Obama e eu

A primeira eleição de Obama coincidiu com eventos terríveis na minha vida, e por isso a alegria pela sua vitória empalideceu quase completamente.  A boa nova luzia  distante enquanto eu vivia uma crise sem precedentes  – mais ou menos como  a economia americana naquele final de 2008. Passados quatro anos, Barack  fez um governo apenas regular, mas suficiente para manter-se no comando e  evitar a derrocada que parecia inevitável  –  mais ou menos como eu, guardadas as proporções, of claro. Isto posto, você pode compreender porque eu me emocionei tanto com o discurso da vitória. Neste trecho, em especial, eu tive a irrracional certeza de que ele falava para mim: “while our road has been hard, while our journey has been long, we have picked ourselves up, we have fought our way back, and we know in our hearts that …the best is yet to come.” Yeah, man!

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Pensando bem, acho ótimo que o primeiro mandato  de Obama tenha sido apenas mediano, presta uma enorme contribuição à igualdade racial. Porque veja bem: prova que também nós negros podemos fazer um governo apenas razoável — como qualquer branco. Ao contrário da regra que dita  que precisamos ser extraordinários, os melhores em nossas turmas, seções e departamentos para conseguir o que brancos com menor capacidade obtém sem esforço. Dito assim soa agressivo, eu sei. Mas é assim que acontece. É bom não precisar inventar o dente, como diria o inspirado Chris Rock.

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No discurso houve também a belíssima declaração à Michelle. Quem não gostaria de receber um afago como esse, num momento como aquele? Sim, ele é um político, blábláblá. Mas se todo político enaltece a família, Obama faz  soar verdadeiro, genuíno. Visto daqui parece que o marquetingue e a oratória trabalham com matéria prima legítima.  E há um detalhe realmente inovador: Obama promove a imagem do casal, além da família. E demostra pela mulher não apenas afeição, mas algo raríssimo de ver um homem expressar: orgulho e admiração.

“Let me say this publicly. Michelle, I have never loved you more”. 

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Li aqui e ali alguns comentários desdenhosos do tipo “vocês aí que estão entusiasmados com a vitória do Obama”, como se fôssemos todos neófitos deslumbrados. Só posso falar por mim: já não tenho idade para ser nem uma coisa nem outra. Evidentemente que Obama não representa nenhuma força revolucionária ou coisa que o valha, au contraire. Mas há um ganho de valor incalculável com o novo paradigma estético, imagético, social que sua vitória inaugura e a reeleição amplia. Eu me permito sim ficar feliz com a vitória dele, que mais não seja pela oportunidade de ver uma família negra com tamanho destaque e positividade. Nunca antes na história do mundo globalizado assistimos a isso, e há repercussões que ainda levaremos anos detectando, muito depois que esse mandato acabar. Mãe que sou de um criança que está assistindo a esses momentos históricos, acho que trata-se de uma oportunidade ímpar. Na boa: a longo prazo não faz a menor diferença para nós quem governa os EUA (a médio e curto também). Mas, como disse a filha de uma amiga, do alto de seus 12 anos, satisfeita com o resultado: “eu gosto dele e também porque ele é um presidente negro e isso é muito importante para muita gente.” Eu diria que para todos nós.

Helê

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