Muito Além dos Jogos Olímpicos

Não sou uma pessoa ligada a esportes. Por isso, talvez, o melhor seria me abster de me manifestar sobre os Jogos Olímpicos. Mas quem não gosta de dar opiniões não solicitadas e não abalizadas sobre assuntos variados não se mete a escrever um blogue. Então pronto, lá vão meus dois dedos de palpites.

Os comentários que tenho escutado sobre o desempenho do Brasil nos jogos têm sido sobre a decepção com o desempenho dos atletas, que estão todos “amarelando”, que o Brasil tem complexo de vira-lata, e por aí vai. E a conclusão a que todos chegam é que isso acontece porque no Brasil não há apoio ao esporte.

Acho que não concordo nem com uma coisa, nem com a outra. Quer dizer: com a decepção geral não concordo mesmo. As Olimpíadas reúnem atletas de quase duzentos países, e o pódio só tem três lugares. Estar lá já é uma glória. Não me convenço de jeito nenhum com argumentos do tipo “mas o Cielo (ou o Joãozinho, ou a Mariazinha) estava ganhando tudo antes, por que foi perder justo na hora da medalha?” Perdeu porque perdeu, ué. Porque tinha alguém melhor que ele naquele momento. É chato, mas faz parte do espírito esportivo. Para mim, qualquer atleta que chegue a uma competição como essa é digno de toda a minha admiração só por estar ali. Mas talvez esse meu excesso de tolerância a falhas seja justamente o motivo de eu não ligar para esportes, vai vendo.

Já essa história de que no Brasil não existe incentivo a qualquer esporte que não seja futebol praticado por homens do sexo masculino, não sei não. Minha irmã, que entende muito mais do assunto que eu, diz que temos bolsa-atleta e que várias grandes empresas patrocinam esportes variados – o que de fato pode ser constatado pelo número de propagandas que temos visto nessas semanas de Jgos Olímpicos: é uma enxurrada de bancos, Correios, Sadia, e provavelmente muitas outras. Então não sei, talvez não esteja exatamente faltando dinheiro. (Quer dizer, dinheiro sempre falta, mas enfim.) Acho que o que falta mesmo é público. E aí entra uma versão absurda do complexo de vira-lata, que é o seguinte: nós queremos que o Brasil ganhe tudo, mas não a ponto de torcer. Aí fica difícil.

 

-Monix-

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11 Respostas

  1. Belo ponto. Faltou analisar porque esse ano (e temos que agir para não ser parecido em 2016) o público está ainda mais tímido.

    Eu nunca fui atleta, mas venho de uma família de atletas e minha relação com o esporte é aquela coisa de “voltar ao doce sabor da infância”. Grandes eventos, como os Jogos Olímpicos, devem empolgar as pessoas. E a empolgação passa pela formação de hábito e pela mídia de massa (não sei se esse é o nome técnico correto, corrijam aí, jornalistas e sociólogos).

    Formação de hábito deve vir de casa, da escola, das quadras. Quantas vezes cada um de nós levou os filhos para assistir um campeonato na sua cidade (não vale futebol, volei ou os festivais que os próprios filhos participam)? Moro longe dos “grandes centros”, mas Manaus investe em ginásios, estádios, vila olímpica… Nos últimos anos assisti brasileiro de natação, de ginástica olímpica… E de graça… Mas “soube por acaso” que os eventos estavam por aqui e pouca gente “descobriu”, dado o número de pessoas nas arquibancadas vazias. Chega ao ponto de familiares e equipe técnica de atletas dos outros estados serem um número maior que seus pares locais !?

    Assisto quase tudo o que posso de Londres 2012, mas a vida continua. Semana passada passei duas tardes em salas de espera de consultórios médicos. Em uma dela, bem no horário em que o Brasil jogava futebol, masculino, esporte nacional. Sabe o que passava na TV do local? Vídeo Show, discutindo os rumos da vilã que virou vítima da novela da noite. Tenho ouvido comentários em salas de espera a semana toda: “ah, os jogos começaram, né? o Brasil ganhou medalha? Foram 2? Os atletas não estão fazendo muito, né?”

    O Brasil está falando muito das Olimpíadas de 2016, mas em 2016 precisamos encher os ginásios, precisamos vender camisetas oficiais, chaveirinhos, vídeos, bandeiras e o que mais pensarem. Para todo mundo, não apenas para os turistas e para os aficionados. A Record comprou os direitos de transmissão, mas no 1o dia de competição passava Picapau de manhã. É uma “emissora popular”, mas não alcança as massas, a maioria dos espectadores ainda não sabe para que serve tanto botão no controle remoto e deixa na Globo o dia todo, pois alguma hora a noite vai querer assistir novela. Em tempos de TV a cabo e internet banda larga isso não é um problema para os fãs do esporte, mas como vamos fazer para “criar novo público”? E sem público como vamos criar novos atletas? Não poucos expoentes ou talentos individuais, mas uma produção em massa de atletas.

    Sabe o segredo de ter muito pódios? Ter uma quantidade grande de atletas em todas as categorias e modalidades. É ter competições nacionais mais concorridas que os eventos internacionais (sabia que é as seletivas americanas e chinesas são mais difíceis e concorridas para aqueles medalhistas que vemos nos pódios???). O vôlei fez isso na nossa geração. Outros esportes podem fazer também…

    PS. Eu dou palpite sem ser chamada e nem tenho blog (talvez precise de um). Foi mal ocupar tanto espaço com uma pegada tão grande.

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    • Claudioca, adorei seu comentário! É isso mesmo, sem público não adianta fazer todo o resto. Não sou nada esportiva, mas acho que o esporte tem uma função importantíssima, especialmente em comunidades carentes, e sem torcida, qual a graça? Bjs, Monix

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  2. Chama a atenção, nessa Olimpíada, a ‘ausência’ de Cuba. Seus atletas eram a vitrine do seu país, com muitas medalhas, evidenciando o que poderia ser feito mesmo num país pequeno, sofrendo um bloqueio interminável, quando havia um grande estímulo ao esporte. No quadro de medalhas, sempre estava Cuba, entre as potências esportivas. Desta vez, Cuba parece ter sumido. O que terá havido?

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  3. Nunca comentei no blog, mas o adoro. Ia falar sobre a frase da Rosicleia Campos, mas a Simone já deu até o link e a Claudia comentou com propriedade. Há isso da ignorância (de ignorar) do brasileiro sobre diversas modalidades esportivas. Ninguém entende bulhufas e quando chega na Olimpíada todo mundo vira O/A especialista. O judô fez uma campanha maravilhosa, a CBJ planejou trazer 4 medalhas e elas foram conquistadas… e oq teve de gente criticando, dizendo que foi uma porcaria porque 3 eram de bronze, não tá escrito. Porque o cara que nunca viu judô na vida, que se você perguntar quem era Aurélio Miguel vai responder que era pugilista, se sente no direito de criticar oque não é criticável. Esse é o exemplo do ponto A.
    O ponto B, que pega em cheio no calcanhar de Aquiles brasileiro é mais (como se fosse possível) complexo. Desde de 2004 há dinheiro (mais que nunca) correndo no esporte nacional. A coisa melhorou muito mesmo, porque agora há patrocinadores privados e ajuda governamental. A coisa nunca esteve tão boa. PORÉM, a Ed. Física Escolar brasileira é uma sucata, embora ela venha melhorando consideravelmente na última década. Aí temos o principal problema. Com o pilar que deveria sustentar a cultura de conhecimento cultural e corporal do esporte tão capenga, sofremos muito com a ignorância geral. A EF devassada, resvala na iniciação esportiva do atleta amador, que fica comprometida. Soma-se a isso que os esportes são para lavar a alma do país das mazelas que vivemos. Pronto, não falta mais nada pro circo que vemos de 4 em 4 anos. Sem contar que no Brasil não há ‘democracia esportiva’, dirigentes como Nuzman, Coracy e Teixeira ficam como reis nos cargos e só caem (com muita relutância) mediante escândalos. Não há investimento correto em base, novas idéias pra uma gestão esportiva competentes chegam tardiamente no ‘reinado’ e oq deveria semear a cultura e diversidade esportiva, não funciona.
    Nem sei se me expressei ou fiz entender corretamente, porque como profissional se Educação de Educação Física, vivo esse drama e poderia escrever 50 linhas sobre cada um desses problemas. Infelizmente.

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  4. Júlia, perfeita a sua colocação também. Eu já questionei na escola (particular) dos meus filhos porque eles não divulgam na própria comunidade sobre as participações esportivas que os alunos tem (quando o fazem, é depois de alguma vitória!)… Cadê a formação de público?!?!?!
    E segue mais um link que o assunto hoje está tomando a web:
    http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/olimpiada2012/espirito-olimpico/noticia/2012/08/o-povo-ignorante-e-olimpiadas.html

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  5. Monix, estava espantada esses dias. Como assim, se não der pódio, não valeu nada? Acho uma estupidez criticar atletas pelo seu “mau” desempenho, principalmente aqueles dos esportes individuais. É quase um sacerdócio e fica lá a nação a achar “bronze” muito pouco? E a questão do incentivo tem muita desinformação: no boxe, por exemplo, tem dois medalhistas garantidos, novatos, “descobertos” por um projeto de patrocinio de empresa pública. A diferença pra várias outras modalidades? Uma confederação séria sem cartolas eternos…

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  6. É triste dizer isso Claudia, porque parece coisa de ‘classe média sofre’ e odeio esse discurso, mas imagine nas públicas na qual um dos meus ‘colegas’ de profissão realiza suas aulas de óculos escuro, lendo jornal e tomando café até as 10 da manhã. Ou outro coleguinha que tem um espaço maravilhoso na escola pública em que trabalha e deixa as crianças soltarem pipa toda aula. O bom é que ele é democrático, se quiser descer em um papelão um morrinho de grama que há no campo, sinta-se a vontade. Aula de Bobsled adaptado.
    O pior é pessoas que querem trabalhar direito chegarem nesse cenário caótico. Penso seriamente em abandonar a educação, porque não sou salmão pra nadar contra a corrente a vida inteira e esse tipo de profissional, eu não quero ser. A formação não existe Claudia, oque é terrível, porque daqui 4 anos seremos os donos da festa… e eu tenho calafrios só de pensar oque os atletas do país irão passar se falharem ‘em casa’.
    Obrigada Monix, como é bom participar de uma casa que acolhe tão bem o visitante. 😀
    Bjs

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  7. Na adolescência morei nos EUA por 1 ano. A diferença que senti, comparando o nosso Brasil exclusivamente com aquele país, é que lá o esporte é introduzido pelo currículo escolar e conta pontos – muitos – para entrar em uma boa faculdade. O público se forma com a população das cidadezinhas indo ver seus filhos competirem com outras escolas de cidades vizinhas. Aí nasce também o interesse dos pequenos em praticar alguma coisa. E, como lá esporte é uma opção digna de vida, garante faculdade gratuita em grandes escolas, muitos jovens não desistem de serem “jogarodes de futebol”, ou de qq outra coisa. Veja que grande parte dos campeões olímpicos americanos saem diretamente dos campeonatos universitários. Ótimos palpites, os seus. Abraço, Fábio Ludwig

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