Malta

Como legítima representante da “geração carapintada”, quando vi o bochicho no Facebook sobre a entrevista da ex-primeira dama Rosane Collor me interessei e fui assistir no site do Fantástico.

Com Rosane não tive nenhuma surpresa: continua com o mesmo ar de quem “não sabe para onde venta” (expressão que roubei de um amigo). Não consegue articular nenhum comentário que fuja minimamente do senso comum, e se esmera na arte de falar, falar e não dizer nada.

O que me espantou, porém, e sempre me espantará, é a incapacidade da reportagem brasileira de fazer uma entrevista de verdade. Sempre fico com a impressão de que, para agendar determinadas entrevistas mais “polêmicas”, a produção faz algum tipo de acordo com o entrevistado sobre quais são os  temas permitidos.

Por exemplo: Rosane é filha de um representante do coronelismo nordestino, e embora bem menos poderoso que o clã dos Collor de Mello, o “Sinhozinho Malta” poderia ter sido citado na entrevista. O que ela faz hoje, além de frequentar a igreja evangélica? Casou-se novamente? Não teve filhos com o ex-marido, então em que se baseia a pensão? Na renda dele como senador, em seus bens, nos de sua família, que é dona de empresas de telecomunicações em Alagoas?

Ao invés disso, o que vimos foi uma entrevistadora seguindo um roteiro que atende à agenda da entrevistada: conta os rituais de “magia negra” como o máximo destaque, fala de sua conversão usando o indefectível “encontrei Jesus” como justificativa para o arrependimento, insinua que o ex-presidente fez macumba pra seus inimigos que, por causa disso, morreram todos, e se recusa a falar sobre as denúncias de corrupção que ela mesma sofreu, durante a presidência da LBA. (A própósito: que fim levou a LBA? Desde Ruth Cardoso nunca mais ouvi falar, e agora que não temos primeira-dama, será que ainda existe?)

Enfim, cadê reportagem? Cadê polêmica? Cadê Frost/Nixon? Não sei se isso é coisa da imprensa brasileira, que tem a tradição da subserviência no DNA, ou se é tendência mundial. Mas tá faltando sangue nos olhos da turma, eu acho.

-Monix-

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19 Respostas

  1. Pra mim ficou muito claro que a entrevista foi muito mais pra tentar atingir o Collor, depois que ele andou malhando Veja e a “imprensa” na CPI do Cachoeira do que pra apertar qqr coisa relativa à ex-first lady. E adorei isso de “não sabe pra onde venta”rsrsrs

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  2. Mônica, acho que você foi muito boazinha em chamar aquilo de jornalismo – ou cruel com o jornalismo. Aquilo era sensacionalismo barato usado politicamente, porque o Collor hoje quer o sangue da Imprensa que ajudou a derrubá-lo, depois de ajudar mais ainda a elegê-lo, e nos dois casos atendendo mais a seus próprios interesses e das empresas que a interessam que os da população – quando do impeachment, por acaso os interesses coincidiram… A Globo tem programas jornalísticos, tem jornalismo em alguns programas. No Fantástico, convenhamos, não, e nem adianta esperar. Não tentarem a manipulação grosseira que tentaram já seria um avanço que me me deixaria satisfeito.

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  3. Sóciamada, eu confesso que torci o nariz quando comecei a ler, como sempre torço quando eu vejo o povo ampliando a voz dos imbecis. Pessoas que reclamam do Fantástico todo domingo, sem se dar conta que continuam vendo e repercutindo o Fantástico todo domingo. Mas você, of claro, refez a pauta e tirou observações inteligentes e úteis dessa boçalidade toda. Que orgulho, viu? Se me permite, vou colar a tag imprensando a imprensa, porque foi o que vc fez, com maestria.Besos.
    Helê

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  4. Concordo que a entrevista foi pífia.

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  5. Perfeito, Monix.

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  6. Só Monix para juntar “entrevista do Fantástico” e “Frost/Nixon” no mesmo post! A gente pode até reclamar da falta de “pegada” da imprensa, mas exigir qualquer coisa do Fantástico é chorar no vazio, né?

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  7. Vale registrar que “Malta” foi um título mais do que apropriado.

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  8. ainda bem ou pena que aqui não tem botão curtir, porque senão ir clicar em curtir tanto para o texto – excelente – e para os comentários.
    Ia dizer que faltam jornalistas como vc, mas é o que disseram… fantástico. E no mais, quanto tempo duraria na globo quem fizesse as perguntas corretas / devidas nestas entrevista?
    então, melhor pra quem pode ler o seu blog e ser seu amigo do face pra saber exatamente o que é.

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  9. Oi Monica, sou super fã do seu blog. Parabéns especialmente pela abordagem da reportagem da nossa ex-primeira dama (que Deus a tenha bem longe). Beijo Mary

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  10. monix, texto ótimo!
    muitas vezes ao assistir o vídeo no dia seguinte, eu pensei – cara, que entrevistinha merreca… acho que pouca gente tem interesse na roseane malta, mas já que estava com a mulher sentada em frente, custava nada fazer perguntas decentes e verdadeiras?
    não vejo fantástico, credibilidade zero.
    agora, além da obvia tentativa de atacar o collor, me pareceu que a roseane estava mandando um recado pro ex, ao falar da pensão: “quero a minha fatia dos ganhos. senão abro o bico no livro!”

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    • Eu vi só um pedaço na Globo News, o final, e achei que a parte que eu não tinha visto talvez tivesse sido interessante, já que a entrevista foi tão anunciada. Já vi que não dá mesmo para esperar nem o mínimo do fantástico, né?

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  11. Gente, a geração carapintada compareceu em peso, hein? Bora fazer uma passeata? hahahaha

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  12. E detlahe, né: contou coisas mais velhas que minha vózinha (o q?? Collor fazendo macumba??? nããããooooooo….) como se fossem novidade. Concordo total contigo, Mônica. Polêmica zerro. Jornalismo zero.

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