Querido diário

Acontece com vocês de, enquanto leem um livro, se surpreendem pensando mais ou menos como a narrativa do livro? Agora, por exemplo, que garrei no “Sonhei que a neve fervia” – e tendo passado um feriado solitário, uma condição irremediavelmente intrínseca a este livro – eu caminho pela Lagoa, assisto a séries e como tangerina com a narradora, a Fal, descrevendo meus pensamentos e sensações. A voz dela, a risada,  a respiração. Um abuso, não? Sim, também é a constatação (desnecessária) da qualidade do livro, que isso só se dá com Allendes, Guimarães e Veríssimos, não com qualquer um. Mas também me envergonha um pouco, como se eu fizesse, ainda que mental e até aqui secretamente , uma cópia malfeitíssima dessa brilhante escritora que é a Fal. Homenagem ou desfeita, não posso evitar, é mais forte que eu e vai até o fim desse livro que, eu temo, chegará logo.

*

Hoje decidi de que lado da Lagoa eu quero morar: do que fica de frente para o Jardim Botânico, de cara para o verdão da encosta do Cristo. Mais ou menos do lado de lá de onde vivo, porque o maciço da Tijuca é um só – eu dizia sempre pra Dedeia que somos vizinhas, separadas apenas pelo túnel. Isso quando eu, desempregada, tinha todo o tempo do mundo para atravessar esse túnel e o trânsito de um dia útil para ir correr com ela na Lagoa. A vida pode ser boa mesmo quando é ruim. E vice versa. E esse meu otimismo da Oprah é o que me salva do meu cinismo do House.

*

Mas eu dizia que já sei onde na Lagoa quero morar – e veja, essa não é uma decisão fácil, a Lagoa é enorme e linda. Vi também um prédio incrível, branco com janelas azuis DE MADEIRA. Sim, mes amis, de madeira, que abrem em par. Não tem varandão, não parece ter play nem garagem, um estilo antigo e muitíssimo bem pintado e conservado. Então eu já sei onde e até em que prédio, se encontrar o Gênio da lâmpada.

*

Tenho curtido os dias cinzentos, a chuvinha, o cadinho de frio que começou. Ainda não pedi arrego, vamos ver até quando. Em 5…4…3…

*

Domingo na Lagoa passei por todas as estações do ano: abri o guarda-chuva, botei o casaco, fechei o guarda-chuva, botei os óculos escuros, tirei o casaco, quer dizer: choveufezsolabriufechouesquentouesfriou. Mas sempre agradável, eu devo dizer, e belo, porque o cinza é plural: há cinzas variados e interessantíssimos.

*

Pintei as unhas – aliás de um cinza grafite que lembra a cor da ponta do lápis. Sábado fui ao shopping e pensei em comprar várias coisas mas não gastei um tostão, saí me sentindo vitoriosa (acho que isso deveria valer um bônus, do mesmo modo que a Dedeia acha que a gente deveria emagrecer também pelo que deixa de comer) . No feriado caminhei, fui à feira e cozinhei, pus a mesa pra mim, uma coisa como tenho cuidado bem de mim nos últimos dias! Muito bem, Flipper.

Helê

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9 Respostas

  1. É isso mesmo, eu fui citada DUAS vezes nesse post? Estou me sentindo uma celebridade! Bom saber que vc está cuidando de vc mesma com o carinho que merece. E saber o que pedir para o gênio da lâmpada é fundamental, amiga, já pensou se ele nos pega desprevenidas? Nem pensar! Olha, o meu lado preferido da lagoa é o de Ipanema. Lá também tem um predinho branco de janelas de madeira, só que elas são verdes, se não me engano. E fica mais perto da praia, vc sabe, rsrs… De qualquer forma, poderemos correr juntas de novo! beijos!

    A gente segue desejando e falando, porque como diz minha amiga Caetana, vai que passa um ajo e diz amém?
    Beijo,
    Helê

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  2. Homenagem, Helê, sem dúvida. E, olha só, a Lagoa é meu lugar preferido no Rio. Lá em 2003, quando voltava “pra casa” em Campinas todo o final de semana o que me consolava no retorno era a vista linda da saída do Rebouças. E, agora, meio desempregada, meio em dúvida sobre a carreira (paralisada, seria a palavra?) meu programa quase diário é dar a volta de bicicleta pela Lagoa. “A vida pode ser boa mesmo quando é ruim. E vice versa”, parece tão claro, mas alguém precisa dizer pra gente se tocar. Beijos!

    De fato, Gei, essa saída do túnel é espetacular!
    Beijo!
    H.

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  3. que lindo, hele.

    ♥♥♥,
    Helê

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  4. Pois eu morei cerca de um ano bem próximo à Lagoa, no finalzinho de Botafogo, quase no Humaitá. A primeira coisa que fiz quando me mudei foi prometer a mim mesmo que eu iria andar de bicicleta pela Lagoa, todos os dias, depois do trabalho, em homenagem a este privilégio de poucos que é morar no Rio de Janeiro e malhar ao ar livre. Pois bem, parodiando o Capitão Nascimento, missão dada é missão esquecida. O arquipélago de bares em torno da rua Conde de Irajá – o Aurora, o Plebeu, o Botequim e a Cobal, para dizer o mínimo das opções etílicas que havia à minha volta – e as 20 e tantas louras geladas que eu guardava zelosamente na geladeira de casa não permitiram que eu cumprisse a promessa por um único dia sequer. Pra falar a verdade, acho que nem se eu morasse na casinha de janelas azuis (ou verdes, sei lá) eu teria botado o pé pra fora. Vai ser preguiçoso assim lá no inferno.

    Aí foi parar em Brasília…castigo! Hahaha!
    Beijos,
    Helê

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  5. O Sonhei , assim como o Minusculos, é fantastico .
    Eu também vivo olhando casas e escolhendo uma para mim . Ha uma casinha linda com um jardim mais lindo ainda numa rua perto da minha. Sempre que passo na frente , falo para os meus filhos, olha minha casa ai !

    Para mim não é um hábito, Kathia. Mas sabe que seu comentário me fez lembrar que eu fazia isso na escola, lá pela 6 ou 7ª série. Como a escola ficava no alto, a gente via casas ao longe e cada um de nós do grupinho tinha uma favorita. Nossa, direto do túnel do tempo.
    Beijo, obrigada por destrancar essa lembrança doce.
    Helê

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  6. Bravo, Helê! Lindas atitudes e lindas leituras geram lindas reflexões e melhores ainda posts.
    Eu se morasse na Lagoa queria que fosse no Jardim de Alah, que tem a vista mais de frente para o Cristo… e é perto da praia. Aliás, amo o Jardim de Alah, ao qual nunca vou, mas isso é outra coisa.

    Obrigada, querida.;-) Depois fala mais do Jaridm de Alah – adoro esse nome.
    Bj,
    Helê

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  7. Ai, deus, vou ser a última a ler o livra da Fal. Fail, eu.

    Imagina, Rita, os livros têm seus tempos, não se importe com isso. Só não deixe de ler.
    Helê

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  8. Também já me peguei várias vezes rascunhando drops mentais de dia-a-dia. Pretensão ou não, e deu vontade de voltar a escrever, exercitar meu texto sempre tão seco e conciso.

    Só sei que depois do Sonhei tenho tomado mais café com leite.

    Lindo post, Helê!

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