Tranquilo

tranq

(from sinister-seventeen:)

Da série “Corações” – para o Giba ;-).

Helê

Apertado

sofrido

(via cuoregraffiato)

Da série “Corações”

Helê

Vaidade

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(Source: miahanamura, via all-things-bright-and-beyootiful)

Helê

Um rio de conflitos

Há quanto tempo estão acontecendo as manifestações no Brasil? Um mês? Confesso que estou com preguiça de procurar. Li em algum lugar o termo “jornadas de junho” e gostei, embora “revolta do vinagre” seja muito mais divertido, é claro. Enfim. O movimento começou e quando a gente acha que galere cansou e vai voltar pro videogame, um novo fôlego surge e volta todo mundo pra rua.

O protesto de ontem foi convocado pelas centrais sindicais, e a expectativa ao longo da semana, pelo menos onde eu circulei, era de que seria mais uma passeata à moda “antiga”, com lideranças no carro de som gritando palavras de ordem, os sindicalistas de sempre puxando o cordão, e aquela nossa velha e conhecida sensação de que esse discurso “não nos representa”.

Mas não foi isso o que aconteceu, pelo menos não aqui no Rio – não vou me aventurar a falar das outras cidades, pois mal entendo o que acontece na minha, que dirá. Aqui, mais uma vez, o que poderia ter sido uma “passeata chapa branca” se transformou numa manifestação caótica de protestos contra um governo estadual que está totalmente descolado da realidade, manifestação esta que recebeu como resposta a força do tacape da polícia fluminense.

Desde o início das jornadas de junho, a atuação da polícia em todos os estados do Brasil tem sido chocante. Mas acho que no Rio temos um cenário diferente – aqui o buraco é mais embaixo. Parece que o “fator UPP” desestabiliza – a impressão que tenho é que tem mesmo uma turma da bandidagem infiltrada e provocando a polícia. Li no Facebook* que “a bandidagem do São Carlos deu ordem de seus asseclas descerem pras ruas no dia da marcha até a Prefeitura”, coisa de que não duvido. Ou seja, é bem possível que, pelo menos aqui, esteja ocorrendo mesmo uma “orquestração” do tal “vandalismo”.

Só que aí acontece o fenômeno: a polícia fluminense, aquela que supostamente seria a “pacificadora”, que teria entrado nas comunidades quebrando o ciclo da violência e trazendo a cidadania para o morro – só que não, como descobrimos tardiamente -, reage do único jeito que sabe: dispersando toda e qualquer aglomeração de mais de três pessoas na rua, descendo o cacete e impondo o toque de recolher. Veja bem: é claro que a polícia não pode deixar o caos e a destruição tomarem conta da cidade. Se é verdade que há traficantes misturados aos manifestantes, isso tem que ser observado, identificado e combatido, é claro. Mas como temos uma polícia acostumada a agir apenas com base na truculência, há décadas, longe das câmeras e da classe média, eles só sabem responder dessa forma. Aí dá problema, porque né? Jogar spray de pimenta na cara do representante da Anistia Internacional no Brasil e gás lacrimogênio no hospital particular não estava no script, qualquer script.

Já li também algumas teorias da conspiração sobre agentes da P2 insuflando a confusão, coisa de que também não duvido, possivelmente a mando ou com o consentimento do governador, que estaria querendo um pretexto para bater nos manifestantes. Segundo quem esteve na rua, a polícia não confronta os verdadeiros bandidos (até porque contra esses não dá pra ir só com bala de borracha e gás), mas ataca apenas os manifestantes pacíficos.

Em resumo, é um caldo cultural que não pode acabar bem: traficantes tentando retaliar o governo que dificultou sua atuação + polícia despreparada usando as táticas que adotam nas comunidades só que contra a classe média + policiais à paisana criando a desestabilização para justificar a porrada + autoridades omissas (na melhor das hipóteses) ou coniventes (na pior).

Para encerrar, o recado do amigo deste blog Marcos VP, que não deixa muito espaço para otimismo.

“Hoje, agora, neste momento, no Rio de Janeiro, das duas, uma: ou o governador e o prefeito são dois facínoras como poucas vezes se viu nessa cidade, ou simplesmente não controlam mais nada, estão acuados em suas salas e o poder constituído está na mão de sabe-se lá quem. A única certeza é que esse alguém tem divisas nos ombros. O Rio vive um clima de estado de sítio. E vocês se preocupando com o Obama.”

-Monix-

* O Facebook e o Twitter são também fatores que alteram o equilíbrio do jogo tradicional, mas sobre isso todo mundo já falou. É algo completamente novo poder contar com relatos de dezenas, centenas de pessoas que mostram de forma independente, não coordenada, o que veem. Não há interesse escuso nem comprometimentos outros que não os de suas próprias consciências, e na minha rede de amigos já identifiquei dois ou três que estão atuando ativamente na disseminação de informações nos momentos críticos. É muito mais fácil, para mim, confiar no testemunho de quem eu conheço e estava lá. Essa novidade muda tudo – a conferir.

Eles são de Marte, e nós também

Tenho visto muita gente fazendo comparações entre os políticos brasileiros e os de outros países, no que diz respeito ao trato da coisa pública. O primeiro ministro inglês que vai de metrô para o trabalho, o presidente uruguaio que anda de Fusca, os parlamentares escandinavos que só recebem ajuda de custo, etc.

Enquanto isso,  os políticos brasileiros têm uma enorme dificuldade de entender a distinção entre o que é público e o que é privado – o governador do Rio mora em seu  apartamento no Leblon, dispensa a estrutura da residência oficial, consome recursos para manter sua segurança e a de sua família (isso sim um assunto de Estado), se desloca de  helicóptero e, acredito,  genuinamente não entende por que as pessoas estão reclamado. Para Sérgio Cabral (o filho), assim como para toda a classe política, os privilégios fazem parte da liturgia do cargo. Como diz meu pai, a mentalidade política brasileira parou na monarquia, em que o Tesouro pertence ao Rei para usá-lo como queira.

O problema é que ao mesmo tempo em que a sociedade brasileira claramente deseja dar um basta a essa confusão, me parece que a questão de fundo não está sendo atacada. Ao contrário do que a Veja quer nos convencer, nossos políticos não vieram de outra galáxia. Faz parte da cultura brasileira reconhecer status através das pequenas e grandes mordomias. Nenhum de nós, se fôssemos governadores de qualquer coisa, andaríamos de metrô. (Tá, eu sei, você andaria, mas faz de conta que estamos falando do seu vizinho.)

Os políticos têm que escutar o que as ruas estão pedindo – uma mudança radical de comportamento. Mas acima de tudo, as ruas têm que se escutar. Se Narciso acha feio o que não é espelho, precisamos mudar se queremos que eles mudem – porque eles somos nós.

-Monix-

Da opressão da beleza

tootsie-749288Vi esse vídeo ontem no Feissy e compartilhei na hora (coisa que faço cada vez mais raramente). Fiquei muito, muito comovida com o que Dustin Hoffman diz e também com sua emoção genuína e despretensiosa – ele não está promovendo um novo longa ou livro, mas falando de um filme que rodou há décadas. Dustin relembra “Tootsie”, megasucesso em 1982, em que vive um ator desempregado que consegue um papel e sucesso se fazendo passar por uma mulher.

“Como eu seria diferente se eu tivesse nascido mulher?” Hoffman encontra a resposta logo após  conseguir se passar por uma e  sentir, ato contínuo, a opressiva necessidade de ser bela. Sensível, ele percebe com pesar todas as  pessoas interessantes que deixou de conhecer porque foi adestrado para exigir determinadas credenciais femininas antes de sequer se  aproximar. Ele conclui com dificuldade, a voz muito embargada, sobre “Tootsie”: “Para mim nunca foi uma comédia”.

Aí você pensa: ‘Tá, ok, mas o que tem isso a ver? O cara tá falando da experiência dele ao fazer um filme  30 anos atrás…” E poucas horas depois eu vejo no tumbrl que Marion Bartoli, tenista francesa de 28 anos que venceu o torneio de Wimblendon, está sofrendo bullying virtual porque é “muito feia para ganhar”.

Ganhar um dos quatro  campeonatos de tênis mais importantes do mundo. Não o Ford Models ou Miss Universo, mes amis.

I rest my case.

marion

Matéria do Daily Mail sobre os ataques à Marion  

Helê

E depois da meia noite?

Como já disse a antropóloga Rita Lee: toda mulher é chata, todo homem é bobo.
Celine é chata, Jesse é bobo, e talvez por isso sua história possa ser considerada tão arquetípica dos relacionamentos amorosos dessa virada de milênio. Em 18 anos eles viveram um romance-aventura daqueles que só quem tem a vida toda pela frente pode encarar;  passaram pelo choque de realidade dos trinta e poucos, se reencontraram e ousaram experimentar ficar juntos; agora estão simplesmente buscando uma forma de ficar juntos apesar de.
Em determinado momento da longa DR que é Antes da Meia Noite, Jesse diz a Celine que ela é doida (e para ele isso é um elogio). Doida não – acho que Celine simboliza as mulheres de uma geração, a minha. Pela primeira vez na história da civilização ocidental, nós mulheres que hoje temos cerca de quarenta pudemos escolher. Estar ou não casadas, ter ou não filhos, agora ou mais tarde, priorizar ou não a carreira, estudar mais, viajar mais, enfim, são muitas opções e todas elas são válidas. Isso é bom e muito libertador, mas também é muito confuso e fonte de muita angústia. Celine fez escolhas, e essas escolhas definem quem ela é hoje. Mas e se ela tivesse seguido em outra direção? Buscar essa resposta é o que a deixa doida, e culpada, frustrada, cansada, enfim, tantas coisas que a confusão gerada por ela torna tudo ao seu redor ingerenciável.
Se houver uma continuação para essa história, daqui a nove anos espero encontrar Celine em paz com ela mesma. E prestando mais atenção na estrada que ela está trilhando do que em todas as bifurcações que deixou para trás no caminho.
-Monix-

Update: pensando um pouco mais sobre o filme, acho interessante que de certa forma o estereótipo está invertido: Celine racionaliza demais e por isso não consegue controlar suas reações; por sua vez, Jesse sente demais, e tem mais certeza do que sente, por isso consegue, aparentemente manter o equilíbrio enquanto ela surta.

Vai deixar saudade

Gosto de livrarias e de  papelarias. É uma atração meio inexplicável. Apenas me sinto bem nesses lugares, entro em uma espécie de transe, hipnotizada pelas capas coloridas, títulos sugestivos, pelas canetinhas e lápis de cor, por fichários que nunca usarei, por livros que nunca lerei.
Como aficcionada (e estudiosa) da cultura digital, acredito – mesmo – que em poucos anos os livros e revistas de papel serão ultrapassados por conteúdo distribuído digitalmente. E não sou nostálgica a ponto de me apegar a argumentos tão vagos como “o cheiro do livro”, a “sensação de folhear as páginas” e por aí vai.
Não me importo de ler um livro no celular – tenho feito isso cada vez com mais frequência.
Vou sentir falta, mesmo, é dos sebos e livrarias.
-Monix-

No meio do caminho tinha um Caymmi

No meio do caminho tinha um  Caymmi

(zoomcariocaFoto: Jornal O Globo)

Esta estátua de Dorival Caymmi fica ali no início da praia de Copacabana, perto do Forte, e é uma da várias estátuas humanizadas da cidade, como chamou a reportagem de uma revista carioca dia desses. São monumentos em que os homenageados, ao contrário de impávidos em pedestais, simulam ações cotidianas, como o famoso Drummond no banco da mesma praia, alguns metros adiante. Considero uma daquelas coisas tipicamente cariocas – mesmo que apareça alguém para provar que a ideia foi de um arquiteto iugoslavo que morava em Niteroi, não interessa. Importa é que aqui essas estátuas se fundem à paisagem, provocam reações e estabelecem uma relação com os passantes. A menina da foto achou que o baiano precisava de um celular. Já eu acho que ele está a minha espera na metade dos meus 8 km dominicais. Por via das dúvidas, faço um high five discreto enquanto o circundo feliz, pensando “Agora só faltam 4!”.
Helê

Capitus e Bentinhos

A mulher enganou o diabo, diz o diabo e dizem, sobretudo, os enganados. Abandonados, traídos e esquecidos não faltam no cancioneiro popular, nem mulheres perversas. Ou aquelas que simplesmente não querem mais, e por isso viram bruxas. Mas há outro tipo que vez por outra surge em notas musicais e eu acho particularmente interessante: as dissimuladas, escorregadias, com dois centímetros a menos da honestidade esperada numa relação; as que aprontam e enlouquecem seus amados que, no entanto, permanecem com elas, entre lamentos e resignação.

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A primeira dessas com a qual esbarrei (e me encantei) foi “A Rosa” do Chico, aquela que ele já apresenta dizendo: “arrasa/o meu projeto de vida”. Assim, direto, no primeiro verso, como se fosse descrever a pior das megeras. Mas completa: “Querida, estrela do meu caminho”. E por aí ele segue, fazendo conosco o que ela faz com ele: dribles, jogo de corpo, dando uma no ferro e outra na ferradura. A Rosa some nas altas da madrugas mas, coitada, trabalha de plantonista. Tem incongruências, como visitar a família em São Paulo e voltar descascando; sair pra comprar cigarro e voltar com coisas do norte. Mas, bolas, inventa cada carícia e é tão fogosa, que o próprio cara desculpa seus deslizes: “A santa/às vezes me chama Alberto/De certo sonhou com alguma novela”. Ela é tão viva, e divertida e livre que ao fim da música estamos todos, como Chico, rendidos aos seus encantos – e esperando que ela um dia volte pra casa.

Outra mulher difícil, essa bem mais malvada, é a descrita por Aldir Blanc em “Incompatibilidade de gênios”. Acaba levando o homem a pedir a separação, e toda a canção trata-se dele explicando como chegou a este estágio – para alguém que eu suponho seja um juiz, já que é tratado como “Dotô”. Ao contrário da Rosa, dessa só sabemos só os podres , e por isso mesmo impressiona que ele tenha demorando tanto para se rebelar. Pra início de conversa, a mulher muda a estação do rádio no jogo do Flamengo – o que por si só justifica anulação de casamento. A malvada leva a mãe pra morar com eles e convida os cobradores a entrar – e ainda manda sentar! Acho um primor a maneira elegante como ele fala que ela se nega a transar: “Durante dez noites me faz jejuar”’.  Ela deve amar o cara, pois recorre a expedientes heterodoxos para mantê-lo (“Coou/meu café na calça pra me segurar”), mas  beira o sadismo: sequer lhe assopra um cisco no olho (“falou que por ela eu podia cegar”).  Mas o cidadão só decide dar um basta quando ela sonha com ele, manda jogar no bicho – no burro – e acerta a dezena, a centena e o milhar.

Toquinho também descreve um homem absolutamente entregue a uma mulher que não parece corresponder a devoção. Em “Doce vida”, ele praticamente pede: me engana que eu gosto.

“Diga que dessa vez foi tudo intriga/Conta a mentira mais antiga
A do cinema com uma amiga/Jura com as mãos fazendo figa
Mas fica aqui do meu lado”

Essa deve valer muito a pena porque apesar das escapadas mais óbvias e desculpas esfarrapadas (“cabeleireira, massagista e costureira”) , apesar dela espalhar que é solteira e chegar “depois das três da madrugada/com a pintura retocada/ligeiramente perfumada”, o cabra ainda espera, e perdoa. Afinal, “toda rosa tem espinhos” e ele acredita no que quer: “bem no fundo/o seu dono sou eu”.

Malandras, cínicas, safadas? Otários, cornos, manés? Perigoso classificar, como sempre; eu não me arrisco. Sei que quando ouço essas canções sempre me divirto com a situação e com esses personagens. As mulheres me intrigam – há de haver um encanto muito especial nelas, parecem mesmo fascinantes. Também os homens são dignos de admiração, capazes de uma generosa dose de abnegação para superar não apenas os vacilos, mas o julgamento alheio para viver um amor que, apesar de tudo, lhes apetece. Talvez personifiquem a versão masculina da expressão “mulher de malandro”: apanham (num sentido figurado) mas continuam juntos. E elas, faceiras, ardilosas, maduras, mantém seus amores sem que isso lhes cerceie a liberdade. No fundo, acho que é isso que  me agrada nessas canções: certa inversão de valores (machistas) e alguma desconfiança de que  talvez sejam apenas as versões masculinas (inseguras, fantasiosas) de Bentinhos miseravelmente apaixonados por essas Capitus pós-modernas, independentes, felizes, donas de seus narizes.

Helê

(Há anos tenho essa ideia de pleilist e nunca parei para fazê-la, de fato – talvez buscando a perfeição, essa desculpa disfarçada de virtude. O post estava todo rascunhado na cabeça e também no word, mas o último parágrafo só nasceu agora, pouco antes da publicação – consequetemente, o título. Nada não, é que me intrigam os misteriosos caminhos da criação).

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