Louca Esperança

Estava eu placidamente curtindo meu feriado quando, já bem à noite, uma amiga me perguntou se eu queria ir com ela ver o Théâtre du Soleil no dia seguinte, pois ela estava com um convite sobrando. \o/
Claro que não dá para dizer “não” a  uma oportunidade como esta. Não foi muito fácil a logística – mesmo saindo mais cedo do trabalho, quase não chegamos a tempo, pois o espetáculo foi encenado no HSBC Arena, a 35 km de distância do Centro da cidade – valeu a pena demais da conta.
Confesso que estava meio em dúvida se valia tanto sacrifício para, afinal, ver um espetáculo de teatro, sendo que temos tantas boas produções por aqui. Mas O Théâtre du Soleil é algo muito diferente de tudo o que já vi.
Trata-se de um grupo que tem como proposta fazer teatro popular de qualidade, usando, para isso, diferentes formas de expressão. A diretora da companhia, Ariane Mnouchkine, é considerada um dos grandes nomes da vanguarda teatral contemporânea; todos os membros recebem a mesma remuneração; os espetáculos em geral são montados em ginásios ou grandes espaços. É um verdadeiro coletivo teatral, e não apenas um elenco. Tudo é muito diferente e muito especial.
O espetáculo, “Os Náufragos da Louca Esperança”, nos transporta de um plano para outro sem que nos demos conta. A história da peça é sobre um grupo de artistas e trabalhadores socialistas nos momentos que antecedem o início da Primeira Guerra (1914), produzindo um filme mudo, no sótão de um restaurante, sobre uma viagem da navio aos confins da Terra do Fogo. Por conta disso, toda a narrativa se dá em dupla camada, ou seja: atores atuando, caracterizados como o personagem e depois recaracterizados como o personagem que seu personagem interpreta. No momento em que o diretor grita: “tourne la manivelle”, e a cinegrafista começa a filmar… de repente esquecemos que estamos no teatro, e parece que estamos vendo um filme mudo. É de uma grandiosidade impressionante. De tempos em tempos, o diretor grita: “saiam da frente”, ou “movam o cenário para trás”… e a gente lembra que é uma peça sobre uma filmagem, e não um filme. Simplesmente incrível.
A primeira vez que ouvi falar em Ariane e seu Théâtre foi há mais de vinte anos, nas minhas aulas de francês. Nunca poderia imaginar que teria a oportunidade de assisti-los, menos ainda que eles viriam à minha cidade. Mas nada me preparou para o arrebatamento que vivi ontem. Eu e minha amiga saímos do espetáculo – que tem nada menos que quatro horas de duração – alimentadas de arte.*
-Monix-
* Notem que quando digo “alimentadas de arte”, é tipo literalmente. Saímos correndo do Centro e não deu tempo de comer nada. Chegamos em cima da hora, o intervalo foi curtíssimo, as filas eram enormes, ou seja, fui jantar depois da uma da manhã. O que para uma taurina é um problemão, gente.
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2 Respostas

  1. Fiz uma reportagem com ela, quando estava na PUC e estagiava no Jornal da PUC. A proposta de grupo de teatral é interessantíssima. A cada montagem, alguns atores atuam e os outros trabalham na produção. Alternam-se nos “cargos” de protagonistas, cenógrafo, mas também cozinheiro e faxineiro. Dela ouvi uma frase que até hoje lembro: “Eu detesto quando as pessoas vão embora [da companhia] e eu adoro quando pessoas chegam. Só que para pessoas chegarem, é preciso que alguém vá embora”.
    Queria ter visto, também!

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  2. “… mas nada me preparou…” hohohohoho, monix, voce achou que eu me abalaria de brasilia por pouco? beijos, vera

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