Quero ser pai

Quero saber, nem que seja por um dia, como é viver sem sentir culpa por todos os problemas da criança, e talvez por alguns da humanidade também. Quero não me descabelar nem ter que dar ordens em tom de voz crescente, apenas para ser ignorada – quero resolver tudo com uma simples frase, tipo “come direito”, “vai estudar”, “já pro banho”. E mesmo que não seja obedecida, quero voltar a ler meu livro ou assistir TV sem me abalar ou me remoer eternamente com perguntas inúteis como “onde foi que eu errei?”.

Quero esquecer que hoje tinha reunião da escola. E se me lembrar, quero conseguir deixar pra lá e ir tomar um chope. Quero programar uma viagem sem nem cogitar sobre quem vai ficar com a criança. Quero tirar o menino da cama para ir à escola com uma sacudida e um “tá na hora”.

Quero apenas perguntar “quanto custa?” para qualquer coisa, sem ficar me questionando durante horas, dias, semanas, se esta é a melhor opção ou se não seria melhor fazer de outra forma.

Pelo menos por um dia, eu quero. Mas, se possível, para sempre.

 Eu me esforço, mas é difícil, viu? Não cair na armadilha dos papéis de gênero.

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