Querido diário

Acontece com vocês de, enquanto leem um livro, se surpreendem pensando mais ou menos como a narrativa do livro? Agora, por exemplo, que garrei no “Sonhei que a neve fervia” – e tendo passado um feriado solitário, uma condição irremediavelmente intrínseca a este livro – eu caminho pela Lagoa, assisto a séries e como tangerina com a narradora, a Fal, descrevendo meus pensamentos e sensações. A voz dela, a risada,  a respiração. Um abuso, não? Sim, também é a constatação (desnecessária) da qualidade do livro, que isso só se dá com Allendes, Guimarães e Veríssimos, não com qualquer um. Mas também me envergonha um pouco, como se eu fizesse, ainda que mental e até aqui secretamente , uma cópia malfeitíssima dessa brilhante escritora que é a Fal. Homenagem ou desfeita, não posso evitar, é mais forte que eu e vai até o fim desse livro que, eu temo, chegará logo.

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Hoje decidi de que lado da Lagoa eu quero morar: do que fica de frente para o Jardim Botânico, de cara para o verdão da encosta do Cristo. Mais ou menos do lado de lá de onde vivo, porque o maciço da Tijuca é um só – eu dizia sempre pra Dedeia que somos vizinhas, separadas apenas pelo túnel. Isso quando eu, desempregada, tinha todo o tempo do mundo para atravessar esse túnel e o trânsito de um dia útil para ir correr com ela na Lagoa. A vida pode ser boa mesmo quando é ruim. E vice versa. E esse meu otimismo da Oprah é o que me salva do meu cinismo do House.

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Mas eu dizia que já sei onde na Lagoa quero morar – e veja, essa não é uma decisão fácil, a Lagoa é enorme e linda. Vi também um prédio incrível, branco com janelas azuis DE MADEIRA. Sim, mes amis, de madeira, que abrem em par. Não tem varandão, não parece ter play nem garagem, um estilo antigo e muitíssimo bem pintado e conservado. Então eu já sei onde e até em que prédio, se encontrar o Gênio da lâmpada.

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Tenho curtido os dias cinzentos, a chuvinha, o cadinho de frio que começou. Ainda não pedi arrego, vamos ver até quando. Em 5…4…3…

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Domingo na Lagoa passei por todas as estações do ano: abri o guarda-chuva, botei o casaco, fechei o guarda-chuva, botei os óculos escuros, tirei o casaco, quer dizer: choveufezsolabriufechouesquentouesfriou. Mas sempre agradável, eu devo dizer, e belo, porque o cinza é plural: há cinzas variados e interessantíssimos.

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Pintei as unhas – aliás de um cinza grafite que lembra a cor da ponta do lápis. Sábado fui ao shopping e pensei em comprar várias coisas mas não gastei um tostão, saí me sentindo vitoriosa (acho que isso deveria valer um bônus, do mesmo modo que a Dedeia acha que a gente deveria emagrecer também pelo que deixa de comer) . No feriado caminhei, fui à feira e cozinhei, pus a mesa pra mim, uma coisa como tenho cuidado bem de mim nos últimos dias! Muito bem, Flipper.

Helê

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