Um King a menos

Soube da morte de Rodney King poucas horas depois, vendo essa foto no tumbrl. Logo naveguei procurando informações, mas àquela altura eram poucas. Mesmo hoje não há muito a dizer sobre a causa: faltam exames e trâmites que só saem rapidamente nas minisséries e filmes. Sequer houve o funeral (nunca entendi essa demora americana para sepultar seus mortos).

Difícil avaliar a repercussão da morte de Rodney King nos EUA. Ainda que eu tenha procurado e lido on line sobre o assunto, é como analisar a importância de um artigo recortado pelo clipping: carece de contextos. No Brasil foi pífia, mas o que esperar da cobertura internacional em geral medíocre e feita na base do copiar & colar?
Depois do lançamento do brilhante “Malcolm X” de Spike Lee – que utilizou as cenas do espancamento de Rodney na abertura do filme, causando controvérsia – só fui saber do ex-taxista tornado ativista muitos anos depois, em 2009, acho, num programa de tevê bizarro, uma espécie de BBB Rehab: mostrava o dia a dia numa clínica de desintoxicação em Los Angeles, que recebia ex-famosos e subcelebridades. Foi quando soube que Rodney King lutou durante toda a vida contra o alcoolismo. Aparentava mais idade do que tinha, já havia perdido o viço, mas ainda era um belo homem cuja gentileza com os outros pacientes chamava atenção. Numa definição que li mais de uma vez no dia de sua morte, ele de fato parecia ser “a kind man with a tortured soul”. Torci para que ele se recuperasse e encontrasse paz de espírito; era evidente que a notoriedade lhe tirara tanto ou mais do que havia lhe dado.

Talvez não haja mesmo muito mais a ser dito sobre esse homem comum, com sobrenome de rei, que conquistou fama indesejada aos 25 anos por ser brutalmente espancado pela polícia, e morreu aos 47 no fundo da piscina de sua casa. Mas não consigo evitar a tristeza e a sensação de que podíamos ter feito mais, ou feito melhor. O ataque sofrido por King (filmado num mundo ainda pré-YouTube) mudou a atuação da polícia de Los Angeles e a discussão racial na América, dizem os jornais. No entanto, deixou ou agravou nele problemas que não puderam ser resolvidos – a despeito de terem sido vividos, em grande parte, sob a luz de flashs e câmeras. O que me leva a pensar que, sem abandonar as trincheiras do combate ao racismo, precisamos também lidar com as feridas e sequelas da batalha, minimizar cicatrizes e amparar melhor vítimas e combatentes.

(1ª foto sonofafieldnegro  e 2ª queennubian)

Helê

2 Respostas

  1. Tens toda a razão, Helê. Mais uma vez, parabéns e obrigada. Um beijo

    Obrigada você, Gaby, por comentar e não me deixar aqui falando sozinha😉
    Beijo,
    Helê

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  2. gosto de seus post “poéticos” e “memoriais” e os que se volta à formação jornalistica (informação e política) são tão contundentes. E de se lamentar que nossa midia seja uma m… e que vc não tenha uma coluna num grande jornal.

    Ô, querido, obrigada pela generosidade. Eu gosto desse título, que me ocorreu depois que o post estava pronto, porque dá a dimensão que queria passar, que somos todos nós kings & queens na luta pela igualdade.
    Beijo e obrigada pelo comentário, milord.
    Helê

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