Coração de estudante

Como se não bastassem todas as coisas que têm dificultado minha presença no mundo digital (sumi do blogue, do Facebook, dos e-mails com os amigos, do Twitter então nem se fala…), agora inventei de fazer uma pós-graduação. É uma decisão importante profissionalmente, mas confesso que a cada aula me pego pensando: “por que mesmo eu resolvi fazer isso? Não seria melhor eu estar em casa a essa hora?”

Além de ter aulas duas vezes por semana, à noite, ainda tenho trabalhos a entregar, textos para ler, provas. Eu, que já era uma working mother e pouco via meu filho durante a semana, preciso fazer malabarismos do tipo correr em casa na hora do almoço para pelo menos saber se o dever de casa foi feito, se veio alguma anotação na agenda, se os sapatos estão cabendo ou o pé já cresceu… Enfim. Tá difícil.

Mas a correria já é parte integrante do dia a dia de todas(os) nós, eu acho. Quem não vive correndo? Quem não se sente, quase sempre, devendo alguma coisa para alguém – atenção, presença, um telefonema? Dado esse desconto, estou gostando muito da possibilidade de voltar à condição de aluna. Desde que me formei, em 1993, nunca mais tinha voltado aos bancos escolares. São quase vinte anos. Esse lapso temporal me dá um “olhar estrangeiro” sobre a coisa toda, chega a ser curioso observar que algumas coisas mudaram totalmente e outras continuam iguais. A estrutura da aula é basicamente a mesma: o professor fala, os alunos anotam. Em tempos de web 2.0, a sobrevida desse formato me espanta. Em compensação, acabou aquela história de quadro verde e giz arranhando: os quadros brancos com pilots coloridos tornaram tudo muito mais higiênico. Toda aula é apresentada em power point, o que é ótimo, mas a escola ainda não adaptou sua estrutura física, então é preciso apagar uma parte das luzes e deixar metade da sala no escuro. Ou bem eu enxergo o caderno, ou bem enxergo o telão. Em compensação, um recurso muito legal é que a sala tem acesso à internet e podemos ver vídeos do You Tube para ilustrar algum ponto apresentado pelos professores. Fico me lembrando da mão de obra que era para assistir um vídeo durante a aula lá pelos idos de mil novecentos e telefone de disco…

A média de idade da minha turma é bastante baixa. Acho que a maioria dos meus colegas tem no mínimo 15 anos a menos que eu. É um pessoal super bem preparado, e muito interessado, o que me surpreendeu positivamente. Por outro lado, as referências são totalmente outras, e muitas vezes me sinto meio boiando. Principalmente porque a pessoa não vê televisão, o que por si só é um problema na hora de estabelecer conversas casuais com quem quer que seja.

Os professores têm a minha idade, ou pelo menos são mais ou menos da minha geração. Às vezes preciso me controlar para não esquecer que, ali naquele ambiente de sala de aula, meu comportamento tem que ser mais próximo do da garotada que me cerca do que dos coroas que estão em frente ao quadro negro. É estranho e ao mesmo tempo divertido. Minhas novas amigas (a turma é maciçamente composta de mulheres) são muito legais, embora eu tenha uma faceta anti-social altamente desenvolvida (há quem diga que na verdade é tudo blefe. É possível). Não consigo deixar de fazer mil comentários durante as aulas, e assim, aos poucos, acho que vou quebrando o gelo e começando a me enturmar.

Só que em algumas situações a barreira da idade –e principalmente do estilo de vida – realmente dificulta a socialização. A turma é animada, e toda quinta-feira tem chope. Quase sempre me convidam, e todas as vezes eu recuso. Infelizmente, não cabe na minha vida, atualmente, um chope na quinta-feira. No dia seguinte o galo canta cedo, começa tudo de novo: levar filho para a escola, caminhar, trabalhar, resolver tudo correndo no intervalo de almoço, estudar, fazer os trabalhos…

Não tem sido fácil, mas é muito gratificante. Nunca fui muito fã de estudar, mas aprender coisas novas e conhecer pessoas novas, disso eu gosto.

-Monix-

 

 


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