Rio, Porto, Belo Horizonte

Descobri recentemente que preciso de algum tempo para viver certas felicidades. Tenho que me recolher num primeiro momento, para depois poder falar sobre. Isso explica porque ainda não havia falado da viagem recente a Belzonte, sobre a qual permaneci mineiramente quieta, sovando e fermentando o tanto de emoção bacana que vivi por lá.

Houve um componente especial nessa história: foi preciso que alguém atravessasse o Atlântico para que eu chegasse até Minas. Um leitor feito amigo, o Pedro, morador do Porto, estaria em BH com a família durante o mês de agosto. Eu transformei em pretexto essa oportunidade para finalmente conhecer a cidade, atender os convites que as amigas faziam e renovavam há anos e vencer um oceano sem passaporte.

O encontro com o Pedro foi alegre, mágico, caloroso. Eu havia recomendado a mim mesma alguma dose de formalidade; afinal, diz-se que os portugueses são mais sóbrios que nós. Mas quando o vi, não sei se pela aflição de estar atrasada ou se por conta da camisa do Atlético que ele vestia, o fato é que lhe dei logo um abraço bem carioca e lá se foram minhas prevenções e qualquer receio de estranheza. A conversa fluiu com a mesma facilidade que os goles de chope. A lamentar apenas o tempo, que como sói acontecer nos momentos de contentamento, correu célere como um velocista.

Para estar com as amigas de longa data não cabiam melindres, embora uma ponta de ansiedade mesclada com uma insegurança sempre apareça. Mas fui acolhida com um carinho enorme, quente, feito um abraço e um café passado na hora. Monix tentou me preparar para essa hospitalidade mineira, mas ainda assim recebi mais do que esperava ou merecia: as pessoas mudaram suas rotinas, abriram suas casas e alteraram programas familiares para estar comigo. (Minha anfitriã, a Baronesa, tratou-me como se eu pertencesse à realeza como ela, me mimando com toda a atenção possível. Fez de seu marido meu personal barista e desconfio que treinou os cachorros para botar a mesa, que eu encontrava impecável toda manhã.)

Em meio às refeições que partilhamos, eu fiquei profundamente comovida A imagem de nós todas reunidas em volta da mesa, entre filhos, maridos, enteados, cachorros; as conversas, piadas, causos, a materialização de um encontro improvável, que só a nossa assombrosa coragem e curiosidade puderam proporcionar, tudo isso foi muito bonito de ver. Porque nos conhecemos no boteco mais bacana da rede, o mitológico Mothern, há inacreditáveis oito anos. E nesse período vivemos e partilhamos tanto que paramos de contar quantas vezes estivemos juntas porque sentimos que estamos sempre perto.

Por isso posso dizer que aproveitamos nossos encontros como se não houvesse amanhã, nem ontem: assim como havia a alegria da recepção, parecia que, de algum modo, eu sempre estive ali. Fui tomada por uma agradável e intensa sensação de pertencimento. Não de pertencer a uma família – que eu detesto essa metáfora (família é um trem muito doido e forte para ser sinônimo de qualquer coisa que não ela mesma).  Mas de pertencer a uma verdadeira comunidade, para além do virtual; talvez naquele sentido hippie, solar e fraterno de comunidade.  Em que há diferentes graus de identidade e relação, mas há uma conexão que perpassa todas nós e isso é quase palpável. E, reservado o lugar especial que a Lau e a Ju terão pra sempre nas nossas vidas e na formação dessa comunidade, percebê-la nos acolhe e fortalece: eu fiquei contente e orgulhosa de mim mesma de fazer parte e ter ajudado a constituir essa egrégora moderna, cibernética e única, essa tribo que a gente teve a coragem e o destemor de fundar meio sem querer, meio querendo muito. Inventando moda no melhor sentido da expressão, usando a grande rede para tecer as tramas que escolhemos.

Quero agradecer aqui, publicamente, a vocês, suas lindas, pelo carinho e amizade incríveis, por terem embarcado nessa aventura. E também ao querido Pedro, leitor d’além mar, amigo que eu só pude conhecer por causa da experiência Mothern, e que de certa forma me levou até elas, completando essas misteriosas cirandas que a internet possibilita.

Helê

Anúncios
%d bloggers like this: