Carta de amor

Tive com B.  um caso tão tórrido quanto curto.  Depois do fim, experimentei um sabor um tanto amargo, por algum tempo. Faltou-me, percebo hoje, a leveza necessária para viver aquela paixão como deveria. Mas a memória é uma ilha de edição, como dizia Wally Salomão, e com o passar do tempo e as diferentes perspectivas que ele trouxe, permaneceram apenas os registros agradáveis desse envolvimento. Entre eles, algumas cartas ardentes e uma dançante, que ainda hoje, anos depois, desperta em minha uma vontade incontrolável de bailar.

Trata-se da canção “Carta de amor“. B. acabara de voltar de uma temporada vivendo na América Central e trouxe na bagagem o entusiasmo por Juan Luis Guerra, um dominicano muito popular na América espanhola, mas que aqui só ficou conhecido pela versão que Fagner gravou de “Borbujas de amor” (o Fagner, mel dels, por onde andará?!). O álbum “Bachata Rosa” – que eu ouvia numa fita cassete trazida por uma amiga que veio da Costa Rica –  serviu de trilha sonora para o romance, em especial “Carta de amor” porque mesmo depois que ele voltou ao Brasil seguimos vivendo distantes um do outro. Naquele século, interurbanos eram feitos com parcimônia. Então escrevia-se cartas (e com elas experimentava-se as emoções subsequentes: esperar por elas, abrir a caixa do correio com a respiração em suspenso, reler quantas vezes a saudade ordenasse).

Juan Luis dita sua carta, indicando inclusive a pontuação:

Querida mujer (dos puntos)
no me hagas sufrir (coma) 

E mistura com a expressão de seu sentimento comentários sobre o resto do mundo, aquilo tudo que fica à margem do pensamento quando se está apaixonado :

no me interesa la Perestroika  
ni el baloncesto ni Larry Bird (…)

ya no me importa si hay luz en el barrio
o aumentará la inflación
tan sólo vivo por refugiarme
desnudo en tu corazón
(punto y aparte)

A melodia vai num crescendo, e à medida em que não recebe resposta às suas missivas, Guerra intensifica o ritmo e as súplicas. Ignorante que sou em música latina, não sei dizer se trata-se de salsa, merengue ou outro similar. Seja qual for, é envolvente, sensual e irresistível como os dessa família musical.

Essa canção é uma de minhas favoritas e quase sempre me diverte, anima e desperta uma vontade louca de dançar (que na verdade é crônica, precisa de pouco para acordar). E me lembra às vezes de B., agora  com carinho e gratidão. Porque as pessoas nunca passam pela nossa vida por acaso – deixam rastros, canções, cartas. Cabe a nós escolher o que  guardar. Um carta de amor sempre vale a pena.

(Source: observando)

Helê

5 Respostas

  1. Ainda tô no “toda carta de amor é ridícula.Não seria carta de amor se não fosse…”
    vou lá ouvir a música.

    Então ouça essa também, Clau, que também é ridícula e deliciosa – como são todas as cartas de amor.
    Besos,
    H.

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  2. Ai, que lindo, Helê! Especialmente “Porque as pessoas nunca passam pela nossa vida por acaso – deixam rastros, canções, cartas. Cabe a nós escolher o que guardar. Um carta de amor sempre vale a pena.”
    Deu vontade até de ler umas cartas antigas.

    Beijo enorme e parabéns suuuuper atrasado mas com imenso amor.

    Dê (que também tem uma vontade crônica de dançar que encontra qualquer prextexto pra aflorar)

    Ô, querida, obrigada, parabéns recebidos e registrados. Essa percepção de que a gente pode escolher o que reter na vida é das coisas boas de envelhecer – sim, elas existem, ao contrário do que todo mundo quer nos convencer.
    E essa vontade crônica, como faz, né? Hahhahahaha!
    Beijo!
    Helê

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  3. que lindão isso… o texto, o Juan Luis Guerra, as cartas. E a foto das cartas. Amei… beijo! :o)

    Obrigada, Renata. Você já conhecia ele?
    Beijo!,
    Helê

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  4. atualizando o link pra quem quiser ouvir a canção

    Que gentileza, Cláudio. Obrigada!
    Beijo,
    Helê

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