Crime sem castigo

Nos EUA, todo mês de fevereiro é dedicado à História Negra. Este ano, o presidente Obama promoveu um tributo à Motown, gravadora responsável pelo lançamento de nomes como Michael Jackson, Stevie Wonder e Marvin Gaye, para citar poucos. O vídeo está disponível no site da emissora pública norte-americana PBS e há vários trechos no YouTube, vale a pena assistir. Quando a Helê soube da homenagem, pensou: será que Obama foi acusado de favorecer os negros ao realizar um tributo como esse? Porque se fosse no Brasil, isso certamente aconteceria. Pior: o governo recuaria antes mesmo dos questionamentos, para evitar o mal-estar.

De certo modo, é o que ocorre com a questão dos desaparecidos políticos e da Comissão da Verdade. Vergonhosamente, quanto mais à esquerda nossos governantes, maior o recuo. Do sociólogo exilado ao presidente operário, chegamos agora à presidenta que foi presa e torturada, e aumenta cada vez mais o nevoeiro sobre o assunto. FHC na sua postura imperial nunca nem se deu muito ao trabalho de se explicar. E tanto Lula quanto Dilma parecem querer provar a todo custo que não são rancorosos — e por isso, tornaram-se omissos. Será então necessário, nesta terra sempre sui generis, que um presidente ou presidenta de direita trate do assunto com a atenção, coragem e transparência necessários?

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Outro sintoma da esquizofrenia brasileira é o seguinte: reconhecemos que houve tortura e torturados, desaparecidos. Prestamos a eles homenagens: Vladimir Herzog dá nome a um importante prêmio jornalístico e de direitos humanos; Rubens Paiva é o nome da estação de metrô da Pavuna, aqui no Rio, e na semana passada o prefeito inaugurou, na Urca, a ciclovia Stuart Jones. Então nós, que já havíamos conseguido a proeza de inventar um racismo sem racistas, reconhecemos e honramos vítimas do Estado, embora o mesmo Estado continue se recusando a julgar os responsáveis pelos crimes cometidos.

Por tudo isso, consideramos iniciativas como esta fundamentais. Afinal, quem torturou Dilma Rouseff?

Duas Fridas

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2 Respostas

  1. Aqui no Brasil mal se assume publicamente que existe racismo, né.

    Mas já me dou por bastante satisfeita por ela ter incluso em seu discurso na ONU a condição de mulher que foi torturada. Por o assunto em pauta em discursos oficiais já é uma forma de mostrar que ela quer levar o assunto adiante.

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  2. Enquanto vivermos debaixo dessa aberração política que se chama Lei de Anistia ficaremos sem saber quem são os torturadores seja da Dilma, seja de quem for.

    A Dilma, nesse caso, serve para chamar atenção para o absurdo da situação: temos uma presidenta que foi torturada e não conseguimos avançar na investigação desse episódio da nossa história recente. Sem ler a página completa, com todas as entrelinhas e rodapés, não dá pra virar a página.
    Abraço,
    Helê

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