Muito além do trocadilho

A primeira vez que ouvi falar no documentário Miss Representation* foi no blogue da Lola. Premiado no Festival de Sundance em 2011, o filme, dirigido por Jennifer Siebel Newson, parte de uma premissa que tem sido o mote dos debates feministas neste início de século: as questões de imagem e representação da mulher nos meios de comunicação, e, consequentemente, no imaginário das pessoas.

Sobre o retrato das mulheres na indústria cultural – seja em músicas, filmes, na moda – não há muita surpresa. Sabemos que com raríssimas exceções o cinema privilegia papéis masculinos, e mais do que isso, histórias sobre homens ou coisas que acontecem com homens. Mesmo as ‘chick flicks‘, ou comédias românticas, em última análise tratam de mocinhas independentes e moderninhas que vivem mil e uma situações… em busca do seu príncipe encantado. Sobre esse aspecto da misrepresentation, o melhor depoimento é o de Geena Davis – estrela de Thelma e Louise, um raro filme feminista cujo final é um símbolo do backlash que já estava em andamento desde os anos 1980. Geena está à frente de um instituto de estudos sobre gênero na mídia e, junto com outras pesquisadoras do tema, traz questionamentos muito interessantes durante o filme.

Mas o mais surpreendente é a constatação de que as mulheres são misrepresented (mal representadas?) não só nas áreas ligadas à cultura e ao entretenimento, mas também – e principalmente – na política. A edição do filme confronta imagens de programas jornalísticos apresentando reportagens sobre Hillary Clinton e Sarah Palin. E embora sejam duas políticas completamente diferente em todos os aspectos, atuando em espectros diferentes, uma mais velha, a outra jovem, uma adequada ao padrão de beleza vigente, a outra nem tanto… ambas foram massacradas pela imprensa. Em linhas gerais, Hillary é retratada como uma bitch, castradora, que só chegou ao poder porque o marido “caiu em desgraça”; já Sarah Palin é considerada “material de masturbação”. Difícil decidir qual das duas foi mais ofendida. (Qualquer semelhança com a presidenta Dilma e sua “faxina” ministerial não é mera coincidência.)

Não sei se é um filme fácil de encontrar – parece que no You Tube se consegue assistir a uma versão legendada. Eu demorei a conseguir assistir, mas fiquei com este nome na cabeça em busca de uma oportunidade que enfim apareceu. Se puderem, vejam. Miss Representation, mais que um filme, é um projeto pela mudança, e disseminar a ideia faz parte desse projeto.

-Monix-

* Trocadilho intraduzível com a palavra misrepresentation, que significa algo como uma representação equivocada ou enganosa.
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Uma resposta

  1. […] bastante rica e ainda em curso sobre a passagem do colorblind para o color-conscious.]Monix: Representation matters !Helê: Sim. Dá uma tristezinha admitir isso porque a gente ama o filme, né?Monix: Mas […]

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