Back in Bahia

Hoje vou fazer o Túlio Villaça e falar sobre uma canção. Quédizê, vou nada, que se eu pensar nele desisto: aquele moço sim, entende de música e sabe falar sobre como ninguém. Então vou  brincar de interpretação de texto, e falar de Back in Bahia, de Gilberto Gil, música que eu gosto imenso  (®Cláudio Luiz).

Caetano Veloso já afirmou em diversas ocasiões o quanto o exílio foi difícil para ele; numa dessas  o ouvi comentando que Gil, embora também sofresse com o afastamento forçado, viveu de outro modo aqueles tempos, aproveitando a oportunidade que, convenhamos, não era de todo má, sobretudo para um artista: estar em Londres no final dos anos 60. Para compreender essa diferença entre eles basta ouvir “Back in Bahia” e comparar com, por exemplo, “London, London”, de Caetano. Uma música tão bela quanto triste, melancólica, sofrida – como, de resto, todo o disco do qual ela faz parte.

Gil fez um roquenrol bem setentista, a meu ver, com um tecladinho safado na introdução, instrumentação que vai aumentando aos poucos, um ritmo alegre para tratar da tristeza (semelhante ao modo paradoxal que usou, anos depois, ao compor “Drão”, a pungente canção de amor que fala de uma separação). Já de volta ao Brasil, ele recorda que, eventualmente, sentia o peso da distância:

Lá em Londres, vez em quando me sentia longe daqui
Vez em quando, quando me sentia longe, dava por mim
Puxando o cabelo
Nervoso, querendo ouvir Cely Campelo* pra não cair
Naquela fossa
Em que vi um camarada meu de Portobello cair

Perceba que desde o começo, ele não se rende à tristeza; nota a sua aproximação e resiste, procurando saídas para a dor (entro em beco, saio em beco, há um recurso, Madalena), mesmo que seja apenas ouvindo uma cantora de quem gosta. O sofrimento existe e não é pequeno:

Naquela falta
De juízo que eu não tinha nem uma razão pra curtir
Naquela ausência
De calor, de cor, de sal, de sol, de coração pra sentir
Tanta saudade
Preservada num velho baú de prata dentro de mim

E então Gil começa a fazer comparações entre Londres e a Bahia, os luares e os verdes, e nesse momento essa experiência dolorosa sob muitos aspectos apresenta também pontos positivos, resultado de uma circunstância que pode ter sido um castigo mas também um golpe de sorte:

Digo num baú de prata porque prata é a luz do luar
Do luar que tanta falta me fazia junto com o mar
Mar da Bahia
Cujo verde vez em quando me fazia bem relembrar
Tão diferente
Do verde também tão lindo dos gramados campos de lá
Ilha do Norte
Onde não sei se por sorte ou por castigo dei de parar
Por algum tempo

(SemplicementePepeRosa

A parte final da canção guarda meu verso favorito, que vale pra muitas situações nessa vida, quase um mantra zen pra mim: como se ter ido fosse necessário para voltar. Óbvio – como sói acontecer com ensinamentos zen, mas nem por isso não menos importante. Porque sempre é preciso ir para voltar (navegar é preciso!) , atalhos são falsos e desvios atrasam a viagem . Ir e voltar são partes de um movimento que precisa ser executado em sua totalidade para se cumprir como tal. E uma vez completo, nem custa tanto assim:

Que afinal passou depressa, como tudo tem de passar
Hoje eu me sinto
Como se ter ido fosse necessário para voltar
Tanto mais vivo
De vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá

Ainda que se possa traçar um marco no tempo e no espaço, um antes e um depois, tudo foi vivenciado como deve ser: intensamente. Gil fala de lá quando já está aqui, reafirmando a unidade de um movimento que se liga a outro e outro e a outro, compondo a complexa coreografia da vida, desfrutada  a despeito das violências e imposições sofridas. Vida que a elas se sobrepõe e se recria, nos permitindo sair da escuridão ainda mais vivos e plenos.

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Por essas e muitas outras considero Gil um mestre, meu Buda Nagô (o criativo título que ele concedeu à Dorival Caymmi).

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Primeira foto: Musickeepsmegoing.

Ouça a gravação original de  “Back in Bahia”  e a releitura mais pesada e bacana do Barão Vermelho.

No site dele , Gil fala de quando e como compôs a canção.

*Marcelo Camelo na minha versão 2010, adaptada para a minha amiga Manoela, atualmente em temporada londrina.

 

Helê

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