Em algum lugar do passado

Certas músicas funcionam como um teletransporte imediato e afetivo, como se magicamente eu voltasse não apenas no tempo, mas também no espaço. Sou capaz de lembrar de cheiros, sabores e imagens, de sentimentos e emoções perdidos anos ou décadas atrás, levados pelos acordes e notas de uma ou um conjunto de canções.

Acontece, por exemplo, com os discos “Cantoria 1” e “2” (eu falo ‘disco’ mesmo, #medeixa). Se escuto retorno para um julho na Chapada Diamantina quando o Flamengo foi campeão brasileiro, eu estava lendo “Cem anos de Solidão”e fazendo minha primeira viagem longa solo. Qualquer uma daquelas músicas e versos, sejam as “Estampas Eucalol”, a “Arrumação” ou o cipó caboclo subindo na virola, se me alcançam os ouvidos eu preciso me segurar no agora, ou me perco na subida do Pai Inácio, num poço menos conhecido do Serrano, na caminhada para a Cachoeira do Sossego.
Outro passaporte expresso para ainda mais longe, é “Sultans of Swing”, do Dire Straits. Feito truque de cinema, assim que ela começa e, num corte imperceptível, eu me encontro dentro do carro do meu pai, o bravo fusquinha azul marinho, junto com meu irmão. O sol forte, janela aberta, vento na cara, cheiro de maresia, sal no corpo e a areia nos pés que vai valer um esporro depois, porque não foi devidamente limpa antes de entrar. A voz do Mark Knopfler meio cantando, meio falando, meu pai amando aquilo e mandando a gente prestar atenção, a luz incrível do que, àquela altura, parecia ser um verão sem fim. Também requer de mim empenho zen budista para manter-me firme no presente; do contrário vou e volto entre décadas na duração da canção.

Músicas sempre conduzem lembranças e emoções; falo aqui de uma experiência que é quase (meta) física: ser transportado para outro tempo e lugar pelas notas musicais. Acontece com você? Com qual música? Para onde você vai?

Helê

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(via a-thousand-words ; 1ª imagem:meu-vicio-agora)

De hoje a sete, oito

(From f-ingforvirginity)

Helê

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