A língua é minha pátria

A polêmica da semana é o tal livro distribuído pelo MEC para alfabetização de adultos, que contém exemplos de frases no registro popular da língua portuguesa, tais como “nós pega os peixe”, por exemplo. A grande imprensa tem criticado a publicação, usando termos do tipo  “cartilha do MEC que ensina português errado” e por aí vai.

Eu confesso que fiquei com preguiça de ler as matérias, então me sinto um pouco envergonhada por entrar no debate assim, meio paraquedista. Mas dei uma olhada na página do tal livro (recebi um link com o arquivo completo do capítulo em questão, cujo título, muito interessante, é “Escrever é Diferente de Falar”) e, sinceramente, como neta de linguista que sou não pude deixar de me coçar para dar uns palpites na discussão.

“Escrever é Diferente de Falar”: já começamos bem, não é? Acho que qualquer um que tenha tido aulas de português na escola (ou seja, todos nós que nascemos e nos criamos no Brasil) aprendeu que existe o registro coloquial e a norma culta da língua. Lembram disso? Pois bem. O que o livro em questão traz de novo em relação a isso é que, por se tratar de uma obra voltada para a alfabetização de jovens e adultos, os autores optaram por incluir também uma pincelada sobre regionalismos e registro popular. Alfabetizar adultos deve ser muito difícil, pois são alunos que já trazem alguns conceitos cristalizados. Como dizer para um aluno que se comunica perfeitamente bem há décadas que tudo o que ele sabe está errado e que ele terá que aprender tudo de novo? Missão difícil. Nesse contexto, faz muito sentido primeiro fazer este aluno se apropriar da sua forma de se expressar, se sentir validado pela figura de autoridade que está transmitindo o saber para ele (no caso, o professor), e só então apresentar a regra consagrada, mostrando a este aluno que há vantagens em seguir a norma da língua formal – ele será entendido por um número maior de pessoas, terá um maior reconhecimento social por parte dos falantes de nível sócio-cultural mais elevado etc.

Mas não se pode partir do princípio de que o falar regional é errado ou pior do que a língua ensinada nos livros, inclusive porque esta não é uma premissa verdadeira. São todas variações da língua portuguesa, e do ponto de vista da Linguística, todas igualmente válidas.

Atenção. Leia de novo. A norma culta, que tanto estudamos e à qual damos tanta importância (não sem razão, é claro), é apenas uma das variações de uma língua. Existem várias, e nenhuma delas tem a prerrogativa de ser “mais certa” que as outras.

A questão aí é a adequação à situação de comunicação: não dá para escrever um e-mail de trabalho com a mesma linguagem que uso nos meus e-mails pessoais – e vice-versa: já pensou se eu escrevesse para meus amigos com “Prezado Fulano, conforme conversamos anteriormente, segue o arquivo etc e tal”?

A norma culta tem muita importância, sim, pois é o registro escolhido pelo conjunto dos falantes do idioma para suas comunicações formais. Mas temos que ter na cabeça que a língua não tem dono; a língua não é um prédio para ser demolido; a língua não é uma espécie animal ou vegetal para ser protegida.

Voltando ao meu avô, que politicamente sempre foi conservador mas como filólogo e linguista era conhecido por suas posições de vanguarda: ele defendia que não existe uma língua popular, mas sim linguagens populares, no plural, pois são falas essencialmente variáveis e móveis. Um dos objetos de seus estudos sobre a língua do Brasil foi exatamente essa tendência, em algumas regiões do Brasil, de se usar o plural apenas em determinados trechos da oração (“é um fato absolutamente geral no Brasil, constituindo a nota mais original e típica dos nossos falares”). Para ele, “a língua culta é o ponto de referência, o ponto de encontro das variantes regionais, sociais e grupais”. Não é bonito, se a gente pensar bem? A língua como um ponto de encontro?

Para encerrar, deixo-vos* com uma citação dele, para pensarmos sobre o uso que damos à nossa e a todas as línguas do mundo:

Aprimorar o gosto, despertar e fomentar o senso de distinção, exercitar a plasticidade da inteligência, a fim de ela descobrir que para cada uso lingüístico há uma linguagem especial, de tal modo que não é possível estabelecer esquemas rígidos, grosseiramente aplicáveis a todos os casos, como se faz invariavelmente com a bitola em qualquer ponto da via-férrea.

Gladstone Chaves de Melo

-Monix-

* Taí um belo exemplo de como o uso estritamente correto do ponto de vista da norma culta pode parecer exótico, estranho ou até errado, dependendo de quem usa e quando usa.

Da série Ali e agora

Keswick, England (by FLEMING2009) (Via allthingseurope)

Helê

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