de SP) minha trilha na estrada é com DomingosDominguinhos e Paula Fernandes: “Já rodei o meu pais inteiro, como bom caminhoneiro peguei chuva e cerração…” Adoro!

    Geide, sua linda, você salvou o post, como é que eu pude deixar de fora os caracóis?! Não pode, Arnaldo! Obrigada, querida, mesmo.
    Beijoca,
    Helê

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  2. Eu gosto de “Olha”, “As Canções que você fez pra mim”, “Detalhes”, “Proposta”, “Como vai Você”, “Amor Perfeito”.. afffeeeeeeeeee.. Eu acho que sou fã do rei. Hahahaha..

    Hahaha, que figura, era fã e não tinha se dado conta!
    Obrigada pelo comentário, Ju!
    Beijoca,
    Helê

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  3. Salvei seu post lindona, mas quase acabo com minha reputação: cerração com C pelamordedeus e Dominguinhos, onde se lê Domingos. Apressadinha da estrela, para parafraseá-la.

    Liga não, boba, acontece nas melhores famílias. Como te incomodou eu fui lá e mdifiquei, que se eu posso fazer pideite, porque você não?
    Beijo,
    H.

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  4. Eu gosto de um monte, tem discos que eu amo inteiros, tipo esse cuja capa vc colocou no post e que começa com Detalhes. E aquele do Roberto Carlos em ritmo de aventura, que é todo fofo: “quando vc se separou de mim quase que a minha vida teve fim!”
    Mas vou citar duas músicas extremas que sempre me trancram a garganta. Uma, que hoje eu acho brega, mas continuo adorando (quem é que nunca esteve nesse fundo de poço?) é Por amor: “mas se um diaaaaa, se um dia você voltar, então eu vou ter chances de me levantar. Pois só você que pode me estender a mão, mas… se não for por amor me deixe aqui no chão”. A letra toda é assim, na sarjeta total. Adooooro.
    A outra é das músicas mais doloridas que eu já ouvi, eu embargo até hoje. Do mesmo LP de Detalhes, chama-se De tanto amor:
    “A saudade vai chegar e por favor meu bem, me deixe pelo menos só te ver passar, eu nada vou dizer, perdoa se eu chorar”
    Vixe, se deixar eu fico desfiando mais uma dúzia.

    É, esse disco dele é um dos melhores, e eu acho esse desenho lindo. E essa música que tem ‘perdoa se eu chorar’ tb me dá um travo na garganta, cara, muuuuuito triste.
    Ê, mais uma afinidade, Napaula!
    Besos,
    Helê

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  5. “Como vai você ?
    Que já modificou a minha vida
    Razão de minha paz já esquecida…
    Vem, que o tempo pode afastar nós dois
    Não deixe tanta vida pra depois…”
    Só mesmo Roberto.
    Bjs. Ana

    De fato, Ana. “Vem que a sede de te amar me faz melhor” é de derreter corações emperdenidos.
    Beijo!
    Helê

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  6. Vim pra ca por indicacao da geide – se ela diz que e bom, quem sou eu pra duvidar…

    acho que vou ficar por aqui!

    Senta, Inaie, e fica a vontade, viu? A Geide já é de casa, fique a vontade também, ok?
    Aquele abraço,
    Helê
    PS: Não colecioo, mas também adoro caixas!

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  7. Heleninha, não saberia por onde começar (e muito menos quando terminar) uma lista de prediletas de Roberto. Vc sabe da minha mania de gostar dele desde sempre. Sem exagero acho que seria em ordem alfabética, e em todas as fases tem coisas lindas, “Amor sem limites” por exemplo, uma das “recentes” e lindas, bem é isso não vou nem começar a listar pois realmente periga não terminar. São tantas emoções que realmente Roberto é o cara.

    Pois é, Lau, sempre partilhamos essa preferência real, enfrentando às vezes o desprezo de uns, e a aceitação surpresa de outros 🙂 . Vou procurar essa que vc citou, ainda não ouvi.
    Beijo grande,
    Helê

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    • Não Heleninha, certamente vc conhece e ela nem é assim tão recente, ele lançou logo depois da morte da Maria Rita e é em sua (dela) homenagem. Eu a classifico como “recente” pois ele não tem lançado disco de inéditas há tempos, e esse disco foi um dos últimos ou o último com inéditas. Só pra lembrar “Quando a gente ama alguem de verdade, esse amor não se esquece….”
      Bjs.
      Isso, Lau, agora eu “liguei o nome à pessoa” :-D!
      Beijo!
      Helê

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  8. uma amiga me mandou esse link pois sabe o quanto gosto das canções do roberto… adorei conhecer as Fridas… vou seguir…
    em tempo : estou enviando o link para a Marilia Barbosa, uma querida amiga.

    Ô, Lea, seja bem-vinda. Fique à vontade, viu? a casa é nossa. 🙂 Volte sempre.
    Jura que vc vai mandar para Marília?! Puxa, tomara que ela goste da menção, foi feita com muito carinho.
    Beijão,
    Helê

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  9. Helê, embora pouco comente, passo por aqui sempre, porque meu e mail me avisa, que sou boba nada. E desde o dia que li este post queria te dar um link e dar pro dono do link o seu link, hoje fiz isto. Acho que vai gostar do texto e do blogui. Aqui tem duas fridas, lá tem um cara e uma cara, este texto é do “cara”. Acho que ele vai gostar também das duas fridas, porque é sempre mto bom passar por aqui. bj

    http://palavrasavoantes.wordpress.com/2011/05/05/o-rei-e-eu/

    Oi, Vera, tudo bem? Adorei o “não sou boba”, hahaha! Eu adoro “Alterosas”, me lembra algo tão alegre e carnavalesco!
    Assim que der vou passar lá para conhecer os caras, sendo indicação de leitora nossa, há de ser bacana.
    Obrigada e volte sempre, querida.
    aquele abraço,
    Helê

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  10. gosto de muitas também, especialmente da fase da Jovem Guarda, que eu aprendi na infância e gosto até hoje. Os caracóis… é especial, linda, genial. Mas foi “Como é grande o meu amor por você” que eu redescobri recentemente, porque os meus filhos fofos cantaram nestas festinhas de dia das mães na escola 🙂
    dei vexame e tudo.

    Ah, Patrícia, mas esse é um clássico do vexame materno, previsto e absolvido pelo Código Maternal, hahahaha! Pode ficar tranquila, viu? 😉
    Abração,
    Helê

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  11. Nem gosto muito do Rei, não, mas “Outra Vez” é imbatível. E a letra de “Detalhes” é um tapa com luva de pelica.

    Eu estava estranhando ninguém citar “Outra vez”, ::Fer::, porque é um classicão dele. Também gosto, acho uma canção muito bonita.
    Beijo grande pra você,
    Helê

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  12. Costumo me justificar quando o assunto é RC. Mas confesso que não resisto. O repertório é de músicas lindas que, em grande parte, gosto muito. Emoções é lindíssima, não acham? Tanta poesia em … se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi

    Eu gosto, Maria. Raramente escuto para me preservar, porque toca muito certa época do ano e não quero deixar de gostar por causa da super exposição, digamos assim.
    Obrigada pelo comentário, volte sempre – a casa é nossa.
    Bj,
    Helê

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  13. Não tem como não gostar de pelo menos uma música do Rei.
    A preferida da minha mãe é Outra vez,ela é super fã,portanto ouço desde sempre.
    Redescobri muitas músicas dele,pois agora ouço no modo adulto e me emociono e me divirto com a fase garanhão,pq né,Proposta assim no pé do ouvido e p/amolecer as pernas,né?

    Bem,
    tem tb duas músicas unânimes em casa(eu e meus irmãos)De tanto Amor e Despedida a mais tocada nas formaturas,por ser músicas d família,não as considero tristes,mas que são,n há dúvidas.

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