A vanguarda que tínhamos

Eu sou dum tempo em que todo mundo sabia quem era Gerald Thomas. E todo mundo sabia que ele é um cara, digamos, excêntrico, que tem um gosto especial por polêmicas, e sempre parece escolher o caminho mais estranho para provar seu ponto.

Naquela época distante, sei lá, uns 25 anos atrás, os famosos eram uma espécie de intelligentszia, uma elite intelectual que pairava acima de nós pequenos burgueses. Havia uma certa aura que os rodeava, permitindo-os fazer e dizer coisas que nem sempre faziam muito sentido, mas rolava uma licença poética, uma permissão social.

Corta para 2013, e não se dá mais importância nenhuma à suposta elite intelectual – a cena é dominada pelas celebridades. A própria definição de “ser polêmico” migrou do sentido Gerald Thomas para o sentido Rafinha Bastos, o que por si só já diz muita coisa.

A cena em que Thomas enfia a mão por dentro do vestido de uma moça chamada Nicole Bahls (não conheço, sou velha, me deixem) é grotesca em muitos, muitos sentidos, e não preciso discorrer sobre o assunto que já foi amplamente discutido e repercutido nos últimos dias. O que me chamou a atenção foi o choque entre essas duas gerações tão diferentes, entre dois mundos que se sobrepõem e convivem no tempo e no espaço, mas não compartilham absolutamente dos mesmos valores, ideologias, visões. Gerald Thomas versus o Pânico na TV é mais do que uma polêmica, são literamente worlds coliding.

O mais curioso foi ver toda a turma meio-intelectual-meio-de-esquerda da minha geração, que cresceu no contexto em que Gerald Thomas era a vanguarda que tínhamos, gostássemos ou não, sair em defesa – com toda a razão – da repórter do Pânico.

E eu vivi para ver isso…

-Monix-

 

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