Vida autônoma

“A classe média europeia não está acostumada com a moleza. Toda pessoa normal que se preze esfria a barriga no tanque e a esquenta no fogão, caminha até a padaria para comprar o seu próprio pão e enche o tanque de gasolina com as próprias mãos. É o preço que se paga por conviver com algo totalmente desconhecido no nosso país: a ausência do absurdo abismo social e, portanto, da mão de obra barata e disponível para qualquer necessidade do dia a dia.

Adriana Setti

Minha amiga Cibele mostrou esse texto no Facebook, que eu já conhecia e com o qual concordo – com ressalvas. Aqui no Brasil a estrutura das cidades já considera que teremos “serviçais” (não encontrei termo melhor, e opto por manter este inclusive para não disfarçar o choque que a palavra traz) para realizar certas tarefas – como encher o tanque do carro ou empacotar as compras do supermercado. São tarefas que não compõem o serviço em si, mas que todos nós estamos acostumados a ter alguém que as execute sem que tenhamos trabalho ou sequer percebamos que estamos sendo poupados de fazê-las.

Contando com isso, nós não criamos expertise para desenvolver postos de serviços que possam ser operados por qualquer pessoa.

O aeroporto de Madrid, de onde acabo de chegar, deve ter o tamanho de um pequeno município brasileiro – nunca vi uma estrutura urbana tão gigantesca. Pois lá os voos não são anunciados. O único aviso sonoro é para avisar aos viajantes que os horários e
portões são informados em paineis e que é responsabilidade do passageiro apresentar-se no local e hora corretos para
embarque. Este sistema pressupõe uma maior responsabilidade individual (ninguém conta com a babá do alto-falante chamando os atrasadinhos pelo nome), mas também pressupõe uma organização impecável, que não temos por aqui.

Quantas vezes, ao embarcar em Congonhas ou no Santos Dumont, meu voo mudou, digamos, do portão 2 para o 14, faltando 20 minutos para o horário previsto, sendo que um era no andar de cima e o outro no debaixo, tendo que pegar ônibus e tudo mais? Se essa confusão acontece em Barajas o aeroporto pára.

Poucas estações de metrô contam com guichês para venda de bilhetes. O passageiro compra em máquinas que aceitam moedas, cédulas, cartões de débito, crédito, fazem cafuné e dão troco. As estações são super bem sinalizadas, sabe-se facilmente que linha pegar, onde será feita a conexão, em quantos minutos o trem irá chegar.

Com a ascensão da nova classe média, a tendência é que cada vez menos pessoas estejam dispostas a lavar carros e carregar sacolas por trocados. Muito rapidamente, teremos que tomar esse mesmo caminho: baixar o padrão ao qual estamos acostumados e desestimular a infantilização de certos setores da nossa elite, que continuam precisando de babás disfarçadas ao longo de toda sua vida adulta. A tarefa é tanto individual quanto estrutural, porque tentar construir uma vida autônoma nas cidades brasileiras, sem depender de mão de obra pouco qualificada para prestar serviços desnecessários, não é tão fácil assim. (Ainda.)

-Monix-

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