Percepção

*Da série ‘E-mails que viraram posts’

Vou te contar um segredinho, daqui do Casa dos 40: volta e meia eu me deparo com fotos minhas antigas em que eu me acho muito bem, bonita, atraente, magra até. E sabe o que é doloroso, talvez mais até do que não me sentir assim agora? É constatar que eu era gostosa e não sabia, porque me lembro claramente que naquele momento da foto eu estava me achando gorda, feia, esquisita ou sabe lá o quê mais (e não estou falando da adolescência, período em que a gente se sente esquisito a maior parte do tempo) . E qual não foi a minha surpresa ao constatar que o fenômemo é coletivo: outro dia, numa mesa com várias mulheres da mesma faixa etária, todos ainda belas e desejáveis, todas elas disseram experimentar a mesma triste sensação: se olham em fotos de 10, 5, 3 anos atrás e percebem que estavam muito melhor do que achavam então.

Dá certa angústia, mas pode ser encarado de outra forma também: vai que eu tô gostosa agora e também não sei? Heim? Heim? Tá, #Pollyanafellings, eu sei, mas antes isso, que eu não tenho vocação pra tristeza . Envelhecer não é fácil, J., e pra mim começou nessa mesma época – quando eu passei a reparar nos mais jovens que eu. Mas em geral o desconforto, antes de ser físico,  tem a ver com projetos inacabados, sonhos negligencicados, falta de rumo. E, nesse contexto, não apenas a grama do vizinho parece mais verde, mas nosso passado também torna-se mais interessante de ser lembrado que foi de ser vivido.

(

(Via Tudo ao mesmo tempo agora)

Talvez eu aproveite algum pedaço desse e-mail para um post futuro. Com certeza aproveitarei pra mim mesma, porque algumas certezas só mantém a firmeza na forma de conselho prozoutros – tornam-se maleáveis demais quando  somos nós mesmos acometidos de insegurança. Porque já isse o Erhman, citado pelo Russo, “muitos temores nascem do cansaço e da solidão”. E alguns desejos também.

Parabéns, Geide, seja bem-vinda. A Casa dos Quarenta tem uma boa vista, excelentes companhias  e é mais ampla e acolhedora por dentro que por fora. Seja feliz e divirta-se. Aquele Abraço!

Helê

PS: O e-mail eu escrevi para um amigo, meses atrás. Durante a escrita percebi que poderia virar um post; acabei escolhendo hoje como um presentim para  a Geide,  que chega a Casa hoje.:-)

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6 Respostas

  1. Milhões de parabéns pelo email / post ! Ainda bem que você publicou! Concordo completamente – aqui da casa dos quase cinquenta… E acho que, numa idade muito avançada, continuam valendo as suas assertivas, ainda que essa percepção, verdadeira, diga-se, possa se tornar aquela coisa meio tragicômica, sacomé? De toda forma, essa é a vida, e tudo pode ser menos ruim do que se pensa, quando visto de perto. Acho. Beijos.

    Valeu, Cláudia! Bom ouvir outras opiniões sobre o assunto porque eu sigo tateando, tentando compreender e ficar em paz. Desconfio que seja a lifetime job…
    Beijo,
    Helê

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  2. uuuui, quanta sabedora em escrever/transcrever isso. parabéns geide e hele! com certeza, hoje estou mais gostosa do que daqui a uma semana, um mês, um ano. como não dá pra voltar aquele ponto onde eu estava mais bacaninha, aproveitemos agora, pois! beijos

    Vou transformar em mantra, Vera, “Estou mais gostosa hoje do que estarei amanhã”. Repetindo todo dia, quem sabe eu me convenço?
    Beijo!
    Helê

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  3. Meninas, não sei como agradecer. Vocês descrevem sentimentos e sensações tão bem (humoradas, inclusive) que até tenho receio de não conseguir me expressar direito. Enfim, é aniversario, quarentona estou, aquela fase boa e marido idem tipo “diamantes são para sempre”, sabe? Pois é: esse presente virtual também é para sempre. Recebi como se fosse a jóia mais preciosa do mundo. Tô feliz de fazer parte deste círculo “de gente, fina, elegante e sincera”. Beijos! Gracias…

    Não há de quê, really 😉
    Espero que a festa tenha estado a sua altura.
    Aqeuele abraço,
    Helê

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  4. ai… suuuuuper assino em baixo!!!
    não sabia que tinha mais alguém junto comigo nesse sentimento.
    que raiva que dá do desperdício, né?
    e como explica/previne isso pra filha, hein???
    :)))

    Eu também fiquei muito surpresa quando descobri que não era a única a pensar assim. Dá realmente uma sensação de desperdício enorme, nem me fale!
    Com relação às filhas não sei, Peti, mas desconfio que ajuda o fato de nós nos darmos conta. Se eu tiver alguma pista, juro que venho aqui te contar.
    Beijo,
    Helê

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  5. queridona, é isso ai, vc cantou a bola e partiu para o gol ao descrever tudo o que se vê e se sente olhando o passado. Tai, ganhei um mantra mega utilizável na minha situaçao atual!

    E como é hard querer mudar o rumo das coisas monotônicas que puxam a gente para baixo sem cair no outro lado do mantra: e se eu estou feliz/gostosa agora e nao to sabendo? 🙂

    beijo e carinho sempre,
    glau

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  6. Sim, o sentimento é coletivo! Falo por mim!
    Beijo.

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