Da série “Bis é bão”: Instituto do Patrimônio Histórico Emocional ou A Casa da Vó*

Fiquei indignada quando soube que fizeram obras na casa da minha vó. Ainda que ela esteja morta há mais de 10 anos, e que more na casa um de seus filhos, isso não faz a menor diferença. Será sempre a Casa da Vó, com maiúsculas, lugar de afeto e acolhida, que jamais deveria ser modificado. A partir dessa descaracterização de tão importante edificação sentimental, passei a defender a criação do Iphem, o Instituto do Patrimônio Histórico Emocional. Ele tombaria e preservaria locações inesquecíveis na nossa cartografia sentimental, como a escola primária, a pracinha do bairro, o salão de baile dos primeiros amassos e tantos outros, carentes de proteção contra a violenta ação do tempo e do homem.

Varia de acordo com o grau de saudosismo ou apego de cada um o rol de itens a serem analisados pelo Iphem. Mas desconfio que a Casa da Vó apareça com freqüência, porque salvo as indefectíveis exceções, a Casa da Vó costuma simbolizar muitas coisas, transcendendo a própria avó. Durante um bom tempo da vida serve como espaço de socialização e convívio com primos e primas; ali a palavra família começa a ampliar seu alcance – e, conseqüentemente, a palavra “mundo” também. Grande ou não, luxuosa ou simples, Casa da Vó possui muitos caminhos, esconderijos e interesses que se transformam: numa certa fase o mais bacana é a cozinha e seus quitutes, noutras épocas nada nos tira do quintal; tem também o período de exploração das estantes de livros e discos, sótãos ou uma singela caixa de fotografias esquecida num canto do armário.

E como, em geral, as avós não mudam muito (em variados sentidos), a Casa da Vó mantém-se, com uma pintura aqui ou um conserto ali, mas permanece, assistindo, testemunhando e acolhendo o nosso crescimento. Para lá fomos ansiosos por brincadeira e mimo; e depois a contragosto quando a adolescência nos esperava impaciente na esquina. Lá chegamos com saudades legítimas da matriarca, ou apenas marcando presença no almoço dominical. E a todas essas, a casa lá, velha e firme âncora da nossa trajetória. Em alguns casos, mesmo quando a Vó já não está mais lá, a Casa da Vó permanece, perpetuando ternura e consolando a saudade.

Nunca mais pus os pés na Casa da minha Vó, depois das mudanças. O que não me impede de visitá-la sempre – endereço feliz, eterno e solidamente fincado no mapa da minha memória.

Helê

*Publicado originalmente em  21 de abril de 2008. E repostado hoje porque esta noite eu voltei lá com minha filha, num sonho.

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3 Respostas

  1. Que lindo! Casa de Vó deveria ser mesmo patrimônio histórico da humanidade.
    Beijos

    Ôba, mais uma para a causa 😉
    Beijo, Fê.
    Helê

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  2. Adorei o texto, Helê! Vou mostrar pro meu filho, já rapaz feito, neste momento em que a avó está se mudando (depois de 50 anos no mesmo endereço) e estamos inventariando as memórias, as fantasias e a nossa própria história, antes de fechar algumas portas e guardar as lembranças no coração. Beijo!

    Obrigada, Cláudia; espero que ele curta. Beijos na família.
    Helê

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  3. Por que é que vc faz isso comigo? Segunda vez no mesmo fim de semana que eu encho os zóio d’água lendo alguma coisa escrita ou enviada por você. que coisa. Vou guardar esse também.

    Mal aê, Ana. Só escrevo ou envio amanhã, tá? 😉
    Besos,
    H.

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