Paul e eu

Escrever sobre o show do Paul McCartney vai contra qualquer regra jornalística e mesmo contra o bom senso, assunto mais velho que pão dormido. Mas como blogues não são jornais e ‘coerência: não trabalhamos’ é um de nossos lemas aqui, vou falar assim mesmo, cês me desculpem.
Acontece que eu até hoje não me recuperei desse show, acho que fiquei com sequelas. Durante três dias não consegui ouvir nada  a não ser Paul McCartney. Aos poucos foi melhorando, mas na semana seguinte não foram poucas as vezes em que me peguei sorrindo, com olhar perdido, abobada, lembrando de um solo ou versão. Como disse aqui, pouco depois de voltar do show, fui surpreendida pela potência de senhor de 68 anos, que foi capaz de  me arrebatar – e olha que eu banquei a difícil.
Circunstâncias muito especiais, que não vêm ao caso, me levaram ao show (minha eterna gratidão ao meu amigo C.). Por causa delas, entrei em campo aos 30 do segundo tempo e sem aquecimento: só tive certeza que assistiria ao espetáculo quando entrei no Engenhão, cerca de hora e meia antes de começar. Portanto, eu não tinha expectativas, não sabia da setlist, não li sobre a turnê, nada, fui sem preparo nem demanda.
Logo de cara me emocionei com “Hello goodbye”,  que minha filha sabe de cor por causa de Glee, e me tocou essa inesperada sintonia. Mas confesso que nas primeiras músicas eu senti como se estivesse numa festa em que todos estavam bebendo menos eu. Na mais diversificada plateia em que estive na vida, com gente dos 10 aos 70 anos,  as pessoas choravam, se abraçavam, um tom acima do que constuma acontecer em shows ao vivo – que são, ou deveriam ser sempre emocionantes.

O inevitável se deu: aos poucos eu fui me embriagando também de todo aquele talento, daquelas canções primorosas, amando aquela banda absolutamente incrível, e algum momento bateu, pimba! Acho que foi em “Something”, quando Paul começou tocando um banjo, num arranjo diferente, mais rápido, e no meio da música a banda entrou com tudo no tempo e-xa-to, com absoluta precisão. Aí, já era: eu estava perdidamente apaixonada, queria ter um filho com cada músico da banda e três com o Paul.

Dos Beatles, juntos ou separados, gosto mais do que conheço, não tinha domínio do repertório como as pessoas a minha volta, que reconheciam todas as canções aos primeiros três acordes. Mas não fez a menor diferença, pois foi era música da melhor qualidade sendo tocada com virtuosismo; foi antes de qualquer coisa um show de música. Sem abrir mão de uma luz linda, ótimas projeções, efeitos especiais adequados. Mas  era a Música a grande dama da noite.

Claro que ter Sir Paul como parceiro facilitou muito as coisas – um verdadeiro cavalheiro, que não procura aparecer  mais que sua parceira. Paradoxalmente, é um espetáculo à parte observá-lo em cena. Além de sua incrível resistência – foram mais de duas horas e meia sem sair do palco – McCartney é um caso muito raro no mundo da música. Porque o cara é um Beatle, certo? Se você o coloca junto de caras como Elvis Presley e Michael Jackson, lembra que não é comum conseguir manter fama e excelência, sem morrer antes – artistica ou literalmente. Paul parece ter conseguido desenhar um arco na sua trajetória que não descende nunca. O show provou isso: ele tocou coisas de toda a carreira, mostrando que conseguiu algo mais difícil que ser um Beatle: sobreviver a isso com  qualidade e sucesso.

E eu, que não estava fazendo questão de ir ao show por falta de grana e porque já tinha visto o show de 1991, percebi o tamanho da minha ignorância. Porque nem ele é o mesmo, nem eu. Aos 21 anos fui ver um Beatle, queria essa entrada em meu currículo, fui ver um mito. Lembro de quase nada daquele show, além da emoção de ver algo histórico. Dessa vez assisti a um artista excepcional  que me fez sentir viva, vibrante como há tempos não sentia. Como só um grande show de música faz. Espero não me recuperar desse nunca.

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Ainda por cima lindo.

Helê

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